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" Este ano, a subida ao jardim do Minho, peregrinação votiva aos ares pátrios, fez-se em temperatura deliciosa e em condições de sossego: nem o calor asfixiante dos últimos anos, nem a habitual aglomeração de gente. E por alturas do Entroncamento éramos cinco pessoas num compartimento de oito. No Porto, depois de passarmos o rio muito barrento, à tabela. E à tabela na Trofa.

Por conveniência pessoal, aqui esperava-nos o carro do Manuel Conde: o carro quase novo em folha; o Manuel sempre na mesma idade.

Instalados, toca a andar na estrada larga, entre cerdeiras carregadas de vides, com os cachos a avizinhar-se do pintor. A maturação está adiantada, e devemos ter vindimas feitas no fim de Setembro.

Ao lado do Manuel, enquanto olho a paisagem amiga, folhei-o, a informar-me.

« Então como vai isto, Manuel? », e aponto os campos verdes. E ele, mãos pregadas no volante, conta: « vinhinho vai haver muito - uma fartura, descontando mesmo o que possa estragar-se; agora de pão, menos mal; o inverno foi seco, de sorte que as terras que não regam estão fracotas ».

Silêncio.

E ele, filósofo a quem a experiência deu luzes, acrecenta: « que o povo, o que mais apetece é o vinhinho... »

Certo. Parece que o comer, não matando a sede, embora mate a fome, é para esta gente coisa inferior ao beber, porque parece que o beber mata a sede e mata a fome.

Todos os anos, quando chego, ainda se não tem dobrado meia hora, já a caseira me pergunta: « mete-se a torneira à meia pipa, sr. doutor? ».


Já passámos Vila Nova de Famalicão, camiliana como nenhuma outra. O carro de proa a Guimarães galga os quilómetros sobre areia. 

« Para que deitaram tanta areia na estrada? »

E o Manuel, fornecedor de termo novo aos filólogos, esclarece: « é para se meter entre os paralelos ». Paralelos chama-se por aqui aos paralelipípedos que calcetam a estrada. 

E outra vez o  silêncio.

Aborrecido, magoado, não sei de que mágoas, deixo os olhos errar sem destino...

Mas acordo: « E lá pela terra, Manuel, que há? »

« Ai, sr. doutor, tem sido uma desgraça... tem morrido gente que nem se faz ideia... »

( ... )

Recorta-se já no horizonte o monte da Penha. Estou em Guiimarães.

E na Madre de Deus. Corro à água do meu tanque, a saudá-la e a sondá-la.

Como sempre fina e leve. Mas, ai de mim!, este ano é branda e triste. À caseira que lá vinha pedi esclarecimentos. E ela, como o Manuel me dissera, informou: « o Inverno foi seco; há muitas fontes mortas. Vai haver mau ano de pão... »

                         Olhando com tristeza a fonte, disse para mim:Deus te aguente!

E foi com esta prece muda que recolhi, a rever a minha casa...

publicado às 19:34


2 comentários

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De Duarte Meira a 19.03.2013 às 16:54


Só conhecia pelo título estas Páginas Minhotas, e deixe-me dizer-lhe com franqueza que o texto seleccionado pela Cristina é bastante inexpressivo: pouco sumo pinturesco, como pouca era a água do tanque. Era de esperar de um positivista, como Pimenta,  notações sobre se os combóios vêm ou não "à tabela"; mas, do poeta, francamente, esperávamos mais. Não encontrou a Cristina nada de mais saboroso? Enfim, ressalve-se a nótula filológica sobre os "paralelos".
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De Cristina Ribeiro a 19.03.2013 às 20:04

Sabe o Duarte que fiquei também com essa impressão? E não só neste texto; sabe a pouco...
Aqui, Alfredo Pimenta não tem a altura do Historiador, nem de - algumas - páginas políticas.

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