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Hard Candy (David Slade, 2005)

por Fernando Melro dos Santos, em 12.12.12

Pouco ou nada se fala de quão indefesos são hoje, em Portugal, os cidadãos de Bem. Por uma vez não vou queixar-me do principal e mais assimétrico inimigo, o Fisco. Falarei da condição de indefensabilidade de que padece uma pessoa normal, no seu local de trabalho, perante um ou vários agressores, armados, e com intento nefasto.

 

Primeiro, alguns factos. 

 

Em Portugal, todos os dias, em particular nos últimos três anos, constatamos pelos media que a criminalidade violenta grassa, impune aquando do acto, e muitas vezes impune sine die. Não adianta bradar que disto sempre houve, que os jornais empolam e que apenas assistimos ao veicular mais célere e eficaz da informação. Há mesmo mais crimes, piores crimes, crimes de espécie que não havia, e consequências mais graves. Quem quiser negar isto, boa sorte e vá ler um blog socialista onde se clame por melhores condições para os drogados, indolentes e pervertidos.

 

Depois, há o argumento "ad americanum". Ah e tal, que nos EUA está à vista o horror causado pela liberalização do uso e porte de arma. Passo a desconstruir. 

 

Um inquérito conduzido entre presidiários condenados por crime violento revelou que 34% haviam sido dissuadidos, detidos, feridos ou capturados por uma vítima armada. 40% desistiram do crime que iam cometer ao aperceber-se de que a vítima estaria armada. 69% conheciam um ou mais criminosos nas mesmas circunstâncias. E isto na América, onde é altamente provável que um criminoso seja capturado e julgado. Não é bem o mesmo que sucede em Portugal. Contudo, para não enfermar esta posição de viés geográfico, este gráfico ilustra a variação no rácio de homicídios  no Reino Unido face às sucessivas alterações ao regime regulamentar da posse de armas de fogo. 

 

Para mais sobre a putativa correlação entre o porte de arma e a incidência de crimes violentos nos EUA, leia aqui um texto opinativo. 

 

Rente à terra dos yankees, no Canadá, o uso e porte de arma também é livre, embora sujeito a um enquadramento legal e sistematicamente mais robusto do que ao Sul. A ocorrência de homicídios, suicídios e crimes violentos com recurso a armas de fogo não apresenta qualquer correlação positiva com a possibilidade legal de possuir tais armas. 

 

Quer isto dizer que é tudo uma questão de regulação que não caia em ajustes quer por excesso quer por defeito face à razoabilidade? Não me parece. Acho mais provável que seja o ambiente, no seu cômputo formativo do indivíduo, a determinar aquilo que os mais expostos ou propensos à violência farão caso venham a encontrar-se, subitamente, numa posição de vantagem. 

 

Ora em Portugal não trarei nenhuma novidade se chamar a vossa atenção para as notícias do quotidiano, nos únicos jornais sérios e pragmáticos - o Correio da Manhã e o Crime, demonizados e apodados de "crónica da facada" pelas mentes bem pensantes da urbanidade feita à pressão. Mas quem consegue, hoje, não rever ali o retrato mais nítido do país? Será mentira que rebentam multibancos todos os dias, e que a senhora que mora ao fundo da estrada que faço todos os dias foi assaltada, com recurso a um espeto de churrasco e uma motoserra, há quinze dias? 

 

Nada disto é falso, mas paradoxalmente a opinião pública continua a achar que estaríamos pior caso houvesse armas a circular livremente. É caso para indagar, mas não as há? E essas que há não estão, agora, exclusivamente nas mãos dos marginais? 

 

Si vis pacem, para bellum dizia Públio Flávio Vegécio. É mordaz que a doutrina preconizada pela administração tributária (e pelo socialismo do "quem não deve não teme" Europa fora) não possa ser estendida aos direitos mais básicos do cidadão contribuinte, que é a manutenção da sua integridade física perante ameaça superveniente, sobretudo em época de assoberbamento das forças da autoridade que não têm mãos a medir. 

 

Para quando uma "segunda emenda" à Constituição da República Portuguesa? Talvez quando do Brasil voltar a soprar algum projecto de "acordo a bem dos dois povos". Campanhas já as há por lá.

publicado às 21:33


2 comentários

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De Duarte Meira a 12.12.2012 às 22:33


Desde há 39 anos, quantas novas prisões foram construídas ?... Ampliaram-se algumas instalações e, sobretudo, melhoraram-se para as tornarem - a pretexto de maior humanidade -, cada vez mais parecidas com os condomínios fechados.... E quem não tem trabalho cá fora, tem lá dentro preservativos de graça e salas privativas para visitas privadas.

Caro Fernando:

Que admira que o Estado ladrão e saqueador dos rendimentos de quem trabalha aliás cada vez mais reduzido à condição de escravo, o Estado destruidor das polícias e fomentador das seguranças privadas, seja o mesmo Estado malfeitor e amigo de malfeitores?!
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De joão a 12.12.2012 às 23:54


O cidadão, em Portugal, existe para ser roubado (refiro-me aos cidadãos que não são, eles próprios, ladrões - seja por formação ética ou por outra razão qualquer). Seja pelo estado, pela universidade, pelos criminosos vulgares. Dar-lhe a possibilidade de se defender é dar um passo no sentido de reduzir a sua menoridade aos olhos do estado. E isso o leviatã dos pequeninos não está disposto a fazer.

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