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O mito do "viver acima das possibilidades"

por Samuel de Paiva Pires, em 08.11.12

Desde ontem à noite que grande parte do meu feed de notícias no Facebook se digladia em relação às afirmações da presidente do Banco Alimentar, Isabel Jonet. O vídeo pode ser visto aquiPela minha parte, não pretendendo entrar em grandes considerandos sobre os hábitos de vida dos portugueses, até porque qualquer amostra de qualquer um de nós nunca será representativa e significativa (conhecemos os hábitos da nossa família e amigos mais próximos, pouco mais), permitam-me salientar o que me parece ser mais importante.

 

Quando Passos Coelho afirmou, há sensivelmente um ano, que só sairíamos desta crise empobrecendo, eu fui um dos que concordou com o Primeiro-Ministro. Mas na minha mente, talvez ingenuamente, acreditei que isto se aplicaria de forma justa, começando no estado, o que não tem acontecido. O mito falacioso do "viver acima das possibilidades" verifica-se essencialmente no estado. Quando um indivíduo vive acima das suas possibilidades, mais cedo ou mais tarde irá à falência. O indivíduo assume a responsabilidade e enfrenta as consequências das atitudes que entendeu por bem tomar. Assim é quando o ambiente do sistema em que o indivíduo se movimenta se mantém estável, podendo o indivíduo prever os encargos que decorrem da sua actividade - trata-se, claro, de um sistema em que vigora o livre mercado e o Estado de Direito.

 

Agora, quando há uma crise no estado, este tem várias opções antes da bancarrota. Uma delas, como todos temos experimentado, é o aumento de impostos. Isto obriga a um ajustamento das famílias e empresas, que já se vinham ajustando ao ambiente de crise económica - o desemprego é um sinal deste ajustamento. Mas se este ajustamento serve essencialmente para manter o status quo no estado, não se verificando um real ajustamento deste às possibilidades dos contribuintes, então aquele ajustamento torna-se imoral e quebra qualquer nexo de justiça no centro do contrato social. Advogar o empobrecimento generalizado de uma nação sem falar num processo idêntico no aparelho estatal, é simplesmente injusto e imoral.

 

Dito isto, os exemplos práticos que Isabel Jonet aponta e a tentativa de ensinar os outros a gastar o seu próprio dinheiro revelam uma personalidade que presume arrogantemente ter conhecimento de forma representativa dos hábitos de consumo de 10 milhões de pessoas. Como é óbvio, não tem este conhecimento, acabando por realizar generalizações sem base para tal. Pior, dado que Isabel Jonet não se refere ao estado, acaba, talvez sem se aperceber, a fazer a apologia da pobreza, o que se reflecte na frequente auto-congratulação pelo trabalho desenvolvido pelo Banco Alimentar. É certo que é um trabalho importantíssimo e que tem de ser valorizado. Mas aquilo que temos todos de procurar é que seja cada vez menos necessário recorrer ao Banco Alimentar. Aqui, entram em choque duas visões que de forma simplista denominamos como sendo de esquerda e direita. A primeira defende políticas sociais emanadas a partir do estado, ao passo que a segunda defende a acção da sociedade civil, neste caso, a caridade. Tendem, infelizmente, entre os seus apoiantes, a excluir-se. Eu acho que a virtude está no meio, e que estas duas visões não só não podem ser exclusivas, como se complementam. Um estado moderno não pode deixar de ter políticas sociais com o objectivo de não deixar cair os indivíduos abaixo de um determinado limiar de dignidade humana. E a caridade enquanto amor e serviço ao próximo, é essencial para a coesão de qualquer sociedade.

 

O problema não está em nada disto. O problema está, voltando ao início do post, no facto de ser o estado a viver acima das possibilidades de todos nós. Continuar o ajustamento injusto que tanta tensão tem gerado, além de empobrecer os indivíduos, fomenta nestes um sentimento de revolta em resultado da injustiça gritante a que muitos já não conseguem assistir impavidamente. Infelizmente, o actual governo desbaratou um momento único, em 2011, quando a esmagadora maioria dos portugueses tinha noção que todos tínhamos que empobrecer, mas, como eu, pensavam que isto seria um processo justo em que a reforma do estado e cortes significativos na despesa pública teriam lugar. No fim, como Pacheco Pereira já várias vezes apontou, vamos ter um estado ainda mais forte e mais interventivo. E isto não augura nada de bom.

publicado às 13:37


9 comentários

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De João Quaresma a 09.11.2012 às 00:08

Marakana: concordo consigo quando diz que é uma narrativa muitas vezes usada para moralismo hipócrita (daquelas que toda a gente refere em conversas de café, eu sei), mas é de facto uma realidade concreta. E referi o nº de telemóveis porque é uma estatística bem conhecida, mas poderia citar outros hábitos de consumo desfasados da realidade económica como um parque automóvel desproporcionado em número e com mais carros de gama alta do que seria normal num país com o nosso nível de riqueza, sobretudo tendo em conta que os preços em Portugal são dos mais altos da Europa. Não vamos mais longe: Portugal é, a seguir a Itália, o mercado onde a Smart tem maior quota de vendas. E o Smart, relativamente ao carro que é, é um automóvel caro, que apesar das suas dimensões custa o mesmo que carros maiores. A questão é que o país todo e não só o Estado tem vivido acima das suas possibilidades. Isso é culpa do Estado? Sem dúvida que é o culpado principal. Ao gastar acima das possibilidades, o Estado injectou capital na Economia que permitiu a muita gente, por sua vez, viver acima das suas possibilidades ao ter um poder de compra artificialmente elevado. E muitas empresas, idem. Agora que o Estado está com menos dinheiro disponível para gastar, toda a Economia tem de se reajustar com a realidade, com a situação dolorosa que conhecemos. Mas, mesmo com todas as responsabilidades que o Estado tem, parte da população tem culpa na situação por não ter resistido ao novo-riquismo e ao consumismo irresponsável.


Cordialmente,


JQ
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De makarana a 09.11.2012 às 01:11

Caro Joao Quaresma, esses dados apenas e tão so revelam que lideramos numa determinada área, sem revelar se esses bens foram comprados mesmo com capital alheio(endividamento) ou por uma camada da sociedade que pelo contrário, tinha dinheiro para gstar nesse tipo de bens.
Mas que garantias é que esses dados dão de que as pssoas que adquiriram esses bens , não tinham capital disponivel para tal?? Sempre ouvi dizer que os patrões em portugal(nao tenho nada contra eles aviso) , em vez de aplicarem no investimento na produtividade nas suas empresas, preferira aplicá-lo em carros topo de gama e outras produtos de luxo.Ao fim e ao cabo, esses dados podem até sugerir que a nossa classe alta ou média alta gostam de disfrutar do fruto da sua riqueza
No fim de contas, o "viver acima das possiblidades" ao career de fundamentação séria, acaba mesmo por não passar de mera conversa habitualmente tda ao balcão de um café ou dentro de um táxi, e atrevo-me a dizer , que com o passar do tempo vai desgastar-se muito
Cumprimentos
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De João Quaresma a 12.11.2012 às 01:56

As minhas desculpas pela demora a responder. O sobre-endividamento, o viver acima das possibilidades é um facto perfeitamente identificado desde os anos 90. Até há uns 3-4 anos, 80% do crédito concedido pelos bancos era para a compra de casa. Dos restantes 20%, a maior parte era para compra de carro. Naturalmente que o mercado vivia do consumo baseado em crédito e não seria nunca com os salários médios portugueses que um volume tão grande de casas e de carros poderia ser pago a pronto. O Estado e a banca incentivaram a que isto acontecesse. Mas muita gente devia ter tido o cuidado de fazer bem as contas e ponderar imprevistos antes de se lançar em aventuras financeiras.


Cumprimentos,


JQ
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De makarana a 12.11.2012 às 19:38

Caro João
Não está tão bem identificado assim como diz.Se é verdade que o salário médio não daria, não menos verdade é que existiam salários acima da média,existentes em qualquer pais por mais pobre que seja, e que podia perfeitamente adquirir bens de acordo como seu salário.
Mas , centrando agora nessa questão de crédito, a verdade é que esse crédito foi solicitado por pessoas que, talvez erróneamente, julgavam poder pagar no futuro esse crédito.Mas, imaginando que estavam erradas, esse mau passo podia ser perfeamente travado por quem concedia o crédito(a banca).E não foi travada, e tinha a obrigação dete-la feito como instituição dotada de técnicos preparados.E aqui uma de duas: ou de facto os técnicos bancários não souberam avaliar isso, o que representa um caso de negligecia grosseira,e  de incompetencia extrema, da qual custa-me a acreditar, ou então os bancos é que tendo mais olhos que barriga ignoraram essa incapacidade das familias para aumentarem os seus lucros, que na altura como sabemos foram muitos(n~ão teho andacontra bancos, mas desde que as suas praticas sejam sustentaveis).
Em suma, havendo erro das familias, foi o erro dos bancos que nos precipitaram para o estado de coisas actual.
Cumprimentos

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