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Ao Pedro Quartin Graça

por Nuno Castelo-Branco, em 25.07.12

Ainda há poucas semanas, tive a oportunidade de escutar a opinião que uns russos, amigos dos meus pais, tinham acerca de Portugal. Interrogando-me um deles acerca da razão pela qual a II República tinha vingado durante meio século, apenas me ocorreu observar que ..."enquanto foram vivas as gerações que conheceram o Portugal de 1907-1926, Salazar pouco ou nada teve de temer". É esta a minha opinião. Assim, a memória da história consiste numa essencial ferramenta do situacionismo, por muitas falhas que ele demonstre. 

 

Infelizmente não sou um crente do sistema que as listas engendradas por capelinhas apresentam como a única, quiçá derradeira, forma de democracia. Assim, nos últimos vinte cinco anos apenas me apresentei, por amável convite do Pedro Quartin Graça, às últimas eleições parlamentares, sem que isso representasse qualquer tipo de ilusões ou ânsia de insólito protagonismo. Antes pelo contrário, tal como uns dias antes do sufrágio aqui deixei escrito, apenas fui movido por uma certa ideia de Portugal e por alguns princípios basilares que o então MPT propunha a um eleitorado invariavelmente distraído. Esses princípios eram e são uma novidade já antiga de três décadas e ensimesmo-me a pensar no que hoje poderíamos ser, se os nossos agentes políticos tivessem optado pela racionalidade que alija paixões, interesses mesquinhos ou fanatismos sem nexo. Bem ao contrário daquilo que alguns anónimos comentadores poderão pensar, jamais participei em qualquer tipo  de bataclan sito nas proximidades do poder instituído. Para colocar um pedregulho sobre qualquer hipótese de recompensa política, declaro porvir de uma família, onde apesar de profundas diferenças de opinião, existe uma absoluta lealdade à Casa de Bragança. Assim, qualquer sugestão de calculismo tachista da minha parte, é um escusável insulto que nem sequer merece uma resposta. Por espreguiçada lassidão e total falta de ambição - um dos meus grandes defeitos, creiam-me -, enfastiam-me reuniões pro forma, palestras de agenda mediática e os bem conhecidos clubes de defesa de cumplicidades. Pouca gente conheço que ocupe altos cargos políticos e nunca lhes pedi ou sugeri o que quer que fosse. Se é certo não cultivar quaisquer tipo de pruridos ou repulsa quanto ao desempenho sério de cargos públicos - um serviço que não pode ser uma sinecura -, tal nunca aconteceu, nem penso estar próximo o momento de surgir qualquer proposta desse jaez. Em trinta e seis anos de regime constitucional, apenas fui convidado uma única e exclusiva vez, para um encontro de  "troca de impressões" com um ministro. E fiquei por aí, sem sequer por um momento pensar em telefonemas ou feed-backs sem merecimento. 

 

Aquilo que aqui disse acerca do desabafo, calculado ou não, de Pedro Passos Coelho - homem que jamais vi em carne e osso e com quem jamais mantive qualquer tipo de contacto directo ou indirecto -, apenas confirma a necessidade da urgência do regresso do senso comum à nossa política. Os erros são tão graves como esmagadores e de longe chegam ao nosso quotidiano, sendo fastidiosamente repetidos até à exaustão. Não se pode modificar um quadro catastrófico em apenas um ano e uns tantos meses de governação. Por muito que isso possa escandalizar alguns dos leitores deste blog, sempre desejei o maior sucesso a todos os primeiros-ministros que assumiram tal função, excluindo-se, claro está, o Sr. Vasco Gonçalves, um prestidigitador da desgraça a quem dediquei toda a oposição que os meus então verdíssimos anos possibilitavam. Sempre me foi completamente indiferente o exercício do poder por parte de qualquer um dos Partidos do arco da governação, deste que essa pesadíssima faina correspondesse às límpidas necessidades do país enquanto entidade soberana. As promessas foram muitas, mas a louca realidade mostra o oposto daquilo que todos almejámos. 

 

Muitos erros têm sido cometidos pelo actual governo e poderá ser fácil apontá-los, sem que isso até agora tenha implícita a necessária e urgente apresentação de alternativas. A verdade é que a III República - esperemos que seja a derradeira da série - se encontra submetida à tutela estrangeira, vergonha que era há décadas por muitos apontada como incontornável. Não escutaram, quiseram participar na fábula da cigarra e da formiga, vendendo ao desbarato os sonhos e as hipóteses de sólido porvir da nação e do Estado. Vivemos um momento desesperado e nem por isso se vislumbra aquilo que seria legítimo e lógico perante a queda iminente, ou seja, uma certa ponderação e alijar de ódios, recriminações e da clubite que outrora destruiu o nosso primeiro e longevo regime constitucional. Sem dinheiro próprio ou importado mercê do Bundesbank, sem fronteiras e alfândegas com pautas aduaneiras, sem Forças Armadas, sem um Chefe de Estado de acordo com o nosso percurso histórico, sem indústria, agricultura e pescas, o que nos propõem então os descontentes com a brutalidade que diariamente é infligida a uma população que contudo se mantém calma? Nada e apenas uma voz se fez ouvir quanto à tão ardilosa quão errónea proposta de todos recorrermos à espiral inflacionista, ..."colocando as rotativas a trabalharem a pleno vapor". Todos decerto conhecem o que isto implicaria a breve trecho.

 

Este regime é tudo aquilo que lhe apontamos e talvez ainda algo mais que desconheçamos, hipótese que o meu amigo Pedro Quartrin Graça - várias vezes deputado e crítico-conhecedor do sistema - talvez esteja em boa posição para denunciar. Desconhecendo os meandros do poder e os seus agentes, creio-me livre para tecer considerações acerca da necessária desfulanização dos nossos problemas políticos que inevitavelmente têm as suas repercussões em toda a sociedade. Não me limitei à defesa de Pedro Passos Coelho, o presidente de um Partido no qual jamais votei. Apenas pretendi indicar o óbvio, pois à falta de alternativas coerentes e que garantam a nossa impunidade de meros e ignotos comentadores-escribas, não se vislumbra outro caminho.

 

Alguém quer apontá-lo?

publicado às 20:55


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