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Agora a Caridade é Indigna

por Daniela Silva, em 14.12.12

 

Este senhor faz aqui duas coisas (entre outras) que eu detesto. A primeira é ridicularizar os conselhos que alguém pode recomendar, a par do auxílio material que entende dar a quem está em necessidade. Quando se recorre pejorativamente à frase "leve lá uma esmola, mas não gaste em vinho", em textos como o de Pacheco Pereira, está-se a querer passar a ideia de que a relação entre quem dá e quem recebe tem de ser o mais impessoal possível; quem recebe não tem de dar contas a ninguém e, portanto, dizer "dou-te isto de coração e agora vai e faz-te um homem digno!" é algo ofensivo.

 

Depois, a segunda coisa é perpetuar a ideia de que recorrer à caridade é sempre humilhante e inibe muita gente. Conforme fica evidente no texto, o autor não se importa que esta dependência se torne uma rotina suportada pelo Estado, por meio de "contribuições" forçadas, meios humanos que não interfiram nem conheçam as particularidades de cada caso, não se chame ninguém a prestar contas (terrível paternalismo), cultivando uma contínua infantilização da sociedade que perde as próprias imunidades perante as normas sociais que tem de enfrentar. Ainda bem que a nossa segurança social e o seu esquema em pirâmide são infalíveis e estão aí para as curvas.

 

Se uma criança de 4 ou 5 anos quiser continuar a usar fralda e sentir vergonha por isso...eu posso engendrar uma forma do comportamento ser visto como normal. Posso obrigar todas as crianças, da mesma idade, a usarem fralda mesmo que não precisem. Contudo, para evitar que aquela criança enfrente o mundo como ele é, estarei a inculcar maus hábitos e disfuncionalidades a todos, em nome de uma suposta dignidade.

publicado às 13:35


11 comentários

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De sc a 14.12.2012 às 14:57

"e faz-te um homem digno!"
Mas os pobres são indignos???
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De Daniela Silva a 14.12.2012 às 15:03

Lá vem distorção. Claro que não são indignos. É como quem diz: "dá o melhor que tens e faz-te à vida; multiplica o que te estou a dar". Olhe, como aqui: http://estadosentido.blogs.sapo.pt/2358282.html


Nem sequer falei em vagabundagem. O Pacheco Pereira é que deve associar de imediato a pessoas que tenderão a ir gastar dinheiro em vinho. 
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De Olympus Mons a 14.12.2012 às 16:53


Daniela, Imagine os predicados de um homem do paleolítico, o modo como ele “via” o mundo e encontra a expressão de um homem de esquerda (intenso present bias, hiperbolic discount, etc – porque o futuro é a caça de amanhã!)  versus a perspectiva de um agricultor neolítico onde verá um homem de direita: A ideia do semear para colher, o guardar para semear, o sacrificar para colher na altura das colheitas, a propriedade como sagrada - atributo dado pelo sacrifício feito até à colheita (onde se passavam fome e  que até à redução na altura das pessoas levou e a pessoas mais esguias) ... nada descreve melhor este paradigma do que a história da formiga e da cigarra  mas não vou por aí.
Assim chegamos a esta conversa da caridade. Do ponto de vista deste pessoal de esquerda a ideia da caridade é mesmo, digamos, alheia devido ao facto de para eles a “caça” é para dividir por todos. A caça era realizada em grupo, levada para a tribo e partida por todos. Falar com amigos de esquerda e ter isto em mente é fascinante. Eles são mesmo assim (desde que não de fale em ir ao netbaking da conta deles e spread the wealth). Enfim, eu chamo-lhes Cads (versus Dads).
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De Daniela Silva a 14.12.2012 às 17:03

Genial, Olympus Mons! 
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De teixeira a 14.12.2012 às 18:57

. Mas há três espécies de gente que minha alma detesta, e cuja vida me é insuportável:

. um pobre orgulhoso, um rico mentiroso e um ancião louco e insensato.


Da biblia, elesiastico 25
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De Xavier Brandão a 15.12.2012 às 21:13

Há algo de implícito neste texto - e no do Pacheco Pereira - que deve explicitado: a caridade é, quando muito, um mal necessário, o que não desvaloriza o trabalho de alguns que as praticam.

E por que razão? Porque a caridade só pode existir num mundo onde existe a pobreza. Sem pobreza, não há caridade. Defender a caridade é passar ao lado do real problema.
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De Xavier Brandão a 15.12.2012 às 21:20

E uma das coisas mais desagradáveis que se pode encontrar é ver andar a pôr palavras na boca dos outros: o Pacheco Pereira nunca disse que a caridade é indigna.

E que a Jonet se pôs a jeito, pôs-se. É isso que ele diz.
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De Daniela Silva a 15.12.2012 às 21:35

Xavier Brandão, a palavra "indigna" não vem entre aspas. Eu interpreto um texto e adjectivo com mais ou menos ironia, conforme a dose que merecer. Aquilo que se conclui facilmente do texto dele é que a caridade é especialmente humilhante. Se calhar usufruir do RSI não é humilhante, não? É provável que para alguns chico-espertos até seja motivo de gabarolice mas não estou a ver uma pessoa na miséria a sentir-se mais dignificada por não conseguir livrar-se de uma situação de perpetuada dependência. 


Quanto à caridade existir por existir pobreza, acho que não estou a passar ao lado da questão. O Estado social foi, e continua a ser, a maior máquina de multiplicar pobres. Quando os pobres desaparecessem, o falso benigno Estado ficava sem nada para se entreter e para se legitimar. Acabar com a pobreza? Não sou tão ambiciosa (idealmente era espectacular) mas se cada um de nós olhasse mais para o vizinho do lado, era um contributo modesto mas mais permanente a longo prazo. 
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De Xavier Brandão a 15.12.2012 às 21:46

Também se pode dizer que sem a pobreza quem ficaria sem nada com que se entreter seria a Jonet, ou não é verdade que ela faz, literalmente, vida disso?
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De Daniela Silva a 15.12.2012 às 22:24

O que ocupa o tempo da Jonet não me diz respeito. Cada um dedica a vida ao que bem entende e da forma que prefere, mais ou menos vistosa. Telefone-lhe e pergunte-lhe se ela se ralava muito com isso.

Curioso como a vida da senhora parece interessar a muito gente e todos ganham agilidade e espírito de ovelha como se estivessem a bater no puto mais pequeno do recreio; quem não consegue? Depois os entretenimentos mórbidos do Estado serem sustentados pela condenação desta e das próximas gerações, é um facto levado com naturalidade. Passados umas décadas, uma pessoa habitua-se. Infelizmente, a "solidariedadezinha" estatal que papa votos à conta da mediatização da miséria e da conservação dos seus oprimidos vai continuar por cá e a dar que fazer às Jonet's (que por acaso são poucas). 
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De Daniela Silva a 15.12.2012 às 22:27

Passadas* umas décadas.

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