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Do Mali até às Colunas de Hércules

por Nuno Castelo-Branco, em 03.02.13

 

Esta tarde, no programa Hora de Fecho da RTP 2, além dos intestinais e gorgolejantes temas que apenas poderão interessar as impantes barrigas dos srs. Costa e Seguro, obsessivamente escalpelizados pelos três jornalistas presentes, foi pelo  embaixador Seixas da Costa mencionado o presente conflito no Mali. Lamentavelmente, o programa perdeu minutos infindos com ninharias da nossa mais rasteira, desinteressante e bem estafada guerrilha inter-partidária, onde também  se evidencia a autofagia a que o actual sistema se remeteu. Num país completamente anestesiado por pequenos conflitos entre os hierarcas sempre à cata deste ou daquele lugar no aparelho estatal, aos portugueses qualquer problema extra-fronteiras poderá sempre parecer como coisa de dispensável preocupação, cabendo aos "grandes" a gestão dos desastres que se vão acumulando sem remédio.  Consiste nisto a total aceitação do velho jargão do Portugal dos ..."pequeninos sem possibilidades", mas desta vez nem sequer podendo puxar pelos galões do ..."honrados". 

 

Seixas da Costa muito oportunamente abordou as várias vertentes que definem o conflito e em poucas palavras ofereceu o quadro geral de uma situação que sem dúvida é passível de a médio prazo poder vir a afectar os países do sul da Europa. Infelizmente não lhe deram tempo para discorrer sobre este assunto de vital importância.

 

Estando os EUA afastados pelas razões que são bem conhecidas, coube à França tomar a iniciativa, intervindo num território que outrora pertenceu aos seus domínios imperiais. Não sendo esta a principal razão - estando em causa o apelo das autoridades do Mali, interesses económicos bem próximos, militares, de prestígio e de própria segurança interna -, serve contudo como uma aceitável justificação para a assistência militar solicitada pelo governo de Bamako, fortemente ameaçado por uma verdadeira invasão por parte de grupos que não conhecendo fronteiras ou nacionalidades, também escarnecem das regras mínimas do direito que conforma e garante a segurança das gentes. A abstenção europeia apenas tem como excepção - como sempre ocorre nestas circunstâncias - o Reino Unido e algumas vagas pomessas vindas de Portugal e de Espanha. Avassalados pela crise financeira e estando os executivos peninsulares sob o fogo cerrado de oposições que não representam qualquer alternativa às políticas do momento, os governos de Madrid e de Lisboa parecem alheados daquilo que dentro em breve poderá ameaçar a segurança de todo o flanco sul da União Europeia. Esta crise não pode ser considerada como coisa circunscrita ao Mali, dadas as evidências bem presentes em todo o Magrebe, estendendo-se os preocupantes indícios desde as margens do Canal de Suez, até Casablanca. 

 

A investida guerrilheira, terrorista, conduz-nos a uma situação na qual os grandes exércitos e a contabilização de tanques, artilharia e outros meios pesados, escassamente poderão influir no decurso dos acontecimentos. O inimigo pode estar em qualquer lado, improvisa, utiliza meios civis para uma rápida movimentação e disfarce, move-se com uma desconcertante celeridade e não hesita perante o uso das populações como escudo dissuasor de uma mais decidida intervenção das potências. Se o Mali cair num qualquer tipo de regime decalcado do figurino taliban, é expectável o alastrar da sedição em direcção ao Atlântico, espalhando-se depois para norte e reacendendo o conflito na Argélia. Nem sequer países aparentemente distantes como a Guiné-Bissau, estarão a salvo. Catástrofe imensa seria o ataque a Marrocos e a derrocada do regime do Rei Moamede VI. Apesar de todas as reformas no sentido de uma representatividade Constitucional, o Reino alauíta consiste num objectivo primordial do radicalismo islamita. As consequências de uma queda marroquina são ainda incalculáveis, pois Marrocos é a nossa fronteira sul, contando até com dois teimosos enclaves ciosamente guardados pela Coroa espanhola. 

 

Existe uma visível tendência para o minimizar deste tipo de problemas, aspecto este habilmente aproveitado para a habitual gincana política por parte de sectores que sempre viram na defesa um óptimo alvo de todos os rancores, populismos que aproveitam a ignorância que grassa em todos os sectores sociais e absurdas teorias da conspiração que uma classe política rotativa incapaz, timorata e sempre expectante do próximo sufrágio, desde logo procura fazer olvidar através de uma fatal abstenção quanto à necessária acção a desenvolver.

 

Os países do flanco sul não poderão calmamente aguardar um atentado terrorista que vitime centenas no centro comercial Colombo, num ajuntamento nas Puertas del Sol ou na Praça de S. Pedro, em Roma. Há que agir rapidamente. 

 

Portugal, Espanha, França, Itália e Reino Unido - Gibraltar ainda consiste numa posição chave e vital para o apontar de responsabilidades à Grã-Bretanha - deveriam estar há muito tempo a planear acções coordenadas que pudessem obstar a problemas que infalivelmente afectarão o conjunto da UE. Estas acções apenas serão possíveis se também existir uma reformulação nos respectivos aparelhos militares, adequando-os aos novos tipos de ameaça. Contando com muitos milhões de muçulmanos expectantes pelos acontecimentos e coagidos pelos grupos radicais que pontificam nestas comunidades bastante excitadas por múltiplas razões - percurso histórico colonial e o sonho por um "ajuste de contas", vários graus de frustração social e económica, ânsia revanchista, etc - , alguns dos principais países europeus ainda hesitam quanto a uma demonstração de força, não entendida esta como a prossecução de estrepitosos bombardeamentos, mas sim de políticas coordenadas que claramente indiquem a existência de um plano, de objectivos e sobretudo, da determinação em responder à ameaça. Também há muito trabalho a fazer internamente, mostrando claramente onde reside a autoridade que faz respeitar a lei.

 

Não se podendo contar com a Alemanha pelas complexas razões que ainda decorrem do rescaldo da II Guerra Mundial, aos países do sul + Reino Unido caberá a assunção desta luta que em primeiro lugar, deverá proceder à mobilização da vontade de resistência - impossível sem um pleno esclarecimento acerca daquilo que está em causa - das opiniões públicas portuguesa, espanhola, francesa, italiana e britânica. Não o fazer, não apenas consistirá num inútil adiar das grandes decisões, como também contribuirá para o estímulo e intensificação das acções terroristas e subversivas que neste caso poucos empecilhos encontrarão. 

 

Eles aí estão, há que dá-los a conhecer à nossa gente e responder em conformidade. 

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publicado às 17:48


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