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Joaquim Aguiar, o realismo frio das ex-assessorias

por João Pinto Bastos, em 07.01.13

Joaquim Aguiar é dono de um verbo garboso, muito dado amiúde às diatribes hieráticas, com a devida pompa e circunstância e, why not?, uma certa predisposição para a novilíngua desfasada da palavra comum. Mas, justiça lhe seja feita, o alvo desta pequena prosa blogueira tem momentos em que consegue aliar a esse verbo especial uma clareza de pensamento invejável. A última entrevista dada pelo ex-assessor soarista ao periódico das balelas esquerdizantes institucionalizadas, o Público, é disso um belíssimo exemplo. Lá, a páginas tantas diz o entrevistado que "o presente não liga o passado com o futuro e quem ficar a olhar pelo retrovisor tem um acidente". De feito, Joaquim Aguiar tem razão, um dos problemas magnos da narrativa troikada, sustentada, ao inverso do que por aí se diz, em igualdade de circunstâncias e amor acrisolado pelos situacionistas do Poder e da oposição, é justamente a ênfase no passado, a ideia risível e peregrina de que, passado o cabo das Tormentas do Adamastor dividocrático, voltaremos ao ramerrão do crescimento-económico-sustentado-a-crédito-com-distribuição-de-prebendas-e-benesses-para-os-amigos-e-festeiros. A era da dívida jorrante não voltará. Findou definitivamente. Cerrou inapelavelmente as portas da sua Sésamo doravante impenetrável. O busílis da questão surge mais à frente quando o ínclito Joaquim afirma, não sem alguma empáfia, que o futuro, essa entidade mítica tão do agrado dos prestidigitadores dos dinheiros alheios, estará a cargo dos agentes federais "inoculadores das energias competitivas". Bela forma de dizer que a (de)União Europeia, federalizada sob o signo de um autoritarismo centralizador, será, segundo a sua interpretação algo esotérica, uma centro de dispersão de energias. Uma análise um tanto ou quanto tributária das engenharias mecânicas, mas deixando de lado este apontamento humorístico que só alguém da estirpe de Joaquim Aguiar é capaz de proporcionar aos capachos, há que dizer que o salto federal, que alguns tomam já como garantido, e que outros, mais cautos e serenos, vêem com desconfiança, não é um dado adquirido. Mais. O momentum federalista, encarado pelas aventesmas do europeísmo pueril como a panaceia para as guerrinhas financeiras entre centro e periferia, é uma questão em aberto. Uma feridade por cicatrizar, que supura febrilmente a tessitura política europeia. Aguiar acredita que as elites europeias resolverão este Problema, porque, no fundo, elas têm de o resolver, porém, a lógica da batata aqui exposta é, de certo modo e paradoxalmente, contraditada pelo mesmo quando, em jeito de epitáfio da Política politiqueira, Aguiar afirma que as novas gerações, por força das circunstâncias, serão depositárias de uma cultura política mais centrada na crise. Depois de um arrazoado prenhe de linguagem metafísica, misturado com algumas boas verdades, Aguiar termina em beleza ao dar a sentença das sentenças. Pelos vistos, o soberbíssimo ex-assessor soarista/eanista concorda comigo, o futuro inevitavelmente compelirá as gentes políticas a adoptar um novo modo de vida, crismado por uma visão cultural incomensuravelmente mais pessimista. A vida é mesmo assim, as circunstâncias são sempre bastante ponderosas. E a crise, como de resto tudo o que nos envolve e comprime, obrigará a repensar a política, a cultura e a moralidade, sabendo de antemão que nada, rigorosamente nada, do que nos trouxe aqui quedará de pé. 

publicado às 17:51







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