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Um pedaço de papel

por Nuno Castelo-Branco, em 25.08.12

 

Winston Churchill era senhor de uma exuberante, controversa e multifacetada personalidade. Sem fugirmos muito à realidade dos nossos dias, poderíamos até dizer que a surgir alguém com uma craveira de estadista capaz de ombrear com os maiores de um passado ainda não tão distante, esse nome chegar-nos-á da Inglaterra. 

 

Quando rabiscou o papel que a imagem mostra, o Premier britânico limitava-se a reconhecer os factos no terreno, resignando-se a salvar o possível e desta forma assim se submetia à imprevista boa vontade do bastante irascível José Estaline. Para Estaline, a Roménia e a Bulgária significavam precisamente o mesmo que para a Grã-Bretanha, eram o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco. A guerra corria de feição para a frente aliada e os britânicos tinham visto liminarmente rejeitado, o seu ambicioso e estrategicamente racional plano de desembarque anglo-americano no "baixo ventre da Europa", os Balcãs. O que Churchill talvez tenha minimizado, foi a ânsia norte-americana em eliminar o majestoso edifício internacional que era o Império Britânico e com ele, todos os outros que a Europa fora construindo no além-mar: a França, Portugal, Holanda e a Bélgica, automaticamente teriam de ceder pela força das circunstâncias criadas no pós-guerra. Roosevelt decidira-se por um mundo bipolar dependente de um condomínio russo-americano e pelo ocaso da Europa. 

 

A avalanche soviética nos Balcãs e na Europa Central, ditava o fim do predomínio germânico na área, reordenando à vontade de Moscovo, uma meia dúzia de países essenciais ao equilíbrio de forças no continente. Tudo cedendo para manter a Grécia, Churchill evitava o absoluto controlo do Mediterrâneo, por uma Rússia até então contida pelos Dardanelos. Mantendo-se a Grécia, a Turquia resistiria e com ela, uma boa parte do Médio Oriente. Este pedaço de papel, vergonhoso e indecente na forma, foi contudo  bastante realista no conteúdo e merece alguma reflexão. Oxalá os senhores de Bruxelas, Paris e Berlim dele se recordem. Há uma semana, aqui deixámos algumas reflexões acerca do posicionamento da Grécia no todo europeu e o que significaria a sua passagem para outra esfera de influência. A clara mudança de discursos orados por Angela Merkel e F. Hollande, talvez indiciem algo. Esperemos e veremos se compreenderam aquilo que a história tem para lhes contar. 

publicado às 19:04


4 comentários

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De Duarte Meira a 25.08.2012 às 19:49


«...e o que significaria a sua passagem para outra esfera de influência.»

Já passámos. A Europa ocidental depende em cerca de 70% dos abastecimentos de petróleo e gás natural vindos da Rússia. E pagámos para ser dependentes, financinando as 13 condutas do gás. Tais são as condutas com que os governantes europeus vão preparando a futura entrada da Rússia na UE.
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De Nuno Castelo-Branco a 25.08.2012 às 20:12

Caro Duarte, referia-me apenas à Grécia. Como aqui já afirmámos várias vezes, os negócios russo-alemães e a cada vez maior dependência energética face a Moscovo, talvez indiquem o rumo que a política tomará. Aliás, cada vez mais parece possível uma nova divisão da Europa e os alemães disso deverão ter a plena consciência. Não sabemos é se eles entenderão o que isso significa: será um Drang nach Westen e sem T-34 a ajudarem ao facto consumado.  
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De Duarte Meira a 25.08.2012 às 22:29


A Grécia e nós todos "vamos passar para outra esfera de influência". O Drang será, uma vez mais, invertido: a Rússia, quando entrar (formalmente) na UE (União Eurásica) controlará este sector do condomínio mundial tripartido com a China e a norte-América. E os alemães pouco poderão fazer, mas será muito interessante o embate cultural gemano-russo.

Tal adesão da Rússia (com a rapidez com que as coisas andam) ainda será no tempo do meu caro Nuno castelo Branco. Verá.

Nesta conjuntura, estou curioso de ver o resto da suas reflexões, que nos prometeu extensíveis à situação do nosso pobre Portugal. Talvez, lembrando o que dizia Orwell dos blocos tricontinentais, no seu 1984, o Nuno tenha alguma coisa a dizer também da Grã-Bretanha, a nossa velha aliada. Pessoalmente, considero-a um caso perdio, e confiaria muito mais no Brasil e na nossa África lusíada. Mas, como diz, quando os ingleses virem que ficam completamente insulados na Eurásia, talvez, quem sabe...

« uma craveira de estadista capaz de ombrear com os maiores de um passado ainda não tão distante, esse nome chegar-nos-á da Inglaterra.»
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De Nuno Castelo-Branco a 27.08.2012 às 19:30

Duarte, assim que puder, aqui deixarei as minhas reflexões acerca de Portugal e de alguns problemas que me parecem relevantes. Quanto à Rússia, estamos de acordo. Se puder, dê uma vista de olhos no post que aqui deixei há alguns dias: http://estadosentido.blogs.sapo.pt/2166977.html
Os alemães podem voltar a tentar o "bloco continental" a leste, mas nem a Alemanha é o que foi, nem a Rússia me parece disposta a ser uma entidade subalterna, ou sequer dispor-se a um "condomínio" que bem pode dispensar. É  tudo ou nada. 


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