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" Eusébio Macário não conseguia refazer-se à existência de Basto. Faltava-lhe a conversa do « Palheiro », a consideração de um auditório atento e de variegada erudição.

 

Já não se acomodava a lidar com labregos, encodeados, muito broncos, ele, ex-indigitado vereador da Câmara do Porto.

 

Atrigava-se de manipular unguentos e pomadas depois que casara a filha com o barão do Rabaçal ( ... ). É verdade que a baronesa fugira com o cómico, dera em droga, mas nem por isso Eusébio Macário deixara de ser sogro de um titular, e para mais Cavaleiro da Ordem de Cristo.

 

Sentia-se aborrecido, deslocado. Habituado à moleza das poltronas do genro, já não lhe sabiam, como antes, as largas sestas roncadas à porta, no incómodo mocho de cerdeira.( ... )

 

Um dia, porém, soube-se em Basto que falecera em Guimarães um boticário, o Pereira, o último de uma dinastia afamada, cujo representante da época mesinhara o próprio rei D. José na sua visita ao berço da nação. A família de Pereira resolvida a fechar a farmácia, conservava ainda o praticante à espera da liquidação final das pomadas e unguentos.

 

Isto fez germinar no cérebro da mulher de Macário, a Eufémia Troncha, uma ideia genial: - porque não haviam de ir para Gimarães, boa terra, muito dada a comesainas, terra de soldados e mais civilização? ( ... )

 

Eusébio rendeu-se e escreveu à viúva do Pereira, a saber se a farmácia se alugava.

 

Veio a resposta pronta: - que sim, que se alugava...; que fosse lá...

 

Eram 5 horas da tarde de um sábado quando Eusébio Macário entrou no Toural ( ... ). A farmácia era na Porta da Vila ( ... ). A freguesia, segundo Eusébio colheu da boca do praticante, era da melhor. A Casa do Arco, a do Toural, a de Vila Pouca, a do Cano sortiam-se lá. E, antes de entrar em mais ajustes, assegurou-se de que lhe não faltaria a dos dois hospitais das Ordens Terceiras... ( ... )

 

Macário voltou a Basto radiante, cheio de projectos, de esperanças de vida regalada, com muito pinto e sonecas tranquilas. ( ... )"

 

Já Camilo, o feliz criador da burlesca e interesseira personagem do boticário de Basto, tinha morrido, quando o futuro patrono da minha Escola Preparatória engendrou este seu regresso ao Minho, depois de uma saída pouco airosa da capital nortenha: corria o ano de 1912 quando este livrinho encheu os escaparates das movimentadas livrarias da cidade de Afonso Henriques. Por então o autor tinha já lugar cativo entre uma geração de homens que muito trouxeram às letras e cultura em geral.

 

Com efeito, podemos ler no " site " do Agrupamento de Escolas João de Meira, entre outras coisas que indiciam um Grande, escolhido para continuar a obra de grande fôlego, iniciada pelo Enorme abade de Tagilde, Vimaranis Monumenta Historica: " Possuidor de larga cultura, a sua vocação literária manifestou-se quando, ainda estudante, principiou a colaborar em jornais académicos e de província, primeiro com versos bem trabalhados e depois em prosa, fácil e de vivo colorido. Em 1902 publicou Influências Estrangeiras em Eça de Queirós, curioso estudo revelando profundo conhecimento da obra do romancista, e mais tarde Eusébio Macário em Guimarães, à guisa de capítulos suplementares à Corja, de Camilo, e ainda Cartas de Camilo Castelo Branco a Francisco Martins Sarmento, com prefácio e notas. Cedo, porém, se manifestou a sua predilecção pelos estudos históricos e escreveu: Subsídios para a História Vimaranense; O Claustro da Colegiada de Guimarães e Estudos da Velha História Pátria - O Livro da Mumadona. "

 

Mais um vulto de que nos podemos orgulhar; mais um Grande Português.

publicado às 22:45


3 comentários

Sem imagem de perfil

De Duarte Meira a 04.12.2012 às 23:59


Prezadíssima Cristina:

Continua surpreendente! De quem se lembrou agora!

Graças a si tive muito gosto em conhecer este meu possível parente, que desconhecia. (Somos muitos, prolíficos, espalhados desde o XIV...) A fixar também o nome do dr. Manuel Alves de Oliveira, monárquico da velha-nova cepa integralista, a quem parece se fica a dever a lembrança da atribuição patronímica  à sua escola.
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De Cristina Ribeiro a 05.12.2012 às 20:26

Duarte! :)
Hoje mesmo estive a arrumar na estante Paterna vários livros do  dr. Manuel Alves de Oliveira, que estão na fila - quem sabe? - para nos visitar um dia destes. 


Possível parente? Interessante.
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De Cristina Ribeiro a 05.12.2012 às 21:01

Além de ter, há tempos, folheado alguns exemplares da Revista « Gil Vicente », que fundou, em 1925, juntamente com o dr.José Ferrão.

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