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Donos fora, intrusos dentro

por Nuno Castelo-Branco, em 07.03.13

O senso comum é visto em Portugal como coisa desprezível e própria dos ilotas em que todos há muito nos tornámos. Não sendo a nossa classe política uma casta émula dos refinados círculos da Westminster do início do século XX - nem sequer podendo comparar-se aos grandes tribunos da nossa Monarquia Constitucional, o republicano António José de Almeida incluído -, julga-se, por incrível que nos possa parecer, muito acima de todos a quem deve o poder e respectivas mordomias. Não dá cavaco ou quando o dá, fá-lo de forma incomodada, pesporrenta e evasiva.

 

Este governo tem feito algum do trabalho que há muito era urgente, há que encarar esta realidade. Portugal não vive num esplêndido isolamento imperial e bem pelo contrário, é parte bem próxima do vórtice que desde sempre ameaça engolir aqueles que menos resistências - no nosso caso por culpa própria - podem oferecer.

 

Henrique Monteiro uma vez mais reafirma aquilo que para todos é evidente há mais de um ano e meio. O governo sofre de uma catastrófica gestão política do seu dia a dia. Bem na senda do semi-mudo antepassado Cavaco Silva - sim, esse mesmo que dizia não haver necessidade dos portugueses serem consultados sobre Maastricht por não se encontrarem preparados para tal transcendente decisão -, o primeiro-ministro é brutalmente frontal e invariavelmente intempestivo, diz o que lhe parece mais acertado. Ora, um chefe de governo deve sempre medir a consequência das suas palavras, por vezes sendo estas mais fatais que este ou aquele acto político. A prudência na fala não é seguramente característica de um respondão Pedro Passos Coelho e por vezes, o silêncio seria a melhor atitude perante uma opinião pública ensurdecida pelo constante ruído provocado pela ordem mediática que antes de tudo, serve interesses bem conhecidos.

 

A partidocracia ainda não acordou para este facto, mas o país divorciou-se do regime e deste apenas respeita um aspecto nada negligenciável, precisamente aquele que mais importa: a liberdade de expressão, manifeste-se esta através de queixumes à volta de uma mesa de família, numa ou outra entrevista à boca do metropolitano, nas redes sociais - blogosfera incluída - e certamente, nas multidões que sem programa enchem as avenidas e praças nestes dias de desnorte. 

 

Há quarenta anos, Marcelo Caetano seguiu o exemplo de outros dirigentes seus contemporâneos e decidiu-se pelas famosas Conversas em Família, tentando explicar o porquê de uma situação que paulatinamente se ia agravando mercê do bloqueio auto-imposto pelos apoiantes da 2ª República. Hoje, o que a todos parece uma evidência difícil de negar, é aquele aspecto avulso de que certas medidas se revestem, mesmo que tal suposição não seja exacta. Portugal não vive em Monarquia Constitucional e em suma, olhando de alto abaixo para a República Portuguesa, não podemos confiar em ninguém que ocupe a cúspide do poder do Estado, pois todos os lugares estão preenchidos por gente comprometida com esta never ending procession de más decisões, compadrios, afinidades que deslustram o bom nome da democracia e porque não?, garante a omnipresença de uma certa marginalidade típica do delito comum. 

 

Não sabemos como os especialistas que naturalmente estarão aptos a confirmá-lo ou não, se as políticas até agora seguidas, terão algum resultado que a longo prazo seja benigno. O que temos a certeza, é que sem uma política de informação à população e feito o trabalho imposto pelos cânones do nosso tempo, Passos Coelho arrisca-se a ser alijado do ninho do poder. Faz-nos lembrar aqueles casos em que o cuco intruso se aproveita do lar alheio, atirando ovos fora para nele colocar os próprios. Pondo o quadro geral nesta forma, talvez o governo entenda o que para muitos é claro, até porque enfrenta um perigo iminente em Belém. 

publicado às 17:03


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