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Do sentido da vida (2)

por Samuel de Paiva Pires, em 07.01.13

Escreveu Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, «E sobretudo, por amor de Deus, não tomemos a sério nada do que fazemos. Façamos uma antedescoberta da futilidade do que fazemos.» Se tudo o que fazemos é fútil, se a vida não tem sentido e, sendo assim, dos acasos que nos sucedem não podemos retirar lições, já que são apenas isso, acasos, ainda que pareçam ligados entre si e se revistam de um amargo sabor irónico que nos faz pensar nas palavras de Chesterton a todo o momento, e se esses acasos, especialmente quando são fruto de injustiças gritantes, nos roubam os sonhos e nos compelem no sentido da mera existência - por oposição à vivência - então a afirmação com que Camus principia O Mito de Sísifo ganha ainda mais força: «Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio.» Escreveu Unamuno que os portugueses são um povo de suicidas. Ouvi hoje de manhã, na Antena 1, que o número de suicídios em Portugal aumentou. Provavelmente por causa da crise. O que se me afigura uma cobardia. Pôr cobro à vida por questões financeiras, por já não se conseguir viver ao mesmo nível de outrora, é próprio de espíritos fracos. Já colocar cobro à vida em virtude de um abalo existencial, é outra história completamente diferente. Surge então uma outra questão: onde é que se arranja coragem para tal? E mesmo que se consiga arranjar coragem, apresenta-se-nos ainda uma derradeira questão: e os outros que cá ficam? É que o suicídio é um egoísmo. E talvez seja nos outros que cá ficam que podemos encontrar o sentido da vida.

 

Leitura complementar: Do sentido da vida.

publicado às 21:28


7 comentários

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De Duarte Meira a 07.01.2013 às 22:06

Caro Samuel:

São postais como este que fazem toda a precisa e bem-vinda diferença neste blogue.

Não serão muitos os que põem cobro a esta vida apenas por  questões financeiras. O que acontece é que já há mais de uma década éramos os segundos na UE no consumo de ansiolíticos e e anti-depressivos (julgo que hoje passámos para o primeiro lugar). Acontece que puseram os portugueses num mundo que nunca foi e não é o nosso - o dos países "ricos" -, em troca da... nossa alma. Não são os nossos valores, os nossos ritmos, a nossa maneira de ser. Por isso sofremos, des-animados, e parecemos mais mortos que vivos. É tão simples e tão complicado como isto.

Agora temos que fazer a experiência do "desassossego" até ao fim. E temos que o fazer com a Europa.
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De Samuel de Paiva Pires a 07.01.2013 às 22:13

Muito obrigado pelas suas sempre simpáticas palavras, caríssimo Duarte. Espero que tenha razão, embora a repórter da Antena 1 tenha aventado essa mesma hipótese. Já dizia Maquiavel que as dificuldades criam carácter. Pode ser que nos ajudem a retornar a um certo carácter português que anda tão desaparecido. Mas é como diz, agora temos que o fazer com a Europa, com todo o Ocidente em desassossego.


Saudações
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De Anónimo a 09.01.2013 às 20:25

(Comentário em duas partes)

"... e os outros que cá ficam? É que o suicídio é um egoísmo".

Parabéns Samuel pela magnífica tese. Concordo, com duas ressalvas.  Pôr cobro à vida por graves questões económicas não é um acto fútil. E os portugueses não são nada um povo de suicidas. A Suécia sim, que o é. E os motivos terão muito a ver (mas não só) com aqueles que se vêm verificando por cá desde a introdução da democracia e a respectiva 'modernidade', enquanto que por lá o mesmo acontece e pelos mesmos motivos, mas com muito mais gravidade e desde há muitas décadas.

O suicídio nunca é um egoísmo, é antes um acto de coragem inaudita, porque se trata de pôr fim a um sofrimento interior insuportável tenha ele as origens que tiver (na Suécia: solidão, desinteresse pela comunidade, ausência de regras morais, falta d'apoio familiar por afastamento voluntário desta desde a juventude; em Portugal: vai a caminho disto tudo com as normas democráticas que chegaram com a 'modernidade' e incentivadas e facilitadas pelo poder político) levado ao limite. 
Pelo que cada caso é um caso e não se pode julgar aquilo que não se conhece.

A mente é um orgão extremamente complexo, misterioso e muito delicado. Qualquer alteração, por pequena que seja, que atinja negativamente a zona do cérebro que controla as emoções, leva a um tal grau de sofrimento psíquico normalmente seguido de depressão, que uma pessoa que se veja nestas circunstâncias e que não seja imediatamente ajudada só encontra uma saída para acabar com ele, o suicídio. Não existem palavras suficientes para definir o sofrimento causado por uma depressão, na sua exacta medida.    

E as depressões são consequência de lesões mais ou menos graves nas células nervosas que afectam dum modo muito perigoso (embora só temporàriamente, se originadas por causas ocasionais) o equilíbrio, o bem-estar, o humor, o descernimento, o amor ao próximo, a auto-estima, a sensibilidade e até a indiferença à dor física, substituídas todas elas por uma indiferença total perante tudo em seu redor.

É tido pela Igreja Católica como um dos pecados mais gravosos e definitivamente impraticável por quem é crente e respeita as leis da Igreja, porém existe uma única excepção para os crentes cometerem um tão grave pecado: terem atingido um estado psíquico muito próximo da loucura, em que tudo - trabalho, amigos, família, filhos,  netos  e até a própria natureza que respeita e venera - deixa de lhes interessar em absoluto. (É evidente que  nos casos em apreço estão excluídos todos aqueles a quem foi diagnosticada esta patologia como doença crónica).

Aqui refiro-me às depressões profundas embora provindas de causas passageiras. E porque ocasionais, normalmente têm cura.  O que há a fazer nestes casos é ter alguém por perto que proporcione d'imediato uma ajuda especializada. Só assim se pode evitar o pior, já que estas são pessoas mentalmente sãs que por um acaso do destino (doença grave mas curável, perda de um familiar querido, acidente em que se fica paraplégico ou ferido com gravidade, destruição da casa pelo fogo, assalto pessoal com espancamento (ou não),  assalto à casa com agressões físicas graves, destruição do património, roubo dos bens, etc.)  sofreram um choque emocional violentíssimo que se repercute no comportamento das células cerebrais, ainda que os próprios por vezes nem se apercebam da sua magnitude. O que acontece é que pouco (ou muito) tempo após terem presenciado ou vivido incidentes tão graves, raros serão os casos em que não lhes sobrevenha uma depressão. Depressão que, consoante a sensibilidade de cada um, pode em casos extremos levar ao suicídio.
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De Anónimo a 10.01.2013 às 04:40

(segunda parte)
continuação)

Façamos uma analogia, aparentemente estranha mas que se equipara, entre, por exemplo, a fragilidade, delicadeza e perfeição da mente humana e o igualmente delicado e perfeito funcionamento de um relógio de pulso com um mecanismo ultra sofisticado - tomemos um Patek Philippe - e temos que se este sofrer uma pequenina pancada ou se apanhar demasiado frio ou calor, etc., o seu frágil mecanismo é afectado e começa a funcionar menos bem. O cérebro humano é igual, funciona perfeitamente até ao momento em que sofre uma agressão, mesmo que mínima, passando a ter problemas, mas que se resolverão com a terapia adequada por se tratar de uma afecção passageira. Com o relógio acontece o mesmo, um conserto  cuidadoso efectuado por mãos experientes e volta ao seu normal. 

Porém, nos humanos, se a agressão for violentíssima atingindo fortemente as células nervosas, então daí advirão consequências gravíssimas, que podem ser temporárias se tratadas a tempo, se o não forem provocarão danos fatais. O cérebro, sendo a 'máquina' mais perfeita que existe e que Deus achou por bem atribuí-la exclusivamente ao ser/homem, é comparável ao mecanismo de um dos relógios mais perfeitos e delicados do mundo e no entanto basta um leve solavanco para destabilizar qualquer um deles. Se o abanão for forte então o problema torna-se muito sério, mas não perdido. O relógio só voltará à sua anterior precisão se for consertado por um bom mecânico especializado na marca. Quanto à depressão, seja ela mais grave ou menos grave, bastará um (bom) neurologista que a ataque sem tardança e a recuperação verificar-se-á.

Afinal a mente humana, a mais misteriosa, mais frágil e mais perfeita Obra da Criação, pode ser igualada às mais divinas e frágeis criações do homem. Um botão de rosa, uma boneca de Biscuit, uma jarra de cristal da Boémia, um prato Compª. das Índias, uma peça de vidro Fabergé, se manuseadas com extremo cuidado podem resistir a uma pequenina falha que não perdem pitada da sua beleza nem o objectivo para que foram concebidas, mas se sofrerem uma forte pancada ou se nos escaparem das mãos, perdem-se para sempre.  O mesmo acontece com as células nervosas (ou neurónios) dos seres humanos.
Maria

Obs.: Há cerca trinta anos uma rapariga de uma aldeia nortenha suicidou-se porque sofria de fortíssimas dores de cabeça que a deixavam enlouquecida (eram as tremendas enxaquecas, mas ela não sabia que as podia atenuar e mesmo eliminar). Deixou escrito que não aguentava viver nem mais uma hora com aquele sofrimento atroz.
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De Samuel de Paiva Pires a 10.01.2013 às 20:35

Muito obrigado pelos seus elucidativos comentários, caríssima Maria. Uma amiga futura psicóloga também discordou de mim quanto àquela afirmação em relação ao suicídio por problemas económicos. É como diz, cada caso é um caso. Mas nestes modernos tempos em que o materialismo se sobrepõe a quase tudo, não deixa de ser sintomático de uma certa falta sentido, vá lá, até de crise de valores - expressão tão em voga, que não gosto muito de utilizar, mas creio que aqui é adequada.  Daqui a uns tempos continuo a desenvolver esta série. Voltarei a pegar nesta ideia. 
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De Anónimo a 12.01.2013 às 00:00

Leia-se "psiquiatra" e não neurologista, naturalmente.

---
Obrigada pela sua resposta, Samuel. Mas saberá porque abordei o assunto conforme o fiz, não é verdade? Claro que sim. E olhe que o exposto é a pura verdade. E é-o em campos opostos e com origens diversas, mas que se interligam e com consequências trágicas idênticas.
 
O Samuel diz que vai voltar ao assunto. Por mim acho óptimo e agradeço.  Dar-lhe-ei talvez e então, dois exemplos (próximos) que confirmam o que digo acima.
E parabéns pelos seus excelentes últimos escritos. 
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De Samuel de Paiva Pires a 12.01.2013 às 00:07

Bem sei, Maria :) Voltarei sim, conforme a inspiração me for ajudando. Muito obrigado pela simpatia, que retribuo, já que é sempre um prazer ler os seus comentários. Um bom fim-de-semana!

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