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Além de ser a data de casamento dos meus pais e de aniversário da minha avó - e por isso mesmo marcos importantes da minha vida, detalhes que me interessam muito mais do que conveniências de sedezecas partidárias - , o 15 de Setembro surge agora como o dia da natalidade, dado o número de nascimentos registados. Fica também a ser a data que estabelece o momento em que aqueles cavalheiros que jamais ganham eleições, tentam obter o poder através de chuvas de garrafas de cerveja Sagres previamente bebida e umas correrias avenidas acima, ruelas abaixo.
O Prós e Contras de hoje, dedicado ás manifestações e forças de segurança, trouxe-nos o repassar da velha fita que um dia, Álvaro Cunhal deixou Oriana Fallaci registar naquela tristemente célebre entrevista: "as eleições não valem nada, não nos servem". No sábio capricho das excitadas fedúncias presentes no debate, "queremos que o governo caia e não deixaremos de sair à rua até que isso aconteça".
E não é que os media tudo tentam para que tenham êxito nesta espécie de tejerada lisboeta?. A campanha vai rija, sem quartel, com Balsemões e outros interesses plutocráticos muito apertados nos seus negócios, mas solidários com quem lhes promete, sem o saber, poderem continuar a lucrar como até aos dias de hoje. É esta a urbana estupidez contente, apondo a popularucha assinatura do cheque em branco do contribuinte e permitindo biliões em prejuízos a pagar pelos masoquistas hoje em lágrimas. Ansiosos pela eternização do impossível status quo, inconscientemente sustentam berrando pelas ruas, o sistema que sobrevive precisamente com o socialista princípio do imposto sem peias. Dir-se-ia vivermos na terra do nunca, onde aqueles 16 ou 17% são gente iluminada por auroras boreais muito particulares e por isso mesmo, infinitamente com mais direitos de decisão que os demais.
Podem continuar a tentar, mas nas próximas eleições, sejam elas quando forem. Aguentem-se, habituem-se, tornem-se credíveis, alijem as vertigens ditatoriais de há um século, colem cartazes, convençam a população através da ora e da acção benemérita. Sem isso, nada feito, continuarão naquela aparentemente eterna fase que marca o final das borbulhas na testa.
* Deve ser uma façanha fácil, pois se até o senhor do bigodinho conseguiu vencer a ralé burguesa nas urnas...
“…os líderes comunista e socialista, Álvaro Cunhal e Mário Soares, regressavam do exílio, apresentando-se juntos à frente dos seus apoiantes em delírio que empunhavam conjuntamente o mesmo cravo vermelho. Soares prestou homenagem a Cunhal, seu antigo professor, como «homem notável, com uma visão luminosa e penetrante que sugeria uma grande força interior». Mas Cunhal também era um lealista da linha dura soviética que em 1968 fora o primeiro líder comunista ocidental a apoiar o esmagamento da «Primavera» de Praga. Embora as divergências entre ele e Soares fossem aumentando gradualmente, haviam de estar juntos numa série de governos de coligação até ao Verão de 1975.
Em Junho de 1974, Portugal e a União Soviética estabeleceram relações diplomáticas pela primeira vez desde a Revolução de Outubro. Seis meses mais tarde, Cunhal teve o primeiro encontro com o residente do KGB em Lisboa, Esviatoslav Fiodorovich Kuznetsov (nome de código LEONID), que funcionava sob cobertura diplomática da recém-criada Embaixada Soviética. Embora a reunião decorresse numa casa segura do Partido Comunista Português (PCP), os dois homens tinham tanto medo de que a sua conversa fosse escutada que mantiveram um diálogo inteiramente silencioso com lápis e papel. Foi acordado que o KGB formaria dois membros de confiança do Partido para detectarem equipamento de escuta, de modo que as suas futuras conversas pudessem ser faladas. Cunhal também se comprometeu a entregar material sobre o serviço português de segurança, sobre a OTAN (de que Portugal era membro fundador) e sobre outras «questões de interesse para o KGB».
Pouco depois da Revolução de Abril de 1974, foi dado a uma comissão de inquérito acesso aos processos do brutal serviço de segurança do regime deposto (conhecido sucessivamente por PIDE e DGS), cuja vasta rede de informadores quase rivalizara com as do Bloco Soviético. Uma vez que o PCP, cujos 22 membros do Comité Central tinham, no seu conjunto, passado 308 anos na prisão, fora o principal alvo da PIDE/DGS, esteve, sem surpresa, bem representado na comissão. Além de passar grandes quantidades de documentos da PIDE/DGS (alguns dos quais diziam respeito à colaboração com serviços de informações ocidentais), o PCP também forneceu à residência de Lisboa processos de informações militares portuguesas e de novo serviço de segurança criado depois da revolução. Segundo um dos processos anotados por Mitrokhine, o peso total do material classificado fornecido pelo PCP à residência de Lisboa em meados dos anos 70 atingiu 474 quilos. Em Janeiro de 1976 foi criada dentro do Quinto Departamento da PDP uma secção especial para trabalhar nos documentos portugueses que, na sua versão microfilmada, ocupavam 68138 fotogramas. O resumo de Mitrokhine do relatório do Centro sobre o material conclui:
• Foi obtida informação extremamente importante sobre a estrutura, métodos de trabalho e redes de agentes dos Serviços Especiais (informações) dos EUA, de França, da RFA e de Espanha em territórios de Portugal; sobre a sua cooperação com a PIDE/DGS e as redes de agentes desta em Portugal e nas antigas colónias; sobre as forças armadas de Portugal e de vários outros países; sobre os métodos de trabalho dos Serviços Especiais portugueses contra a União Soviética e outros países socialistas; sobre a situação operacional dos agentes no país e em situações que fossem alvo de interesse para o KGB; [e] sobre indivíduos de interesse operacional para o KGB.” (Christopher Andrew e Vasili Mitrokhine, O Arquivo Mitrokhine, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pág 388. ”