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Alguns apontamentos sobre o Mali

por João Quaresma, em 19.01.13

1. Era perceptível desde o Verão que algo se iria passar no Norte do Mali, com o reforço de forças especiais francesas na região, a que se juntou a concentração de forças americanas no Mediterrâneo em Setembro (após o ataque ao consulado norte-americano em Benghazi). Ambos os países têm feito a vigilância de movimentos e a identificação de possíveis alvos. Desde que a região foi tomada pelos islamitas, França tentou virar os tuaregues contra os movimentos jihadistas ligados à Al Qaeda (Al Qaeda no Magrebe Islâmico e Ansar-Dine), criando uma luta interna de forma a permitir que o exército maliano, reforçado por contingentes dos países da região, lançasse um contra-ataque. Triplo fracasso. Não só não conseguiu criar essa divisão, como boa parte do exército governamental do Mali desertou para o lado dos rebeldes e o que existe é extremamente ineficaz, mal treinado, mal equipado e pouco motivado. Por último, o governo de Bamako tentou evitar a vinda das tropas aliadas, consciente de que se sabe quando os aliados chegam mas não se sabe quando partem. Ou seja, não podia resolver o problema sozinho mas também não queria ajuda externa. Neste impasse, e para resolver este problema que se arrastava havia já demasiado tempo, nos últimos meses França foi criando as condições para uma intervenção militar internacional (que seria dos países da CEDEAO) com o aval das Nações Unidas.

 

2. O fundamentalismo islâmico implantado pela Irmandade Muçulmana (organização que goza de grande apoio e financiamento do Qatar) está em progressão desde as «primaveras árabes», e nada indica que o processo seja reversível. Mesmo em Marrocos, país moderado e última monarquia do Magrebe, o governo é afecto à Irmandade Muçulmana e apesar da moderação conseguida pelo Rei através de concessões, não é certo que este regime se aguente; por um lado tem sido um regime sólido, prestigiado e popular, por outro a pressão para o derrubar e instalar uma república islâmica é grande. A Argélia é o único país do Norte de África que até agora escapou ao processo, e é também o maior e o mais forte, gozando também do poder de influência conferido enquanto um dos principais fornecedores energéticos da Europa. Mas há também a questão do povo tuaregue, presente numa vasta região dividida entre vários países com fronteiras traçadas a régua e esquadro, e que reclama um estado seu. Se se concede a independência a um estado tuaregue num desses países, isso criará problemas a todos os outros. A repetição da independência do Sudão do Sul não pode ser consentida.

 

3. Naturalmente que sempre que falamos dos interesses franceses na região do Sahel, temos de ter presente a Areva, o gigante francês da energia nuclear e as suas explorações de urânio. No entanto, e mesmo que esses interesses existam nesta guerra, será manifestamente exagerado considerá-los como um motivo para esta guerra. Se fosse, certamente não teria havido unanimidade no Conselho de Segurança das Nações Unidas no apoio a esta intervenção (o que é digno de registo sobretudo sabendo-se que a China também tem interesses na região), nem haveria aviões ingleses, americanos ou canadianos a apoiar directamente esta expedição. A intervenção deverá explicar-se pela necessidade de travar os islamitas e evitar que se forme um grande Afeganistão na região do Sara/Sahel, o que seria uma ameaça para a Europa. Infelizmente, e mais uma vez, a União Europeia tem primado pela passividade, até porque o Norte da Europa acha que o islamismo na margem sul do Mediterrâneo não lhe diz respeito e que é apenas um problema para os países do Sul. E será para estes países (Espanha, Portugal, França, Itália, Malta e Grécia) que a tensão que se está a acumular no Norte de África tenderá - e mais cedo do que se pensa - a transbordar.

 

4. França é actualmente, a maior potência militar europeia, e dispõe de forças numerosas, bem equipadas e treinadas. No entanto, com os cortes orçamentais a que a defesa tem sido sujeita, em algumas áreas as capacidades ressentem-se e isso é visivel. Por exemplo, o stock de bombas da Força Aérea foi quase esgotado na campanha da Líbia, em 2011, e ainda não foi completamente reposto. Grande parte do equipamento é dos anos 80 e, no caso dos aviões de transporte, anterior a isso e com muito uso. A ajuda solicitada aos aliados tem sido, justamente, de aviões de transporte, dos quais depende toda esta operação. Por seu lado, a capacidade combativa dos islamitas, determinados, bem treinados e bem armados (com a pilhagem dos depósitos do exército líbio, no momento da queda de Kadaffi) e movendo-se rapidamente em simples pick-ups, tem sido uma surpresa. Normalmente, não deveriam conseguir resistir dias a fio às forças francesas, como tem acontecido. Isto confirma que o know-how da guerra do Afeganistão e provavelmente muitos combatentes, mudaram-se para o Norte de África. Esta Sexta, a cidade de Konna foi tomada pós uma semana de combates, mas - por enquanto - não são reveladas baixas malianas nem francesas.

 

5. O conflito está a tornar-se regional. O ataque ao complexo de gás de In Aménas (um dos mais importantes do país) por parte de jihadistas vindos de território líbio (que controlam, no Sul) poderá levar a Argélia a uma intervenção no país vizinho para os perseguir nas suas bases, o que seria justificado perante a comunidade internacional dada a necessidade de segurança dos recursos energéticos. Por outro lado, o Leste da Mauritânia tem sido atravessado pelos jihadistas e nos últimos dias deram-se passos para o alastramento da guerra a este país, com o presidente local a oferecer auxílio ao Mali (contra a opinião da esmagadora maioria das forças vivas do país, que são pró-jihadistas). No início da semana, Espanha ofereceu a França a disponibilidade das suas bases aéreas e navais para as operações em África, tendo os franceses solicitado o uso das Canárias para apoio da sua aviação, o que prenuncia operações sobre território Mauritano (já que o espaço aéreo argelino está acessível às aeronaves francesas, nas ligações com a Europa). Já esta Sexta à noite, os franceses referiam que os combatentes jihadistas estavam a escapar atravessando a fronteira com a Mauritânia. Nos últimos meses, Espanha reforçou o seu dispositivo militar nas Canárias, algo que as circunstâncias estão a justificar.

 

6. Portugal, face a esta situação, fez até agora o mínimo dos mínimos que se lhe exigia: demonstrou apoio político a França e prometeu apenas apoio militar no seio da missão da UE de treino do exército maliano - uma missão de utilidade algo duvidosa, já que demora meses a formar novas tropas - valendo-se da boa desculpa da situação financeira. Naturalmente que Portugal não deve favores nenhuns a França (que há muito que faz o que pode para prejudicar a presença portuguesa em África, nomedamente na Guiné-Bissau) nem à CEDEAO, que alinha com França e que apoia directamente com as suas tropas o regime golpista que em 2012 tomou o poder em Bissau. Mas, caso se dê um maior envolvimento de outros países europeus no conflito, será difícil alhear-se da situação, e ficar apenas a assistir numa questão em que somos parte interessada: o islamismo no Norte de África é uma ameaça à segurança nacional e algo de mais efectivo provavelmente terá que ser feito, seja no apoio a França, seja a outros países envolvidos. Além de que o fluxo de refugiados que a guerra está a gerar poderá vir a afectar-nos, sendo que o envio de uma missão humanitária (provavelmente para a Mauritânia) também deverá ser de considerar. Por fim, é preciso olhar para a situação com realismo e responsabilidade. O Ministério da Defesa tem agora mais com que se ocupar do que a reprivatização dos estaleiros de Viana do Castelo ou a disparatada venda de parte dos caças F-16 (que não são muitos e que há muito deviam estar presentes também na Madeira, como defende a Força Aérea).

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publicado às 05:00


7 comentários

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De bloody mary a 19.01.2013 às 18:21

Um excelente artigo sobre um tema que, infelizmente, também diz respeito ao nosso país. Uma análise lúcida e reveladora de conhecimentos profundos sobre o tema, quer em termos geo-estratégicos quer económicos. Muito obrigada.
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De João Quaresma a 20.01.2013 às 15:20

Obrigado, cara Bloody Mary. Esperemos que a situação seja contida antes que sejamos atingidos. Já temos problemas que cheguem.
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De João Quaresma a 20.01.2013 às 16:16

E acrescento que nos diz respeito não só pela proximidade mas também pelo facto de que já estivemos sob domínio muçulmano. E isso é algo que não é esquecido do outro lado do Estreito de Gibraltar.


Cordialmente,


JQ
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De Nuno Castelo-Branco a 20.01.2013 às 09:46

João, bem pode perder o seu latim. Tudo o que respeite à defesa é tabu e curiosamente, os militares nacionais têm enormes responsabilidades no seu desprestígio. Quando ainda temos de escutar  gente dos tempos de Otelo e do Vasco da pança perorar acerca de "revoluções e justiças", como querem então que as forças armadas sejam levadas a sério? Pelo contrário, continuam muitos militares a colaborar com as choraminguisses da guerra "colonial", espolinhando-se aos pés da sua própria história muito mal contada. Tudo permitiram à "classe política", inclusivamente o desastroso fim do SMO. Tiveram e ainda têm medo daquilo que a ralé dos pasquins a soldo possam publicar ou transmitir via SIC/TVI. A sociedade é influenciada por tudo isto e não nos podemos admirar do desnorte que parece imperar entre os civis que têm ocupado o ministério da defesa. A indústria militar é praticamente inexistente, inventam-se todo o tipo de pretextos para não se cumprirem as promessas de reequipamento e os respectivos contratos, alinha-se facilmente na autêntica conversa do chácha que é a tal "força de intervenção europeia", descura-se o nosso espaço vital no Atlântico Norte, adia-se a construção dos patrulhas - lesando gravemente a indústria naval e a possibilidade de futuras exportações - , etc, etc. 
Já agora, quem leia os jornais do país vizinho, pode verificar uma certa tendência para o mesmo, dado o extremo receio que o regime de taifas instituído em Espanha, desde sempre nutriu em relação aos militares. O ataque cerrado ao Rei - aproveitando as parvoíces do genro - fazem parte desses esquema bem organizado. Veja o que está a acontecer aqui bem perto, precisamente no momento em que os patetas do parlamento madrileno pretendem renovar o disparate da reivindicação de Gibraltar:
http://www.abc.es/espana/20130120/abci-marruecos-celula-terroristas-201301200950.html
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De João Quaresma a 20.01.2013 às 15:40

Caro Nuno, quando se debatem estes assunto acabamos sempre por ir tocar à mesma tecla: as Forças Armadas são o espelho da Nação. Tudo o que de bom e de mau um país tem, reflecte-se no que são e que é feito às FAs. Não havendo preocupação ou sequer lealdade para com os interesses do país, o poder político não vê interesse em dispender recursos com a Defesa, mais do que o mínimo que nos garanta a permanência na NATO. Além de as "forças vivas" do regime abominam tudo o que representar valores como patriotismo, disciplina e brio, tudo coisas que são opostas ao que se cultiva nas últimas décadas. Os militares têm sido muito ingénuos e não encontram uma forma de lidar eficazmente com o poder político.


Espanha, nesta matéria, tem os seus problemas, mas quem nos dera tê-los na mesma medida.


Quanto à notícia sobre as células em Ceuta - obrigado pelo link - , não dou grande credibilidade. Parece-me que é mais uma picardia entre marroquinos e espanhóis por causa de Ceuta e Melilla. Num país tão grande como Marrocos, a Al Qaeda não encontrava um sítio melhor para recrutar terroristas para cometer atentados nas cidades marroquinas do que os pequenos enclaves espanhóis? Não me parece. Mas registe-se mais um momento de tensão entre os dois países, logo nesta altura.


Obrigado e um abraço!
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De Paulo Selão a 20.01.2013 às 11:22

E há ainda outra questão pertinente. É que parece que o eixo estratégico do islamismo está, se não a mudar pelo menos a expandir-se e a abrir outra frente de desafio na estratégica região do Norte de África, para além do Afeganistão e Paquistão. Os EUA querem reduzir ou desmantelar a sua presença na Base das Lajes algo que os açorianos vêm com grande procupação pois tal presença é incrementadora da economia local.
Até que ponto os americanos estão a cometer um erro estratérgico face aos últimos acontecimentos?
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De João Quaresma a 20.01.2013 às 16:06

Na realidade, esta frente já existe há muito, só que estava reduzida a grupos relativamente pequenos e que estavam mais ou menos controlados pelos vários estados da região. Mas com as revoluções na Tunísia, no Egipto e (mais importante) na Líbia, boa parte do Sahara ficou sem controle e estes grupos tornaram-se verdadeiros poderes. Como os EUA e os seus aliados estão a retirar gradualmente do Afeganistão, que muito provavelmente acabará por cair em mãos dos talibans, essa "mão-de-obra" da Al Qaeda está a regressar e a implantar-se no Norte de África onde está mais à vontade para agir e onde existe a capacidade de atingir recursos energéticos que são importantes para os "infieis".


Os EUA estão a reduzir a presença (e despesa) nos Açores mas não acredito que alguma vez sairão porque é um ponto vital para eles. O centro das suas preocupações actualmente é a China, e é para a Ásia que estão a transferir meios. Mas, se for necessário, voltam em força aos Açores muito rapidamente. Não é muito bom que saiam mas também não é grave, a não ser para a economia dos Açores.


Obrigado pelo seu comentário. Cordialmente,


JQ

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