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Bricolage e Corrupção em Portugal

por John Wolf, em 05.02.13

 

Como é o provérbio? De Espanha nem bons ventos nem bons casamentos? E a corrupção? Se Portugal vive na sombra da economia de Espanha, então poderemos assumir que a prática de ilícitos que cobrem as manchetes dos jornais desse país, também se aplica a Portugal. Ao longo dos anos assistimos a um conjunto de operações de fachada levada a cabo por parlamentares para dar ares de um efectivo empenhamento na luta contra a corrupção. Mas parece que não passa de um artifício para ganhar tempo, para afastar aqueles que procuram agitar as águas. Se nada é mexido de um modo consequente, se nenhum político transforma esta missão na causa da sua vida, é porque há apenas uma explicação. Estão todos metidos ao barulho. E há diversos modos de praticar a modalidade. Como agente activo, como mediador, como receptador ou como arquivista que faz desaparecer as pastas. Não nos restringemos à disciplina clássica de dinheiro passado debaixo da mesa, ao pagamento a pronto a políticos. Há uma outra forma de influência e dissuasão que roça a prostituição. Refiro-me à corrupção imaterial que contagia as artes e letras, a academia e a cultura. A troca de favores entre membros de um clube de vantagens. Compensações desfasadas no tempo, que sugam o prestígio efectivo, o valor de anónimos verticais, gente desconhecida que acredita no seu esforço. Produzo estas afirmações porque não tenho telhados de vidro e já fui preterido por não reunir as condições requeridas. Prefiro o caminho do mérito ou demérito e nunca ficar a dever nada. Durmo descansado com as oportunidades geradas que se alicerçam no princípio de integridade. Não me espanta que o talento Português, desprovido de pergaminhos familiares e tios em lugares de influência, faça as malas e rume a outros destinos. Um país que normaliza a concessão de privilégios a amigos e maus pagadores, é um país que torna o futuro num inimigo, em falência certa. Um país que mata a ideia de entrevista ou torna os castings num erro permanente compromete-se por várias gerações. Mas regressemos à corrupção e ao trabalho inacabado. Em que estado se encontram todos os processos de corrupção que supostamente a Justiça Portuguesa deveria sentenciar e arrumar de uma vez por todas? Será que este país não passa de uma fase instrutória? Será que a suspeição leva a melhor sobre a condenação? Estou zangado, sim senhor. Porque observo o flagelo de uma outra espécie de corrupção. Uma corrupção que vibra na sociedade civil, mas que é designada de um modo diminutivo para parecer menos danosa - jeitinho, ajudinha, favorzinho, mãozinha, paciênciazinha -, quando na realidade é fatal para um país corroído pela cunha que fecha as portas àqueles de direito, os bons e honrados, os trabalhadores vindos da penúria ao encontro da recompensa merecida. E as desculpas que apresentam são muito fracas. O self-made man foi trucidado pela bactéria que procura atalhos para dissimular a mediocridade. Porque é disso que se trata. O reles que destrona o cidadão recto e que procura passar despercebido anos a fio, a vida toda se tiver sorte. Penso que chegou o momento para virar a casa ao avesso. O silêncio de muitos diz tanto...

publicado às 10:40


8 comentários

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De Textículos a 05.02.2013 às 11:02

Produtores de cebola multados por cartelização de preços
http://www.dutchnews.nl/news/archives/2013/02/onion_growers_fined_4m_for_car.php
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De John Wolf a 05.02.2013 às 11:09

Exactamente. Sejam cebolas ou rolhas, o princípio tem de ser defendido.
Obrigado.
John
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De John Wolf a 05.02.2013 às 11:12

Viva Pedro,
Devemos desconfiar quando "escutamos" grandes silêncios...
Txs.
Abraço,
John
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De Tiro ao Alvo a 05.02.2013 às 19:21

Tem toda a razão, digo-lhe eu que tive o privilégio de trabalhar para uma empresa, integrada no grupo CUF, onde se combatia a corrupção e onde se procurava dar oportunidade aos mais capazes, independentemente das cunhas e dos padrinhos, nem sempre com êxito total, mas sempre tentando atingir esse objectivo.
E nem lhe digo o que aconteceu após a nacionalização, o que me deixou indignado: em vez desse “sistema” ter migrado para as outras empresas intervencionadas, como eu sonhei que iria acontecer, foi o “sistema da cunha”, então também muito generalizado, que foi ali paulatinamente implementado, pela mão de agentes encostados aos partidos e a outros grupos de influência, como ainda hoje se podem ver e o amigo aqui denuncia.
Como será possível mudar as coisas, é pergunta que me ponho a mim mesmo, frequentemente. Talvez no dia em que não haja dinheiro para pagar ao funcionalismo público isso possa acontecer, porque denunciar é preciso e, enquanto houver dinheiro, parece-me que as denúncias não acontecem como seria necessário, por que muita gente séria (como é a grande maioria de nós), está nas encolhas e não quer dar o primeiro passo. Mas pode ser que isso aconteça em breve. É o meu desejo.
Posts como estes também ajudam. Continue, portanto.
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De John Wolf a 05.02.2013 às 19:40

Caro Tiro ao Alvo,
Muito obrigado pelas suas palavras de estímulo. Lamentavelmente todos conhecemos situações que colidem com a ordem natural do mérito. Temos a obrigação moral de denunciar situações desta natureza. Há a grande corrupção e a pequena que não deve ser desprezada. Farei o que estiver ao meu alcance para combater esta forma de traição, independentemente do país ou das nacionalidades em causa. 
Ainda hoje um amigo e colega de blog (Samuel de Paiva Pires) esteve numa comissão no Parlamento para expôr uma situação que lhe causou danos. Muitos danos. (há vários posts a explicar os detalhes da situação)
Com os melhores cumprimentos,
John
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De Duarte Meira a 05.02.2013 às 21:46

«Penso que chegou o momento para virar a casa ao avesso.»

Caro John:

Mas, como fazê-lo ? Eis a questão.

Sem querer desanimá-lo, mas apenas preveni-lo, temos de pensar na hipótese de esse "momento" já ter passado. E, se passou, depois, quanto mais passa mais difícil é de "virar".

O que fazer, então ? - Suportar. Estoicamente ? Não, cristãmente : suportar mesmo o humanamente insuportável...
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De Anónimo a 07.02.2013 às 20:16

Ontem perdi um comentário mais explicativo sobre este tema, pode ser que ainda apareça, já que pressionei o OK.
Agora deixo outro comentário, com alterações.

Concordo com a opinião do comentador Duarte Meira. O momento óptimo de desalojar do poder este bando de malfeitores já passou. Não obstante outro momento parecido poderá acontecer e com sucesso garantido, mas só por meio de uma revolução se mais nenhum meio pacífico o conseguir.  Eles, os poderosos, têm as costas bem quentes, estão protegidíssimos por todos os lados.

Ainda sublinhei que aqueles que compõem o leque de partidos e de políticos que os representam - da extrema esquerda à direita situacionista (salvo honrosíssimas excepções) - estão todos metidos no mesmo saco. Todos fingem que se guerreiam na Assembleia e fora dela, em debates televisivos, etc., mas todos eles combinam nas ante-câmaras do poder, a estratégia diabólica de levar o país à sua extinção completa. Só falta preencher esta alínea da extensa agenda negra, porque quanto às outras todas, incluíndo a ruína do país,  já as concretizaram com sobras.

Porém e contràriamente ao que se pensa, não se esgotaram todas as hipóteses desta máfia ser derrubada. Um país quase milenar, no qual os maiores dramas políticos foram resolvidos por Obra de meia dúzia de Heróis, abriga forçosamente no seu seio portugueses tão valentes e destemidos quanto o foram os nossos Gloriosos antepassados. Estes, que ninguém conhece AINDA, só necessitam de ter três objectivos em mente (e é garantido que os têm): socorrerem-se de um punhado de portugueses acima de qualquer suspeita, isto é, de patriotas genuínos e nunca, jamais, em tempo algum, confiar em traidores da véspera que da noite para o dia viraram a casaca; escolher o momento oportuno; e apanhá-los totalmente desprevenidos. Obtidas estas três condições e a vitória estará assegurada.
Maria
 

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