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Os tablets e a degradação da sensualidade da leitura

por Samuel de Paiva Pires, em 09.12.12

 

Mario Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo:

 

«Por outro lado, segundo se depreende do seu artigo, para Volpi ler consiste só em ler, isto é, em ficar a conhecer o conteúdo do que lê e não há dúvida de que o seu caso é o de imensos leitores. Porém, na polémica com Vicente Molina Foix que o seu artigo gerou, este último recordou a Volpi que, para muitos leitores, «ler é uma operação que, além de informar sobre o conteúdo das palavras, significa também, e talvez sobretudo, ter prazer, saborear aquela beleza que, as palavras, tal como os sons de uma bela sinfonia, as cores de um quadro insólito ou as ideias de uma argumentação sagaz, emitem unidas ao seu suporte material. Para este tipo de leitor ler é, ao mesmo tempo que uma operação intelectual, um exercício físico, algo que, como diz muito bem Molina Foix «acrescenta ao acto de ler uma componente sensual e sentimental infalível. O tacto e a imanência dos livros são para o amateur, variações do erotismo do corpo trabalhado e manuseado, uma maneira de amar.»

 

Tenho dificuldade em imaginar que as tablets electrónicas, idênticas, anódinas, intermutáveis, funcionais ao máximo, possam despertar esse prazer táctil prenhe de sensualidade que os livros de papel despertam em certos leitores. Mas não estranho que numa época que tem entre as suas proezas ter acabado com o erotismo se esfume também esse hedonismo refinado que enriquecia o prazer espiritual da leitura com o físico de tocar e acariciar.»

 

Leitura complementar: O mito do individualismo extremo do nosso tempoA insustentável leveza da literatura do nosso tempoA banalização da políticaDa arte modernaDo erro da equivalência entre culturas à difusão da inculturaDa proliferação de Igrejas à substituição da religião pela alta cultura e aos escapismos contemporâneosDa libertação sexual ao erotismo como obra de arteA ausência dos intelectuais da civilização do espectáculoDa subversão da autoridade dos professores e da escola pública à perpetuação das divisão de classes a partir das salas de aula

publicado às 16:24


3 comentários

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De João Távora a 09.12.2012 às 17:13

Conheço ferrenhos leitores que se deleitam a ler pelo Kindle ou de aplicações para tabltes. Reconhecendo imensas potencialidades dos Tablets, o usufruto da literatura reservo-o para o livro em papel. 
Mas isso sou eu... que estou a ficar velho.
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De Samuel de Paiva Pires a 09.12.2012 às 17:32

Não me surpreende, caro João, e eu reconheço o potencial dos tablets, mas, e isto talvez seja muito influência do meu avô, prefiro mesmo os livros de papel :) Há ainda outra coisa que pode ser perniciosa, que Vargas Llosa aponta nos parágrafos anteriores, que é a alteração no tipo de literatura e conteúdos que serão produzidos para os tablets. Atendendo às mudanças operadas nos nossos cérebros pela demasiada utilização das tecnologias, como por exemplo a cada vez menor utilização da memória e da concentração para ler um livro ou texto complexo, e às possibilidade tecnológicas de enriquecer conteúdos com audio e vídeo, provavelmente verificar-se-á uma alteração na forma como se escreve um livro. Será não apenas uma mera mudança de invólucro, mas de substância.
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De DavC a 09.12.2012 às 22:42

Eu até concordo com o que diz Vargas Llosa, mas não se subestimem as vantagens do digital, sobretudo no que toca ao custo e à capacidade de obter publicações que não estariam ao nosso alcance em papel. Para além disso imagine as vantagens que estes aparelhos levarão a zonas mais remotas e pobres do globo no sentido de levar uma quantidade enorme de obras literárias a pessoas que nunca teriam acesso a elas de outra forma...



Eu costumo fazer um paralelo com a música. Eu continuo a adorar ouvir os meus discos em vinil, e continuo a comprar neste formato. Mas sem o meu iPod não conseguia ter acesso às novidades mais interessantes nem conseguia ter acesso a tanta coisa a tão baixo custo.

Por isso para mim não são opções mutuamente exclusivas, se forem complementares uma da outra melhoram bastante a nossa experiência de leitura e a nossa cultura.

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