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Chinoiseries académicas

por Nuno Castelo-Branco, em 29.11.12

 

Gosto de chinoiseries europeias e daquelas outras originais e que luxuosamente nos apresentam porcelanas, pedras-sabão, forros, cerâmicas, jades rendilhados, caixas lacadas, ou algum daquele mobiliário vermelho e dourado, do mais discreto. Também desde sempre soube apreciar um luso-tique imperial que agora a quase todos passa despercebido nas ruas da reconstrução da Baixa de Lisboa, esquecidos os portugueses do olhar para aqueles tectos de esquinas em bico, talvez inspirados na nossa antiga presença em Macau. Mas este é um exclusivo pelouro das nossas incompetentes Câmaras Municipais olissiponenses, esses verdejantes pastos de saloísmo militante.

 

Falando de política, o caso é outro.

 

Parece estar a surgir um lobby pró-chinês em Portugal e vai obedecendo ao percurso das etapas que normalmente se verificam antes da expansão ao sector político. Surgem alguns comentadores nos telejornais - lembram-se do lobby pró-árabe do Dr. Ângelo Correia? - e depois, dando alguma seriedade académica aos assuntos, teremos uns tantos professores defendendo o impossível.

 

A notícia da redução da presença americana nas Lajes despoletou um sem número de opiniões, algumas delas roçando a fábula da raposa e das uvas. Numa entrevista ao Expresso, José Filipe Pinto coloca a questão da Base das Lajes no plano de contrapartidas a receber por um Portugal que tem sido demasiadamente modesto nas suas reivindicações. Há muito desaparecida a chantagem que Washington sobre nós exercia durante o Império, deveu-se à falta de ambição, comodismo, desinteresse ou simples inépcia das autoridades de Lisboa, o não encetar de conversações para um novo e proveitoso acordo entre o nosso país e os EUA. Pior ainda, o fim da URSS e do Pacto de Varsóvia serviu perfeitamente os desígnios americanos, apresentando estes algum aparente desinteresse pela base. Todos sabem que a realidade é outra e a sugestão deixada, é tão credível ou equivalente a uma imaginada cedência britânica da Base de Gibraltar à marinha chinesa, ou, cumprindo aquilo que os Aliados de 1914 prometeram ao Czar, entregar-se Constantinopla aos russos. Enfim, um académico "jornal do incrível".

 

O professor da omnipresente Lusófona declara agora o interesse chinês na expansão para ocidente, como se isso fosse pela ainda potência global considerado como um acto sem consequências de maior. Pois estará totalmente enganado, se por um momento julgar possível o hastear dos pendões maoístas em qualquer das ilhas do Atlântico Norte. Poderá aventar-se a hipótese de os chineses connosco estabelecerem acordos de exploração dos imaginados recursos que a chamada Zona Exclusiva possa propiciar, mas daí à presença de militares no arquipélago, vai uma incomensurável distância. Os americanos logicamente poderão aplicar a há muito esquecida Doutrina de Monroe e ainda tirarem o pleno proveito da numerosa comunidade açoriana radicada nos EUA. Em suma, corremos o real perigo de perdermos as ilhas num curto espaço de tempo. Teríamos então uma reedição do "efeito Barros Gomes" que nos seus perigosos jogos de sedução do Kaiser, nos propiciou o malfadado Ultimatum. Qualquer subalterno nas Necessidades disso tem a plena consciência. 

 

O estabelecimento de uma base militar chinesa nos Açores consiste num cenário Kriegspiel muito imaginativo e apenas conjecturável no caso de uma súbita catástrofe que reduzisse os Estados Unidos a uma potência menor e sem qualquer capacidade de resposta. Tal situação pressuporia igualmente a inexistência da NATO e a finlandização completa da Europa, no caso de uma bastante improvável aquiescência russa aos desígnios de Pequim. Estamos no plano das catástrofes e  das suposições que para alguns, não deixarão de ser um wishful thinking sem nexo. Não valerá a pena José Filipe Pinto evocar os interesses da lusofonia, se estes nos forem apresentados como simples instrumentos da China. 

 

Podemos aceitar que muitos desejam - da esquerda dos festivais até aos habituais salivados apetites por negócios - a ruptura da nossa relação privilegiada com os Estados Unidos e existem bons argumentos históricos para tal: as quase indecentes pressões lobbistas exercidas sobre o nosso país durante a década de trinta - visando a cedência de Angola para a instalação de um possível Estado judaico, sugestão que partiu de gente ligada a Roosevelt -; os ímpetos belicosos que após o deflagrar da IIGM pretenderam a ocupação violenta dos Açores e o despojar das nossas possessões na Ásia-Pacifico; o envolvimento da gente de Kennedy no assunto Goa; o descarado, vergonho patrocínio de movimentos terroristas em Angola e Moçambique; o ostensivo boicote e a série de proibições quanto ao uso de equipamento militar durante a Guerra de África; o escandaloso desleixo que permitiu ao partido soviético a descolonização exemplar; a tese Kissinger que em 1975 julgou possível um Portugal que "servisse de exemplo" ao resto da Europa; o Caso Timor e o envolvimento da administração Ford; a falta de assistência quanto às imperiosas necessidades de modernização das nossas Forças Armadas - desde o equipamento até à própria doutrina e reformulação do nosso conceito de Defesa Nacional -, etc, etc. A lista é longa, quase infame, mas a realpolitik exige-nos a moderação das pulsões, aspecto nada negligenciável nas relações entre Estados, principalmente quando um deles, Portugal, terá por estes dias atingido o ponto mais baixo da sua já longa história.

 

O governo apresentou ontem uma obra relativa ás nossas reivindicações atlânticas e parece ter chegado o momento das palavras darem o esperado lugar aos actos concretos. Há que ter obsessivamente presente o facto de os Açores serem a primeira linha de defesa americana no Atlântico e assim continuarão por muito tempo.

 

Os Açores encerram importantes potencialidades de âmbito económico e a sua privilegiada situação nas grandes rotas marítimas, decididamente confirmam o seu valor estratégico. É precisamente no capítulo da economia que as decisões deverão ser rapidamente tomadas, angariando-se investidores - europeus, americanos, chineses, japoneses, da CPLP, todos servirão -, dando os nossos governos carta branca e fundos à investigação e inevitavelmente num futuro não muito distante, à criação das infra-estruturas que as virtualidades económicas tornarem urgentes. 

 

Tudo o mais não passa de uma chinoiserie ao gosto que tão em voga esteve nos dourados salões palacianos setecentistas. 

publicado às 13:55


11 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 29.11.2012 às 14:37

Precisamente. Já tinha lido a prosa que mais parece uma advertência à administração americana. O que mais importante se retira do artigo, é esta passagem:
"Terceira, however, has one big attraction for Beijing: Air Base No. 4. Better known as Lajes Field, the facility where Premier Wen’s 747 landed in June is jointly operated by the U.S. Air Force and its Portuguese counterpart. If China controlled the base, the Atlantic would no longer be secure. From the 10,865-foot runway on the northeast edge of the island, Chinese planes could patrol the northern and central portions of the Atlantic and thereby cut air and sea traffic between the U.S. and Europe. Beijing would also be able to deny access to the nearby Mediterranean Sea.

And China could target the American homeland. Lajes is less than 2,300 miles from New York, shorter than the distance between Pearl Harbor and Los Angeles."


Como se em Washington os militares não soubessem...

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De Fernando Melro dos Santos a 29.11.2012 às 14:44

Honestamente, com Obama ao leme e a querer fazer da América a pátria dos futuros saltos em frente, não pago dez cêntimos sobre o dólar pelo peso que os militares possam ter nos próximos quatro anos de decisões. 
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De Nuno Castelo-Branco a 29.11.2012 às 14:56

Se assim for, Obama que evite ir a Dallas. Lembras-te?
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De Fernando Melro dos Santos a 29.11.2012 às 17:29

Pensei logo nisso, por acaso...
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De Anónimo a 29.11.2012 às 14:56

Em jeito de resposta ao lobby pró-chinês, diria que desde 2008 que se optou por chamar crise financeira a uma crise social, derivada das escolhas erradas que as populações europeias e norte americanas fizeram ao nível das suas decisões de consumo, financeiras e politicas.

 

Um exemplo, foi o facto de milhares de norte americanos terem ficado no desemprego, devido à deslocalização de parte da produção para a Ásia, de que resultou uma incapacidade para poderem pagar os seus empréstimos hipotecário. Chamou-se crise financeira, a algo que derivou de decisões politicas e de consumo.

 

Após anos de expansão das economias dos países europeus e norte-americanos, sustentadas em crédito e má percepção do nível de riqueza produzida, a realidade acabou por surgir sobre a forma de incapacidade para pagar os compromissos assumidos.

 

Mas essa incapacidade não é um problema financeiro mas sim, social. A incapacidade surge porque, em primeiro lugar, as politicas de abertura de mercado conjugadas com os acordos com a China e outros países asiáticos custaram milhões de empregos.

 

Duas questões surgem : Quantas empresas lucraram com a abertura do mercado chinês ? Quantas empresas foram prejudicadas pela abertura dos mercados europeus e americano aos produtos chineses ? A resposta é óbvia. As populações destes países permitiram que, para algumas dezenas de empresas lucrarem com o mercado chinês, milhares de outras fossem prejudicadas. O que adianta ter produtos europeus mais baratos produzidos na China se ao perdermos o emprego não os podemos comprar ?

 

Qual era a dúvida da consequência da deslocalização de centenas de fábricas para os países asiáticos ?

 

Enquanto os orçamentos estatais permitiram, estas consequências foram “tapadas” pelo emprego criado no Estado. Mas agora os ajustamentos terão de ser feitos, terão de ser reduzidos postos de trabalho no Estado e não há criação de emprego no sector privado, para esta nova vaga de desempregados. O resultado será uma gravíssima crise social.

 

Mas esta crise social era evitável se as populações entendessem e exigissem maior protecção para os seus empregos e empresas onde trabalham. Não se pode liberalizar mercados com condições desiguais. Países com direitos laborais justos estão a competir com países em que a escravatura laboral é uma realidade.

 

Por outro lado, permitimos que as actuais politicas desacreditassem as economias europeias e norte americanas, como se pudéssemos comparar o que é produzido nestes países com o que é produzido na China ou na Ásia.

 

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De Nuno Castelo-Branco a 29.11.2012 às 15:05

Subscrevo na íntegra.
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De Fernando Melro dos Santos a 29.11.2012 às 17:30

Muito bem, assim compreendo o que quer dizer.
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De Euro2cent a 29.11.2012 às 23:04

Bom, e além de torpedear Portugal em África, o que é que os E.U.A. fizeram por nós para lhes estarmos mais gratos e obrigados do que à China?

Só por curiosidade de saber quais são os argumentos objectivos.

(Ao contrário do autor, nem aprecio chinoiseries, e por acaso tenho ligações culturais para o outro lado.)
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De Nuno Castelo-Branco a 30.11.2012 às 09:29

CaroEuro2cent,
Quanto ao torpedeamento de Portugal em África, recordo-me muito bem das exposições - em Lourenço Marques - de enormes quantidades de material capturado aos terroristas. Os chineses despejaram colossais fortunas nos tais movimentos ditos de libertação. Metralhadoras, granadas, minas, munições, sei lá eu o que mais! Made in China, claro, os caracteres orgulhosamente atestavam a proveniência. Assim, no que respeita a África, estiveram a par dos americanos, embora estes últimos não tivessem chegado a extremos. Limitavam-se ao financiamento e à cobertura política, coisas bastantes desagradáveis e indecentes, uma vez que teoricamente somos aliados.


Temos de manter os pés assentes na terra e estarmos perfeitamente conscientes daquilo que apesar de tudo os EUA são e representam para o mundo, especialmete para a Europa. Dada a nossa situação geográfica, não consigo imaginar outra solução senão o acomodamento ideal, decerto sempre difícil - e com a sua dose de resignação, claro -, mas nem por isso menos inevitável. A Europa é fraca, conta com um poderoso vizinho a leste, a evolução russa é ainda bastante nebulosa e os acontecimentos no norte de África são o que são. Com quem pensa podermos contar em caso de necessidade? Com a China?


Se comparar a sociedade americana com a chinesa, com qual delas lhe parece que Portugal mais se assemelha? Apesar das enormes diferenças, compreendemos os americanos, com eles partilhamos um certo tipo de organização social e... deuses.  Quando estive nos EUA, não fiquei grandemente surpreendido com os arranha-céus, infra-estruturas rodoviárias, chaminés fumegantes, lojas, etc. Conhecia o ambiente, não o senti estranho. Na China, como na Coreia ou Tailândia, também vi os mesmos testemunhos da modernidade, mas a gente é outra, estamos mesmo "fora de casa". Tenho a certeza de que me entende muito bem.
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De Euro2cent a 01.12.2012 às 20:32

"Fair enough", mas há amigos, ou parentes, que de vez em quando deviam levar um puxão de orelhas para não abusarem.

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