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O euro não interessa a Portugal (3)

por João Pinto Bastos, em 18.03.13

Portugal nunca devia ter entrado no euro. Se há erro que se pode imputar com alguma certeza a esta III República foi a leviandade com que avançou para a consecução extemporânea da adesão a um projecto fundado em alicerces bastante tremelicantes. Na altura, os chefões do regime viram no euro uma espécie de caução para a loucura despesista então em voga. Reler o que diziam os Vítor Constâncio dessa época é, mais do que um exercício fascinante, uma prova de que a idiotice, mascarada com reserva mental, faz muitos danos. Demasiados até. Entrámos no euro, não adaptámos a nossa economia aos desafios de uma globalização já então dominante, e inchámos o Estado, associando à festa todo um ecossistema de grupos e corporações que cresceram na senda de um mar interminável de fundos e subsídios, regados a muito crédito. A festa terminou, e com o fim das festividades, veio a ressaca. Ressaca essa, que, hoje, neste 2013 cheio de dor e sofrimento, ameaça tragar a pouca iniciativa que ainda sobrevive. O Governo cedeu à desorientação, esbulha com impostos a propriedade, esmaga o trabalho, e mantém gente incompetente ao seu leme. Na Europa, rouba-se sem qualquer pudor o fruto do trabalho de anos, impondo a desgraça a povos inteiros. Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Chipre não são mais, na sua globalidade, do que pequenos laboratórios onde joguinhos geopolíticos, acompanhados de veleidades eleitoralistas para consumo interno, são testados até ao limite da suportabilidade. Os próximos meses serão letais. Em primeiríssimo lugar, teremos o veredicto do Tribunal Constitucional relativamente ao OE, que poderá, potencialmente, gerar perdas para muitos dos actores que têm determinado a narrativa política pátria. Em segundo lugar, a instabilidade política e financeira externa tem todos os ingredientes para forçar uma mudança de curso em Portugal. Por último, os indicadores económicos, revistos amiúde, são paupérrimos. O país não cresce, o desemprego aumenta todos os dias, as insolvências são aos milhares, as despesas sociais, por efeito dos estabilizadores automáticos, não decrescem, em suma, o quadro presente é composto por um sem número de crueldades auto-infligidas que ameaçam atirar o país para o precipício.  Para agravar esta situação, é forçoso recordar aos mais desmemoriados que o grosso da nossa dívida encontra-se hoje em mãos do BCE e da banca nacional. Sim, caríssimos leitores, uma possível reestruturação da dívida, que, sublinhe-se, é absolutamente fundamental para o futuro do país, terá de ter em conta estes factores que não são de somenos. No fundo, tudo o que se está a passar em Portugal não passa de uma total pouca-vergonha. Passam-se dias inteiros a discutir as pérolas do Seguro, a incompetência do Gasparzinho e a voz de tenor de Passos, enquanto o país resvala para a falência generalizada. Sim, porque com ou sem euro o nosso destino está decididamente traçado. E é negro, preto, pretíssimo. Daqui a alguns meses, quando tudo tiver descambado, nada do que hoje discutimos fará sentido. Aí, sobretudo aí, será o salve-se quem puder. É por isso que volto a repetir e a advogar, com serenidade e muita tranquilidade, o abandono ordeiro do euro. Portugal precisa de paz e de esperança. Agora, e não amanhã.

publicado às 17:35







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