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Die Welle

por Fernando Melro dos Santos, em 19.09.12

Bom dia a todos.

 

Segundo sondagens realizadas este mês na Grécia, o partido Amanhecer Dourado, de inspiração Nacional-Socialista, colheria 12% dos votos em hipotéticas eleições legislativas.

 

De acordo com as mesmas fontes (na Grécia é costume haver diferenças grosseiras entre as várias sondagens, uma vez que existem, salvo erro meu, oito entidades públicas responsáveis pelos inquéritos) o Syriza, da Esquerda Radical - portanto os socialistas da maralha, versus os socialistas do taco de baseball mencionados em primeiro lugar neste post - iria com 31%.

 

Este valor é superior ao do partido que formou governo aquando do último sufrágio, o Nova Democracia, e que é por seu turno um partido socialista de persuasão centrista e tecnocrática.

 

Decerto conseguiremos detectar o denominador comum a todos estes nossos heróis, mas nem é por aqui que segue a história; e até porque apesar de tudo, das minhas visitas a Atenas, onde tenho um punhado de amigos, duas coisas retenho. Uma, nunca fui apanhado numa manifestação violenta que não tresandasse à presença de grupelhos radicais; e outra, não ouvi nenhum dos meus amigos, que se distribuem por diversas classes sociais, exorbitar em devaneios despesistas, nem apelar à engorda do Estado. 

 

Quer-me parecer, por tudo isto, que a Grécia é, em tudo, Portugal à distância de uns poucos meses, como sempre o disse, efeito este que será extensível à Espanha, porém neste caso pejado de maior incerteza devido à absoluta diferença de escala entre esta economia e as anteriores.

 

Ora eu vi, em 2008, Die Welle (A Onda) que é um filme alemão realizado por Dennis Gansel. Ali é ilustrado o percurso de Rainer, um professor de Educação Física e Filosofia (só isto já dava um tratado, porque em Portugal, a ser possível, exigiria dúzias de licenças, certificados, e as respectivas taxas) que um dia decide evoluir na sua carreira, através de um projecto numa das turmas à qual lecciona.

 

Rainer começa por colocar, na aula, a questão "quantos de vós acham possível a Alemanha regressar a uma ditadura?". Naturalmente, de entre os petizes, que no caso em apreço são alunos do Secundário, nem um responde pela afirmativa, havendo mesmo alguns a ter reacções de choque e de assombro. Como é que a democracia permitiria isso, inquirem uns; as pessoas agora têm outra cultura, decidem outros.

 

O professor toma então entre as suas mãos a tarefa, por meios a início subreptícios, de verificar a razão da maioria. 

 

Seria vil e contraproducente contar como se desenvolve e termina o filme, por isso recomendo que o vejam. Com uma dedicatória especial ao meu confrade João Quaresma e aos demais que ainda, por serem talvez melhores pessoas que eu, têm a crença de que a democracia, e com ela o acto eleitoral, não se encontram viciados.

publicado às 07:55


5 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 19.09.2012 às 09:21

Não tenho grandes ilusões quanto a isso. A começar com a Constituição que ousa impor "limites materiais", até à forma de escrutínio e às imposições dos directórios partidários, temos graves lacunas que apenas confirmam aquilo que muitos consideram ser uma democracia exercida de forma indirecta. Sendo impossível o escrutínio permanente, os sistemas ocidentais têm sido uma forma de compromisso, mas as últimas três décadas têm assistido a uma secundarização da política em benefício dos grupos corporativos. Este é um longo debate.
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De Duarte Meira a 19.09.2012 às 18:30



Vi o filme alemão, aliás baseado num caso verídico passado num college californiano dos finais de 60. O caso do filme, e as experiências da "tortura", do psicólogo Stanley Milgram, e da "prisão, do psicólogo Philip Zimbardo, dão-nos uma lição humana que se resume em poucas palavras, também sugeridas pelas reflexões de Ana Arendt sobre o julgamento de Eichmann: a banalidade e facilidade do mal. Lição de poucas palavras, mas de vastas consequências, a muitos níveis.

Focando apenas o assunto do seu texto: - com a administração e gestão dos estímulos psicossociais oportunos e apropriados, é tecnicamente viável - mantendo as aparências de um regime normal de "democracia" - ir transformando imperceptivelmente esse regime numa situação prisional e totalitária... desejável e desejada pelas "massas".
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De Fernando Melro dos Santos a 19.09.2012 às 19:43


Boa tarde, Duarte, e obrigado pelo seu comentário e pela sua presença.


Sendo as massas centrais à teoria de Arendt, enquanto coisa amorfa e ilógica - ou pelo menos, "alógica" - é oportuno que nos foquemos, sem ceder a distrações, naquilo que anda vem sendo a doutrina dos governos que passam.


O caso português perfigura um exemplo classico: existem as massas imisciveis na realidade politica, por demissao do direito de voto; a par das quais teremos os restantes, para cuja tangibilidade são dados vários nomes - lumpen, hoi polloi, dani logans, o que quisermos ao largo da "nossa" cultura, incipiente nestas materias. 


Em ambos os casos formam terreno fértil para a acção dos putativos tiranos. Toleram este tipo de governos pseudo-democraticos, e "nao levantam cabelo" quando o poder é tomado pelos totalitarios, uma vez que jamais, desde a primeira hora, prezaram sequer o poder sob qualquer forma. 


É precaver um avanço ainda mais ousado desta manipulação que urge, por quantos meios nos for possivel.
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De Duarte Meira a 19.09.2012 às 18:33


Correcção: Ana Ahrendt, ou, com menos tradição na tradução portuguesa: Hanna Ahrendt.

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