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Sócrates Redux

por João Quaresma, em 09.01.13

«Ana, grávida da nova Lisboa», por Daniel Deusdado no JN:

 

«Falemos de coisas concretas e consumadas: o casamento da ANA, uma historieta que tem tudo para sair muito cara. Passo a explicar: a ANA geria os aeroportos com lucros fabulosos para o seu pai, Estado, que, entretanto falido, leiloou a filha ao melhor pretendente. Um francês de apelido Vinci, especialista em autoestradas e mais recentemente em aeroportos, pediu a nossa ANA em casamento. E o Estado entregou-a pela melhor maquia (três mil milhões de euros), tornando lícita a exploração deste monopólio a partir de uma base fabulosa: 47% de margem de exploração (EBITDA).

O Governo rejubilou com o encaixe... Mas vejamos a coisa mais em pormenor. O grupo francês Vinci tem 37% da Lusoponte, uma PPP (parceria público-privada) constituída com a Mota-Engil e assente numa especialidade nacional: o monopólio (mais um) das travessias sobre o Tejo. Ora é por aqui que percebo por que consegue a Vinci pagar muito mais do que os concorrentes à ANA. As estimativas indicam que a mudança do aeroporto da Portela para Alcochete venha a gerar um tráfego de 50 mil veículos e camiões diários entre Lisboa e a nova cidade aeroportuária. É fazer as contas, como diria o outro...

Mas isto só será lucro quando houver um novo aeroporto. Sabemos que a construção de Alcochete depende da saturação da Portela. Para o fazer, a Vinci tem a faca e o queijo na mão. Para começar pode, por exemplo, abrir as portas à Ryanair. No dia em que isso acontecer, a low-cost irlandesa deixa de fazer do Porto a principal porta de entrada, gerando um desequilíbrio turístico ainda mais acentuado a favor da capital. A Ryanair não vai manter 37 destinos em direcção ao Porto se puder aterrar também em Lisboa.

Portanto, num primeiro momento os franceses podem apostar em baixar as taxas para as low-cost e os incautos aplaudirão. Todavia, a prazo, gerarão a necessidade de um novo aeroporto através do aumento de passageiros. Quando isso acontecer, a Vinci (certamente com os seus amigos da Mota-Engil) monta um apetecível sindicato de construção (a sua especialidade) e financiamento (com bancos parceiros). A obra do século em Portugal. Bingo! O Estado português será certamente chamado a dar avais e a negociar com a União Europeia fundos estruturais para a nova cidade aeroportuária de Alcochete. Bingo! A Portela ficará livre para os interesses imobiliários ligados ao Bloco Central que sempre existiram para o local. Bingo!

Mas isto não fica por aqui porque não se pode mudar um aeroporto para 50 quilómetros de distância da capital sem se levar o comboio até lá. Portanto, é preciso fazer-se uma ponte ferroviária para ligar Alcochete ao centro de Lisboa. E já agora, com tanto trânsito, outra para carros (ou em alternativa uma ponte apenas, rodoferroviária). Surge portanto e finalmente a prevista ponte Chelas-Barreiro (por onde, já agora, pode passar também o futuro TGV Lisboa-Madrid). Bingo! E, já agora: quem detém o monopólio e know-how das travessias do Tejo? Exactamente, a Lusoponte (Mota-Engil e Vinci). Que concorrerá à nova obra. Mas, mesmo que não ganhe, diz o contrato com o Estado, terá de ser indemnizada pela perda de receitas na Vasco da Gama e 25 de Abril por força da existência de uma nova ponte. Bingo!

Um destes dias acordaremos, portanto, perante o facto consumado: o imperativo da construção do novo grande aeroporto de Lisboa, em Alcochete, a indispensável terceira travessia sobre o Tejo, e a concentração de fundos europeus e financiamento neste colossal investimento na capital. O resto do país nada tem a ver com isto porque a decisão não é política, é privada, é o mercado... E far-se-á. Sem marcha-atrás porque o contrato agora assinado já o previa e todos gostamos muito de receber três mil milhões pela ANA, certo? O casamento resultará nisto: se correr bem, os franceses e grupos envolvidos ganham. Correndo mal, pagamos nós. Se ainda estivermos em Portugal, claro.»

 

A que eu acrescento:

1. Assim se vê porque é que a intenção do incómodo e detestado Álvaro Santos Pereira, de criar um aeroporto para as companhias low-cost que reforçasse a Portela, foi travada.

2. Cumpre-se a regra de que quando o governo é PSD, os grandes negócios do Estado vão para franceses, da mesma forma como quando o governo é PS, vão para alemães (mesmo que não seja quem acaba por assinar o contrato, como aconteceu no caso dos submarinos).

3. Um sector do qual depende o nosso turismo (estamos bem a falar do monopólio dos aeroportos) é entregue aos franceses, que são nossos concorrentes enquanto destino turístico. Sabendo-se do nacionalismo económico que vigora em França, e de como a coordenação entre Estado e privados é total quando o interesse nacional francês está em causa, convenhamos que foi uma coisa muito bem feita, de uma sensatez a toda a prova. Dos empresários do turismo, nem uma palavra: estão completamente a Leste do que está em causa.

4. Agradece-se encarecidamente a todas as boas almas que saem sempre em defesa das privatizações, quaisquer que sejam e por mais ruinosas que sejam as suas condições. Lindo serviço.

publicado às 18:07


2 comentários

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De MIGUEL a 11.01.2013 às 00:44

QUANDO ESTÁ TUDO DITO NÃO SE COMENTA !
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De Pedro Carlos a 12.01.2013 às 13:43

Embora grande parte da teoria da conspiração implícita seja muito discutível (nomeadamente a ideia de que interessa ao novo dono antecipar a necessidade de Alcochete...), ao contrário da TAP e da RTP (que estão em sectores liberalizados e onde o Estado não devia estar) privatizar um monopólio é sempre mais arriscado e discutível, mesmo para os mais liberais como eu.
Mas talvez tivesse sido bom lembrarmos-nos do risco de termos de vender estas operações rentáveis para o Estado quando o nosso défice estrutural primário nos tempos socráticos correspondia quase ao valor de uma ANA por mês!

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