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A manifestação da Intersindical

por Nuno Castelo-Branco, em 29.09.12

 

O discurso obedeceu ao conhecido e caduco guião de outros tempos, politicamente tão inábil como sempre e propiciador do divórcio da hegemónica maioria silenciosa que sabe bem o que significaria um regresso a 1975. O Terreiro do Paço encheu e ainda bem que assim foi, pese a evidente mobilização que copiou à risca, os antigos métodos secundo-republicanos dos comboios e autocarros que chegaram de penates, ruidosamente carregados de mobilizáveis. No entanto, dada o momento que país atravessa, o arrazoado classista da Intersindical poderá desta vez colher alguma atenção, podendo ainda contar com o estranho mas sintomático precioso auxílio de certas entidades televisivas privadas. O governo deve ter ficado satisfeito, pois a gente da Intersindical esmerou-se no desfiar de uma conversa capaz de servir de antídoto tão forte para "a burguesia", como os alhos são para os vampiros da Transilvânia. Quase desaparecidos os proletários, eis o apelo aos precários. Embora não seja considerada plausível uma tomada do poder por um sector que ainda é politicamente marginal - os números de manifestantes "mais ou menos 80.000-90.000" não enganam ninguém -, parece contudo possível encontrar-mos alguma energia capaz de alertar este governo.

 

Já não existe qualquer possibilidade do tornear das questões candentes, entre as quais o "Caso PPP" é um rastilho tão explosivo como foi o do Crédito Predial de há pouco mais de um século. Na senda da loucura BPN-BPP, dos escândalos de corrupção evidentíssima que apenas o ministério público ainda pretende fazer crer não existirem e do total desnorte de um sistema político que amodorrou num situacionismo sem nexo, verifica-se um sério risco da escalada populista que inevitavelmente trará mais cedo ou mais tarde, uma ruptura fatal. O país da esquerda - ou de 1/3 desta, dadas certas evidências demonstradas nas urnas - quer saber tudo o que se passou quanto ao roubo, negligência e total incompetência que rodeou o estabelecimento dos acordos ruinosos, do descarado roubo. Por outro lado, os órfãos do leninismo imaginam um conluio de gente de cartola, bem ao estilo dos clubes de magnatas dos tempos da Belle Époque, quando a realidade é outra, infinitamente mais insidiosa e capaz de numa rajada, liquidar muitos dos santarrões bem falantes dessa mesma esquerda nacional.

 

Em poucas palavras, a população pretende ver saneado este assunto das Parcerias Público Privadas, recorrendo-se aos existentes argumentos jurídicos que prevêem a liquidação de contratos desiguais, flagrantemente leoninos. A imensa maioria sonha com uma quase impossível expropriação, não tendo em conta complicações internacionais, as entidades que disponibilizaram o financiamento daquelas obras e certas coincidências com outros nomes que agora surgem apensos aos zelosos emprestadores do dinheiro que chegou com a troika. Estamos sem defesa. 

 

Quando a esmagadora maioria da direita portuguesa se sente ultrajada pela lentidão que as autoridades têm demonstrado na informação do escândalo, cria-se assim uma situação que facilmente poderá degenerar num total abandonar do regime, por parte de quem teve até agora, todo o interesse em defendê-lo. Nos últimos trinta anos foi-se consolidando uma certa forma daquilo que, no dizer de Salazar, era "viver habitualmente". No caso da actual situação, isto significa a pleno aceitar e defesa daquele jogo pluripartidário que já caracterizara os tempos da Monarquia Constitucional, sistema interrompido entre 1910 e 1976. Para desgraça de Portugal, os principais agentes políticos desprezaram o povo que arbitrariamente tutelam, declinando qualquer tipo de esclarecimento, desdenhando aquela obrigatória formação que acende consciências e pior ainda, atrevendo-se a hipotecar uma história secular, às nada fiáveis promessas de um ridente devir pan-europeu, até agora de impossível  concretização. Mentiram descaradamente e há que remediar na medida do possível, uma situação política desastrosa, estando esta acompanhada pela opressora dependência financeira e pelo mais que provável caos social que se perfila no horizonte. A direita que normalmente fica em casa - a maioria do país, incluída uma boa parte do PS -, de desiludida, passou a estar furiosa. Todos adivinham e até  um certo ponto compreendem a dificuldade governamental - como sempre prisioneira dos tradicionais acordos inter-rotativos - em trazer à luz do dia, tudo aquilo que a população quer e deve saber. É a derradeira hipótese de obtenção de algum crédito popular, para uma 3ª República nesta sua aparente fase final

 

Volatilizaram-se as esperanças do recurso a qualquer uma das instituições sobre as quais se ergue o sistema vigente. A inútil e escassamente representativa presidência da República, canibalizada por três mandatários superlativamente responsáveis pela situação que atravessamos, praticamente é coisa dispensável, morta, esvaziada de conteúdo. O Parlamento é abertamente detestado e injustamente apontado como a raiz de todos os males. Ninguém confia numas Forças Armadas que há muito perderam toda a autonomia, chegando ao ponto de permitirem todos os despautérios, comentários jocosos e a descarada falta de respeito proveniente dos sectores do poder civil e até, pasme-se, dos pretensos "comandantes supremos" em título. Pior ainda, parecem ter desistido do tradicional delimitar da sua intangível esfera de acção, precisamente no que respeita aos tradicionais interesses estratégicos de Portugal, perfeitamente estabelecidos há mais de sete séculos. 

 

A austeridade foi encarada como inevitável e com ela se condescendeu, desde que fosse apresentado um horizonte de esperança. Isso não aconteceu, as autoridades têm sido completamente ineficazes na área política, hoje completamente negligenciada. A população que intervém, tem acesso á informação e utiliza os recursos tecnológicos que tem à sua disposição. Exige, quer saber mais e está disposta a impor-se.

 

Além dos poderes fácticos - a Intersindical entre eles -, torna-se cada vez mais difícil o país confiar numa voz séria e acima de qualquer suspeita. É por isso mesmo que há quem aguarde por aquilo que um símbolo  da continuidade da nossa história, o Duque de Bragança, terá para nos dizer no próximo dia 5 de Outubro. 

 

publicado às 17:07


14 comentários

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De Duarte Meira a 30.09.2012 às 01:01


Caro Nuno Castelo Branco:

Em "5 de Outubro" el-rei poderá ter alguma coisa a dizer... sobre o reconhecimento de Portugal independente por Afonso VI no Tratado de Zamora, em 1143. Deve estar a referir-se antes ao dia 1º de Dezembro...
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De Nuno Castelo-Branco a 30.09.2012 às 16:15

Duarte, no 5 de Outubro, o Rei bem poderá falar sobre a situação em que estamos e que como todos o reconhecem, consiste num autêntico perigo à independência nacional. Aliás, será um discurso óbvio.
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De jojoratazana a 30.09.2012 às 13:01

Bom esforço.
É pago à peça ou avença?
Em dinheiro ou géneros?
Já sei pelo Erário Público.
Olhe está quase a acabar-se o dinheiro ou o seu está garantido?
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De Nuno Castelo-Branco a 30.09.2012 às 16:14

Engana-se, aqui ninguém está a soldo: nem à peça, em dinheiro, géneros e muito menos ainda, a expensas do Erário Público, Quem tem as chaves dos ditos cofres, por regra não gosta  do que aqui lê. 


Quanto ao dinheiro que está a acabar - e está mesmo -, não sei se a tal malfadada troika emprestará mais. Se assim não for, sempre quero ver onde é que o Estado vai buscar dinheiro para as reformas, salários de funcionários públicos/hospitaiis, professores/polícias, etc. Já agora, sugiro que nos deixe algumas sugestões, talvez o pc saiba onde se encontra esse prometido filão. 




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De jojoratazana a 30.09.2012 às 18:59

Que tal abrirem os olhos?
Já era um principio, e agora que se deixaram enganar, que tal começarem a comer uma sopinha de pedras.
E verem que nem para comer o país produz.
Boas politicas as destes pategos.
Se calhar faltou uma reforma agrária?
Então os economistas de taberna que criaram esta situação, só conseguem apontar um caminho matar o povo à fome?
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De Nuno Castelo-Branco a 01.10.2012 às 12:44

Mas é isso o que os pérfidos monárquicos andam a dizer há mais de trinta anos e mesmo antes do 25 de Abril! Consulte os textos do grupo de Ribeiro Telles, por exemplo, está lá tudo o que seria necessário fazer. Quando apontámos a destruição das pescas e da indústria, chamaram-nos todos os nomes. Quando insistiamos na questão agrícola, o Expresso - pois... - limitou-se a colocar uma fotografia do senhor D. Duarte agasalhado por um capote alentejano e sentado num tractor. 
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De jojoratazana a 01.10.2012 às 13:46

Então porque é que odeia tanto quem à mais de 35 anos anda a alertar para as consequências destas politicas?
Como explica que se forem difundidas pelos monárquicos são boas, se forem pelo PCP são más.
Alguma falha deve de ter essa cabecinha, não?
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De Nuno Castelo-Branco a 01.10.2012 às 16:58

Muito simples: politicamente, a ditadura, a cartilha soviética. Os senhores deviam ter pensado andes de agirem como agiram em 1974/75. Num ano, a destruição empresarial foi espantosa, o Escudo caiu a pique nos mercados internacionais, as greves selvagens que duravam dias a fio, fizeram o resto, as reservas de ouro - mais de 500 toneladas vendidas - dissiparam-se, restando  apenas 1/3 das mesmas (por enquanto). Sabe disso tão bem como qualquer outra pessoa. Os senhores têm de solenemente renunciar ao leninismo,  -à ditadura - e admitirem a alternância que as urnas ditam. Sem isso continuarão como sempre, ou seja, sem préstimo para a governação. A escolha é vossa. 
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De jojoratazana a 01.10.2012 às 18:04

Olhe Nuno antes de fazer post com as suas fantasias, se por acaso quisesse saber a verdade, tinha pedido um gráfico sobre as reservas de ouro do Banco de Portugal.
Onde poderia constatar que em 1975, houve um aumento das ditas reservas fruto do acto de Rosa Coutinho ter enviado para a metrópole as reservas de ouro do banco de Angola.
Quanto ao momento em que as ditas reservas tiveram a primeira baixa poderia ver que:
 Os primeiros acordes da valsa vieram de longe sob as batutas do Primeiro-Ministro Cavaco Silva e do Governador do Banco de Portugal Tavares Moreira que empenharam 17 toneladas de ouro num sonho de rendimentos fabulosos prometidos por um especulador chamado Michael Milken, dono da Drexel, na mais pura tradição da Dona Branca. Investir na Drexel, era de facto o tal "gato por lebre", que o Professor Cavaco Silva viria a denunciar na Bolsa de Lisboa, causando o grande crash no mercado em Portugal. Pena é que essa sensatez não se tenha aplicado na Drexel. Desse desastre de 1990, Portugal só conseguiu reaver uma parcela menor, esgravatada nas sobras da falência fraudulenta, já com Milken na prisão. O que se recuperou foi ainda mais irrisório depois de abatidos os custos da acção movida em nome do Banco de Portugal pelos advogados de Wall Street da Cadwater, Wickersham & Taft, que foi o litígio mais caro da nossa história.
Foi aqui que se começou a derreter as mais de 800 toneladas de ouro.
Esta verdade documentada e devidamente provada, apenas demonstra as mentiras,que a sua cabeça tem como verdades.
Por isso que credibilidade tem aquilo que escreve?
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De Nuno Castelo-Branco a 02.10.2012 às 17:32

Se quiser dar-se ao "frete", consulte esta súmula de dados aqui:
http://pt.wikipedia.org/wiki/História_económica_de_Portugal#Mudan.C3.A7a_Revolucion.C3.A1ria_em_1974
Lá ficará a saber algumas novidades acerca das loucuras feitas em Portugal em dois ou três anos. Recomendo-lhe o capítulo Mudança Revolucionária em 1974, uma pequena amostra do que se passou neste país.


E já agora, um bom conselho:
http://expresso.sapo.pt/porque-e-que-o-banco-de-portugal-vende-o-ouro-da-republica=f519249
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De jojoratazana a 02.10.2012 às 18:19

Olhe mais uma vez lhe digo, que a primeira vez em que mexeram nas reservas de Ouro foi em 1990.
O resto é filme.
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De jojoratazana a 02.10.2012 às 19:19

Agora compreendo a sua ignorância, sobre a história recente do nosso país .
Isso deve-se ao facto das suas leituras, serem feitas com ligeireza, e tomar como verdades todas as parvoíces que lê.
Este artigo contém material da Biblioteca do Congresso, que são publicações do governo dos Estados Unidos no domínio público.
No caso do artigo que aponta cinquenta por cento, do mesmo não tem nada a ver com a realidade.
Foram nacionalizadas 47 fábricas de cimento?
Olhe só para rir.
Já agora quero pedir-lhe desculpa pelo tempo que lhe tomei.
E prometer não o incomodar mais.
Pois tenho mais que fazer que dar aulas de história,
a um ficcionista como o senhor. 
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De Che das Bjecas a 02.10.2012 às 19:25

Ó Nuno, este deve pensar que somos todos parvos. Não mudaram nada desde que o Cunhal teve a lata de dizer isto:
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/outros/domingo/cunhal-a-nu
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De jojoratazana a 02.10.2012 às 23:07

Todos não só alguns, mas são muitos.
Vai mais uma bjeca?

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