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Há quem ganhe raízes onde mora e trabalha, durante toda a vida; há quem renuncie a cargos quando julga não se encontrar na posse das condições físicas necessárias para desempenhar, com vitalidade, as funções que lhe são atribuídas; há quem só esteja bem onde não está, como cantava o outro… E depois existem aqueles que só dormem descansados com os compromissos assumidos se o seu contributo se mantiver satisfatório, em regularidade e em qualidade.
Eu insiro-me neste último caso e é por isso que, após uma breve passagem pelo Estado Sentido, decidi não chegar a aquecer o lugar e vir aqui despedir-me de todos os meus colegas que mantêm este blog em actividade (tarefa árdua, como todos reconhecerão bem melhor do que eu) e de todos os leitores que tiveram (1) paciência para me ler, (2) simpatia para elogiar e (3) sinceridade ou “falta de chá” para me insultarem e darem algum dinamismo a isto. Um agradecimento a todos, em especial aos Anónimos e ao seu palavreado solto e cobardolas.
Queria evitar citações para não vir armada em intelectual mas esta frase de Nícolas Gómez Dávila explica muita coisa: «“Encontrar-se”, para o moderno, quer dizer dissolver-se numa colectividade qualquer.» Para chegarmos a este trágico resultado são necessários, pelo menos, dois ingredientes: indivíduos isolados, facilmente arregimentados e existência de grupos que nos esvaziam para nos voltarem a encher com supostas identidades. E assim se banalizam a adesão a grupos, a fidelidade aos mesmos e a necessidade de semelhanças na união dos seus membros. Se um grupo não tem coerência interna natural, por muito boa vontade que exista, mais tarde ou mais cedo poderão emergir incompatibilidades e falta de familiaridade. Mas como sugeria Gómez Dávila, o indivíduo moderno não tem grande critério e sensatez quando sente necessidade de entregar-se à primeira colectividade que lhe aparece à frente.
Sou especialmente avessa a isto, à dissolução numa “colectividade qualquer”. Mas não se avance para interpretações abusivas daquilo que quero transmitir. O Estado Sentido está longe de ser a tal “colectividade qualquer”. Muito menos no sentido depreciativo que se afigura naquela citação. E tampouco exige “dissolução” aos seus bloggers. Pelo contrário; sempre tive espaço para avançar com todas as minhas ideias, por mais descabidas que vos parecessem.
A pertença a um grupo, após uma adesão pouco ponderada é que pode despertar aquele desconforto e chamar-nos a atenção para esta característica pesada dos nossos tempos. Esta sensação de nos sentirmos pouco em casa, após várias escolhas que vamos fazendo; a dificuldade de cada um situar, com precisão, a sua identidade e o seu lugar no mundo. Como não gosto de ferir e inibir a minha coerência nem de destoar e causar divisão num grupo (quando as inevitáveis diferenças brotam no dia-a-dia), preferi não prolongar a estadia. Resta-me agradecer a simpatia com que fui recebida e agradecer o gentil convite do Samuel de Paiva Pires, na passada vaga de “contratações de Inverno”. Vaga essa que tem sido visivelmente frutuosa, até pelo aumento do número de visitantes. Que continuem a oferecer aos leitores uma alternativa corajosa que contrabalance com estes tempos de medonha prevalência do pensamento único e de alastramento fácil de populismos.
Até uma próxima…