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Estórias da história (2): os idiotas úteis

por Nuno Castelo-Branco, em 19.02.13

 

Cunhal e o seu suserano Leonid Brezhnev

 

No pós-guerra, os pc europeus seguiram religiosamente as directivas da igreja-mãe de Moscovo, procurando a todo o transe o arrebanhar de "democratas de todos os sectores" que pudessem legitimar o necessário frentismo que solidificasse o poder instalado pela força do exército vermelho. Se no leste, o caso alemão parece ser aquele mais evidente - o SED que oficialmente e na prática era uma Frente Nacional composta pelos agrupamentos políticos que iam do velho KPD aos ex-nacional socialistas do NDPD -, na Europa ocidental, os pró-soviéticos foram-se adaptando às realidades de cada país, procurando soluções que não apenas lhes garantissem uma permanência parlamentar, como, sobretudo, uma clara predominância na imprensa escrita, televisão e no campo sindical. E assim continuamos.

 

O caso português é tardio, já no alvorecer da decadência da potência soviética. A ilusão da possibilidade do queimar de etapas e forçar o passo apesar de uma esmagadora maioria eleitoral contrária ao projecto, levou o PC a actuar de forma precipitada - digam as Raquéis Varelas e afins o que quiserem dizer - e sem qualquer consideração pelas imediatas e previsíveis consequências no país e no estrangeiro. Tal foi o Caso República, ainda hoje um bom exemplo a apresentar aos bens instalados burgueses gauche - a quem os comunistas normal e risonhamente denominam de "idiotas úteis" -, chamem-se eles Câncio, Isabel Moreira, uns tantos assalariados do plutocrático sr. Balsemão, ou este e aquele sonante nome da blogosfera. Sem quaisquer comentários, deixemos então Raul Rêgo explicar, pois a temática ainda é actual:

 *****

"Depois de 48 anos de vida condicionada por uma censura implacável, a Imprensa portuguesa teve, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, um período de euforia sem barreiras, em que se atropelavam os direitos e os deveres mais elementares. A liberdade confundia-se com irresponsabilidade.

 

Bem curioso o facto de alguns dos jornais e dos jornalistas mais subservientes no tempo de Salazar e de Caetano se terem tornado mais contestatários, logo depois da revolução, capazes de saltarem todas as barreiras e de enfrentarem todas as decisões ministeriais. O Processo Revolucionário tudo justificava, até o destruir de qualquer deontologia e atropela a mais elementar das verdades. Nem falemos do bom-senso.

 

Ao fim de um ano de Revolução, e publicada, em Fevereiro de 1975, a Lei de Imprensa mais liberal de toda a a Europa, essa mesma lei começou a ser desrespeitada tanto no que se refere à administração e propriedade dos jornais como ao conteúdo dos mesmos.  Nalguns casos, era como se todo o jornalismo pudesse escrever seja o que for sem atentar nem na lei nem na orientação do jornal.

 

Esta escalada anarcopopulista na Imprensa começou todavia a ser controlada por um sector. A grande maioria dos jornais diários começou a sofrer uma manipulação violenta, uma censura interna feroz, de um só sector a impôr-se a todos os mais. No jornal "República", que sempre resistira às imposições da ditadura e que contava entre os seus trabalhadores elementos de todas as tendências da Oposição democrática, a desestabilização  foi-se acentuando, na Redacção primeiro e nas oficinas depois. Um grupo de redactores comunistas, com o director comercial, sob pretexto de o jornal fazer a política do Partido Socialista (o que não era exacto), atacava a Direcção e a Administração. Em Abril, depois de vencidos em plenários de Redacção, esses elementos saíram ostensivamente, julgando assim que abalavam o jornal. Ficava o director comercial, comunista, e alguns tipógrafos também comunistas, com outros elementos esquerdistas. A luta prosseguiu até ao sequestro da direcção, redacção e administração, por parte dos insatisfeitos, que fizeram sair o jornal de 19 de Maio de 1975, com o nome do director comercial à cabeça.

 

Encerrado o jornal, a repercussão na opinião pública foi enorme. Passou para além-fronteiras. os grupos da direcção e redacção, unidos, fizeram sair o "Jornal do caso República", embora algumas tipografias onde pontificavam as pressões de momento se lhes tenham fechado.

 

No número de 21 de Junho de 1975, o 7º "Jornal do Caso República" dava a notícia de um documento "ultra-secreto", elaborado por Boris Ponomariov e que, por "falha no sistema de protecção", fora já publicado nalguns jornais europeus. Entretanto, esse mesmo documento era publicado no "Quotidien" de Paris.

 

A reacção dos partidos comunistas português e francês foi enorme. Álvaro Cunhal, no "Avante" de 3 de Julho seguinte, dizia: "Como entende o Jornal "República" a liberdade de expressão e o seu exercício? Num número com data de 21 de Junho e largamente reproduzido no estrangeiro, publica, entre outras coisas, um documento falso e provocatório, que segundo diz, conteria as "instruções de Moscovo" para os partidos comunistas da Europa. Desde logo afirma que o P.C.P. estaria seguindo tais instruções... Esse mesmo documento, que, pelo próprio conteúdo, se vê ter sido fabricado pelas centrais internacionais de diversão ideológica e da contra-revolução, é típico dos métodos fascistas do anticomunismo, digno não das páginas de um jornal que se diz democrático mas do "Diário da Manhã" ou da "Época" de outros tempos."

 

Não seguimos a citação, por não valer a pena. Acrescentamos todavia que o P.C.P. apresentou até o caso na Polícia Judiciária, onde eu fui chamado; mas o caso era tão claro que nem seguimento teve...

 

Com efeito o documento não era falso e nem se podia já dizer secreto. Ao contrário do que dizia Álvaro Cunhal, nem era "falso" nem "provocatório". Tanto assim que, passados dias, de insultarem o "República" por o publicar e de o classificarem de falso e provocatório, a editorial Avante, editora do órgão oficial do P.C.P., publicava na íntegra, sob o título "A Situação Mundial e o Processo Revolucionário", o artigo de Ponomariov, do qual o documento citado é uma síntese.

 

Enquanto reconheciam implicitamente ser exacto o documento publicado no "Jornal do caso República", na nota prévia continuavam a insultar o "República" e os seus redactores e director. Que se lhes há-de fazer? O totalitarismo não é outra coisa.

 

A imprensa portuguesa da altura estava dominada pelo P.C., com o Diário de Notícias à cabeça. 

 

E no mesmo artigo de Boris Ponomariov se encontravam frases, como esta: "O papel dos meios de comunicação de massa na actual luta sociopolítica aumentou em proporções que não têm precedentes nas revoluções do passado. A experiência do Chile convence-nos de que para alcançar a vitória é preciso suprimir o domínio do inimigo de classe sobre os meios de informação pública e de propaganda." Não tendiam a outra coisa. Mas, silenciado o "República", houve a coragem de fazer sair "A Luta" em 25 de Agosto, e a escalada totalitária nos meios de comunicação e na vida política seria quebrada a partir de 25 de Novembro.

 

São do mesmo artigo de Ponomariov também estas palavras: "Quando a revolução tem um desenvolvimento pacífico, reveste-se de importância primordial a tarefa de retirar das mãos dos representantes do velho regime uma alavanca tão importante do poder como o exército e de formar um novo aparelho do Estado., à margem da política." (As citações fazêmo-las da edição do artigo pelo "Avante").

 

Temos assim que para o totalitário da esquerda, como para o da direita, o que interessa é o momento e a escalada de momento. Os meios e a dignidade das afirmações passam para segundo plano. A tal ponto de os órgãos de um partido e o seu secretário-geral dizerem, a 3 de Julho de 1975, que "um documento é falso e provocatório" e que "é típico dos métodos fascistas do anticomunismo", para, quase simultaneamente, publicarem o artigo que é a matriz desse mesmo documento, na editorial oficial do P.C.P.

 

A escalada portuguesa para a democracia tem sido difícil. Muito difícil; mas não o foi só antes do 25 de Abril de 1974.

 

Os aspirantes à ditadura não vêm apenas da direita, nem só estes são golpistas. Quanto ao respeito pela verdade, as provas estão à vista. Estão à vista neste livro em que as técnicas totalitárias quanto à imprensa se nos mostram claramente. Parece-nos que o Homem livre, a sociedade democrática, não são possíveis diante de técnicas de propaganda em que a verdade e sacrificada. Ou melhor: a verdade é sinónimo de conveniência de momento para o respectivo partido.

 

Os documentos analisados neste volume pelo prof. Santanché, durante uma longa permanência entre nós, falam por si."

 

Raul Rêgo

 

Prefácio de Raul Rêgo à obra Uma Revolução falhada, de Gioacchino Santanche´, Editora Perspectivas e Realidades, Junho de 1980

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publicado às 19:13


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