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Portugal, 1974 (1): os Cus

por Nuno Castelo-Branco, em 07.02.13

 

Entre Campos, Julho de 1976

A série que a RTP em boa hora decidiu colocar na sua programação, apenas tem pecado pela omissão quanto aos retornados oriundos das outras províncias ultramarinas. Não seria coisa muito difícil, o cruzar diálogos da família angolana com outra gente vinda de Moçambique, Guiné ou Cabo-Verde. Enfim, mais vale isto que o absoluto nada até agora consagrado como coisa boa e útil para a tranquilidade pública. 

 

No Rossio de 1974-76, aglomeravam-se legiões de forçados ociosos brancos-pretos, aproveitando para reencontrarem velhos conhecidos da terra de origem e ali radicando em pleno centro da então turbulenta capital dos capitães ajaezados de generais, uma certa oposição bastante hostil ao soprado vento da história que afinal jamais daria em tempestade.  O Rossio não era um terreno propício aos dichotes que a miudagem  retornada escutava nas escolas e até os utentes dos autocarros da Carris que paravam nos apeadeiros ali bem próximos da Pastelaria Suíça, logo moderavam as excitadas oras, precavendo-se da volatilidade dos ânimos daquela gente recém-chegada de selvas urbanas entrecortadas de avenidas de quatro ou seis faixas de rodagem. Em suma, por ali trovejava a sedição e ficava então bem demonstrado aquilo que Mário Soares recentemente afirmara a franceses acerca da necessidade de fazer espalhar os retornados pelo país, impedindo aglomerações. Era esta uma antiga desconfiança metropolitana, sabendo-se que até há poucos anos o ajuntamento de mais de meia dúzia de fulanos, fora passível de ser topado como conspirata. O senhor dos Negócios Estrangeiros temia pela segurança do feliz estado de bambúrrio em que o país estava e decerto já o seu telescópio cerebral imaginava aquilo em que Portugal se tornaria nas décadas seguintes à passageira tormenta.  Fez bem em dispersar o exilados, pois de outra forma, a fresca Lisboa da cintura vermelha que então berrava "Alerta, às armas!" de cinco em cinco segundos, ver-se-ia copiosamente ocupada por aqueles que representavam mais de cinco séculos de um agora incómodo poder que tornara Portugal notado no mundo. 

 

Tecem-se muitas considerações e lamentos, correm caudais de lágrimas acerca de alojamentos, peripécias de exigências quanto a hotéis de "cinco estrelas" - como se alguém naqueles momentos de desespero, sequer pensasse seriamente nesse tipo de excentricidades -, subsídios para isto e para aquilo. Entre todos os pontos de discórdia e do bem nacional diz que disse, pontifica o IARN, uma espécie de Plano Marshall local que os já citados e ajaezados capitães forçosamente tiveram de criar, evitando males maiores. A verdade é bem diversa daquilo que alguns corifeus da situação ainda hoje tentam fazer passar por coisa tão verídica, como o facto de a Torre de Belém se encontrar há muito encalhada na margem norte do Tejo. Muitos milhares de portugueses jamais puderam contar com um centavo que fosse e também não poderão os entusiastas dos Vascos, argumentar com as ditas generosidades forçadas em pensões ou Sheratons de vários e impronunciáveis nomes. Para muitos nada houve, a não ser uma esmagadora sensação de perda e queda no vazio.

 

No antigo Portugal Continental enraizara-se a estultíssima ideia de todos os ultramarinos terem vivido em grandes "fazendas", machambas ou casarões abarrotados de criadagem tratada segundo as normas há muito ditadas pela chibatinha de Monsieur Donatien Alphonse François, internacionalmente mais conhecido pelo seu título nobiliárquico. A verdade é que quanto a este ponto os revolucionários especialistas não se entendem, pois se num momento escarrapacham mansões versalhescas, logo de seguida desdenhosamente falam em palhotas de selvagens, quiçá algumas delas exibindo à porta, o crânio de um moleque mais infortunado. No dizer de doutas sumidades que jamais haviam colocado os pés nas Áfricas, cada branco "podia dispor de um criado para cada função doméstica, fosse ela a preparação do mata-bicho, do matinal acto do duche e posterior vestir do colonialista, existindo ainda um engraxador, um carregador das pastinhas escolares dos minino, nem sequer faltando a óbvia testemunha do proibido, a tal tombazana que tomaria conta do bebé e das escondidas pulsões do patrão", etc. À tardinha, todos nós nos "deliciávamos com umas Coca-Colas bem fresquinhas e fazendo rolar pelos dentes um palito, escutávamos  a Natércia (Techa) Barreto e o seu hit Os Óculos de Sol, enquanto a família passeava os olhos pelas ensanguentadas costas do mainato amarrado a uma árvore do quintal". Leões nos jardins, cobras nas valetas, jacarés que espreitavam pelas escancaradas bocas das retretes, bíblicas nuvens de mosquitos, gorilas e hienas em vez de gatos e cães, compunham o quadro da nossa abjecta selva. Sobretudo, o que não faltavam eram doenças, muitas doenças que eram obviamente comprovadas pela nossa imperiosa necessidade de tomarmos banho de uma forma quase maníaca, chegando ao ponto de o fazermos duas ou três vezes por dia! Assim sendo, a "revolução" devia manter a vigilância sobre estes seres chegados de um outro milénio da história e todo o cuidado era pouco para a manutenção da defesa popular, mobilizando-se assim os jornais, os programas de rádio e sobretudo, a televisão. 

 

Ai de quem tenha ousado desconfiar das promessas de Almeida Santos, o então Ministro da Coordenação Inter-Territorial - os nomes institucionais confirmavam o cariz patusco da situação geral -, um dos primeiros a fazer as malas e a partir com a família para Lisboa. Quem chegou logo após as nada convincentes garantias do ministro e do catarreiro general Costa Gomes, veio por sua conta e total risco, não contando para o cômputo da assistência que urgia prestar a quem se mantivesse leal à nacionalidade de sempre. Só depois dos acontecimentos de 7 de Setembro de 1974 se verificaria um inoportuno despertar para a catastrófica situação que deve ser totalmente imputada à coligação dos militares e nervosos civis controladores do poder na Metrópole. A incúria, o desleixo ditado pela incompetência militante e a total inépcia quanto ao manusear do aparelho do Estado, colocaram as novas autoridades nos cabeçalhos de toda a imprensa internacional. Em Lourenço Marques os mortos amontoaram-se por todo o lado, eram por bulldozers enterrados em valas comuns e as cenas foram horrendas, sem qualquer possibilidade de contradição ou habilidades dialécticas. O mundo ficou a saber muito acerca da escandalosa complacência das unidades do E.P. ainda estacionadas na capital do então Estado de Moçambique e a partir desse momento, o governo de Lisboa muito contrariadamente teve de agir. O medo por aquilo que despontava e bem depressa o poderia ameaçar, levou-o a minimamente acautelar as já duvidosas reputações dos mais conhecidos nomes de militares e civis.

 

Chegámos à Portela perto do meio dia de 31 de Agosto de 1974. Em silêncio fizemos uma longa viagem a bordo de um 707 dos TAP, com o direito a um esticar das pernas no aeroporto de Luanda, onde se escutava o tiroteio que ribombava ao longe numa cidade que segundo sabíamos, não testemunhava fuzilaria desde a época da expulsão dos holandeses no século XVII. À espera tínhamos um primo direito do meu pai e para nossa suprema felicidade, o Joaquim prodigalizou-nos um tecto numa pequena roulotte estacionada no então distante Parque de Campismo de Monsanto. Felizmente ainda era verão, o sítio oferecia segurança e estava afastado das barricantes ameaças dos tragicómicos zelotas do poder revolucionário. Por lá não surgiam militares de ténis, nem ceifeiras de lutas efabuladas à cata de futuras mordomias. Se excluirmos os vizinhos mais próximos, os Serpa Pimentel que por ali passavam os fins de semana, o isolamento era quase libertador e nem sequer dávamos pelos longínquos e quase inaudíveis ecos da bagunçada lisboeta. O único lastro daquilo que se passava a umas duas léguas de distância, provinha daquela vizinha e imensa roulotte que jamais rolara, uma residência sobre imóveis rodas bem ao estilo da periferia de Los Angeles. Pertencia a uma família de gente razoavelmente abastada, convenientemente já muito avermelhada e que ostensivamente hasteara a foice e o martelo no tecto do cómico palacete de lataria canelada. Foi através do seu pequenino pick-up - era assim que chamávamos ao gira-discos - e respectivos altifalantes, que tomámos conhecimento da nova vaga da música portuguesa. Além da chata da gaivota da Ermelinda Duarte - não confundir o canoro nome com o da boa vinhaça de Palmela -, vibrava a Tonicha kiki antes do tempo, o Paulo de Carvalho do hino do PPD, a duplazinha maravilha Ary-Tordo, o Zé Mário das fúrias burguesas a disfarçar, o Zequinha da vozinha quiriquiqui e as excitações declamadas do fanha-Fanha, intervalando a repetitiva passagem do Avante Camarada!, num viró disco e tocó mesmo tal que ao fim de dois ou três dias, já conseguíamos inventar novas e subversivas letras para as canções, rebolando-nos de tanto rir pelos hoje impublicáveis melhoramentos conseguidos. Apesar da roulotte residencial devidamente embandeirada e do comício permanente também decorado com naperons multicolores, aquilo que tornava a família por toda a gente conhecida naquelas redondezas, consistia num detalhe anatómico que de tão exuberante, logo foi visto como imagem de marca, de classe. Sendo ferozmente seguidores do partido soviético e ainda por cima senhores de portentosos rabos, a família era genericamente conhecida por ... "os Cus". Assim, tornou-se normal vermos os Cus nos balneários, testemunharmos a passagem dos Cus a caminho do portão do parque, cocarmos os Cus lambendo gelados ou engolindo churros quentes, os Cus gemendo carregados de compras no mini-mercado local e chegada a hora de todos os apetites, tudo fazendo por tornarem os devidos cabos das tormentas intestinais, em monumentos inverosimilmente mais imponentes. Era um prazer toparmos com os Cus sentando os respectivos cus à volta de mesinhas de tampo de fórmica, enchouriçadamente prontos para pantagruélicos repastos que à época - e ainda sem o sabermos, por muitos anos ainda -, até em sonhos nos estavam vedados. Por vezes dou comigo a pensar acerca do que terá acontecido àquele importante conjunto familiar de progressistas Cus. Terão os ditos cujos sobrevivido ao descalabro de Novembro de 1975, logo se refastelando em pastagens mais conformes as novas manadas, ou pelo contrário ainda se rebolarão uma vez por ano até à Festa do Avante

 

O 31 de Agosto de 1974 propiciou-nos aquele primeiro refúgio para o resto das nossas vidas. Seis metros quadrados que surgiam como um providencial bunker para cinco em Monsanto. Muito modernamente equipado com um bico de gás, durante mais de um ano ali aprendemos a degustar esmerados pratos de esparguete com arroz e  arroz com esparguete temperado com Planta. Ríamos com a situação, é verdade, e puxando pelo optimismo uns dias depois, aos cinco já se juntara um gato atrevido, iniciador de uma longa dinastia que chegaria ao novo milénio. 

 

publicado às 17:17


9 comentários

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De Alexandre a 07.02.2013 às 20:14


Textos que correspondem as realidades dolorosas, sofridas por esses portugueses!

Passados todos estes anos, não haverá de certeza qualquer ressarcimento moral público sobre esses dias de braza dos portugueses que regressaram a um país que já não reconheciam.

Deveria ter ser feito , pelo menos através da publicação dessas histórias humanas, para conhecimento geral, o que não é possível:

Os "cus" da alturta ( e actuais...)  e derivados "cuzuinhos".... não deixariam  publicar.

Acrescento, que actualmente não possuimos nenhum jornal, que seja considerado de "referência.



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De Nuno Castelo-Branco a 07.02.2013 às 20:42

Alexandre, esta pequena série da RTP já é qualquer coisa. Incomoda muita gente, mas parece-me que lá terão de a aguentar  por mais umas semanas.
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De Anónimo a 07.02.2013 às 21:33

Magríssimo então, magríssimo agora:)

Belo e revelador escrito, que mereceria ser reproduzido como artigo ou crónica, em qualquer jornal diário decente..., mas infelizmente não os há.

Perdi novamente mais um( já o terceiro?) documentário de que fala. Só vejo  pràticamente os noticiários e não compro revistas com a programação dos vários canais  televisivos,  de modo que perco sempre o tal documentário, que me interessa sobremaneira.
Nuno, se não se importa diga-me qual o dia e a hora do dito, okay?  Many thanks.
Maria
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De Nuno Castelo-Branco a 07.02.2013 às 21:38

Maria M, esta noite, a partir das 23.59, horas iniciarei a postagem dos episódios. Hoje o primeiro, amanhã o segundo. O terceiro seguir-se-á no sábado se conseguir obtê-lo no youtube.
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De Anónimo a 07.02.2013 às 21:53

Que maravilha, Nuno. A thousand thanks.
Maria
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De Isabel Moreira a 07.02.2013 às 22:19

Não sei como é que ainda gozas com a situação. Nuno, conheço muita gente que passou pelo mesmo e acho que não é caso para rires. 
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De Anónimo a 19.05.2020 às 19:34

Poi’s amigo Nuno continua adoro todos nòs passamos este Horrivel tempo obrigado adoro s tua história 
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De Joe Nobody a 07.10.2016 às 13:10

De vez em quando venho reler este post. Onde estarão os Cús? Talvez nas cúpulas do PS...
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De Nuno Castelo-Branco a 08.10.2016 às 09:11

..ou do PPD. Queira Deus que se mantenham como sempre inamovíveis, no PC. ;)

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