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As pessoas não têm humildade. Movimentam-se em actos teatrais de ciclicidade perpétua, pretendendo enganar ao espelho e ao Juiz Tempo, numa contra-revolução constante insanável nos termos. Lamentam-se, choram-se, dizem demandar por "fazer coisas e mudar de vida" em busca da pedra de toque de um futuro cada vez mais contado. E a ausência de algo maior no espectro dos seus anseios esvazia-as do fito original que lhes foi posto no mapa, que seria crescer e reproduzir-se, livres da mesquinhez em que vai imersa a mente urbanizada.
O que é isto senão a superstição dos artifícios, as construções da cabeça socializada, sempre à espera de ouvir a voz do dono que possa vir a servir, quando a coisa acabar como sempre acaba, de bode expiatório? Não há esquerda nem direita, mas há esquerdalhos e caceteiros, não há crença mas há crentes. Todos professam a sua fé, mas ela não consiste em nada de real nem de objectivo. Em suma, todos militam mas nenhum acredita realmente.
Eis aqui o sumo dos dias. Para cada Cristo ou criança que passem pelo planisfério erectos na certeza das suas convicções, virão dez mil borregos balindo, sequiosos do abate que lhes sopre o véu de cima dos olhos, numa bacanália hedionda onde se imola o que de mais importante o Homem hoje ainda tem: a memória de como chegou aqui, da adversidade (interior e exterior a si) a que sobreveio, quando o sopro ab pectore tonitruava com tal audácia que reduzia os vagidos da turba a meros flocos de irrelevância.
Apenas ao louco, à criança, ao velho e às bestas na selva é dado o Graal da sublevação invencível, que é levar de vencida a si mesmo, viver contente com Nada, apesar de tudo amar e tudo viver.
Que é de ninguém nem de cidade alguma carecer para ainda assim olhar o Mundo e dizer, racionalmente, que encontraram a sua fé.