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Alberto Gonçalves é um dos melhores cronistas portugueses, e a sua coluna de Domingo é de leitura indispensável. Mas há semanas em que está particularmente inspirado, ainda mais que o habitual. Esta é uma delas. Ide ler, do princípio ao fim, que vale bem a pena. Aqui fica parte da crónica, "As casas dos imigrantes":
«É curioso que o mesmo Governo que exorta os indígenas a emigrarem para fora daqui tente convencer estrangeiros a imigrarem aqui para dentro. É engraçado que o mesmo Governo que tenta angariar uns trocos na receita à custa dos indígenas gaste 828 mil euros (alguns media falaram, impávidos, em 828 milhões) a vender imobiliário a estrangeiros. É hilariante que o mesmo Governo que esfola os indígenas através do fisco prometa a estrangeiros benesses fiscais e um IRS competitivo.
Se ainda não têm vontade de rir, eu explico: o Governo quer atrair em definitivo para dentro das fronteiras cidadãos que incompreensivelmente vivem além delas, sobretudo reformados do norte da Europa. O raciocínio do ministério da Economia é inatacável. Se muitos suecos, holandeses, alemães e, pelos vistos, russos torram as poupanças na aquisição de residências permanentes ou estivais em Espanha, França e Itália, nada impede que procedam de modo similar em Portugal, que possui sol, comida decente e, já agora, "6 mil a 10 mil" casas prontas a negociar no mercado de turismo residencial, das quais se espera comercializar 10%. O único contratempo era, como sempre, a escassa divulgação do país no exterior, apesar das recorrentes campanhas de divulgação do país no exterior. A solução? Uma campanha de divulgação do país no exterior.
Sou incapaz de prever o sucesso da iniciativa, mas afianço imediatamente um facto: o nosso Governo é decerto dos menos xenófobos que alguma vez existiram. A tendência histórica e contemporânea da maioria dos países é para repelir forasteiros. Enquanto repele os locais, o Executivo do dr. Passos Coelho optou pela hospitalidade da Holanda seiscentista ou da América dos inícios do séc. XX e desunha-se para aliciar quem vem de longe. Não sendo um apelo tão nobre quanto o "Dai-me os vossos fatigados, os vossos pobres" de Emma Lazarus, a descendente de judeus portugueses cujos versos foram gravados no pedestal da Estátua da Liberdade, o "Dai-me os vossos abastados escandinavos" também é digno de louvor. Caso corra bem, em breve estaremos ricos. Se, o que é pouco provável, estivermos cá.»