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Carta aos Reitores das Universidades Europeias

por Samuel de Paiva Pires, em 21.11.07
Em 1925, o surrealista francês Antonin Artaud, escrevia uma Carta aos Reitores das Universidades Europeias, que, infelizmente, hoje bem se poderia intitular Carta a alguns Professores Universitários Portugueses:

Senhores Reitores,

Na estreita cisterna que os Srs. chamam de "Pensamento", os raios espirituais apodrecem como palha.

Chega de jogos da linguagem, de artifícios da sintaxe, de prestidigitações com fórmulas, agora é preciso encontrar a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma lei, uma prisão, mas um guia para o Espírito perdido no seu próprio labirinto. Além daquilo que a ciência jamais conseguirá alcançar, lá onde os feixes da razão se partem contra as nuvens, existe esse labirinto, núcleo central para o qual convergem todas as forças do ser, as nervuras últimas do Espírito. Nesse dédalo de muralhas móveis e sempre removidas, fora de todas as formas conhecidas do pensamento, nosso Espírito se agita, espreitando seus movimentos mais secretos e espontâneos, aqueles com um caráter de revelação, essa ária vinda de longe, caída do céu.

Mas a raça dos profetas extinguiu-se. A Europa cristaliza-se, mumifica-se lentamente sob as ataduras das suas fronteiras, das suas fábricas, dos seus tribunais, das suas universidades. O Espírito congelado racha entre lâminas minerais que se estreitam ao seu redor. A culpa é dos vossos sistemas embolorados, vossa lógica de 2 mais 2 fazem 4; a culpa é vossa, Reitores presos no laço dos silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser, falsos sábios, cegos para o além-terra, filósofos com a pretensão de reconstituir o Espírito. O menor ato de criação espontânea e um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica. Deixem-nos pois, os Senhores nada mais são que usurpadores. Com que direito pretendem canalizar a inteligência, dar diplomas ao Espírito?

Os Senhores nada sabem do Espírito, ignoram suas ramificações mais ocultas e essenciais, essas pegadas fósseis tão próximas das nossas próprias origens, rastros que às vezes conseguimos reconstituir sobre as mais obscuras jazidas dos nossos cérebros. Em nome da vossa própria lógica, voz dizemos: a vida fede, Senhores. Olhem para seus rostos, considerem seus produtos. Pelo crivo dos vossos diplomas passa uma juventude abatida, perdida. Os Senhores são a chaga do mundo e tanto melhor para o mundo, mas que ele se acredite um pouco menos à frente da humanidade.

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publicado às 14:37


2 comentários

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De Francisco C Domingues a 02.11.2008 às 04:42

Prezado Dr. Samuel
Com agrado li a Carta do Artaud dirigida ao Reitores das Universidades Europeias. Em parte, este texto que à data da sua publicação era uma enorme provocação às "élites" académicas da época, foi por mim traduzida (de um número da revista francesa "Planéte"), em 1971 ou 72, tendo essa tradução sido publicada em Coimbra na revista Capa e Batina. Era grande a instabilidade política, percebía-se já que o regime vacilava. De facto, quando eu esperava que alguém me fosse procurar na sequência dessa publicação, nem o carteiro bateu à porta. Ou a inteligência do "lápis azul" já estava obnubilada por algum síndrome demencial ?
Cumprimentos ... e continue !
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De Samuel de Paiva Pires a 02.11.2008 às 16:10

Caro Francisco, muito agradeço o seu comentário mas por ora terei que declinar o título de Dr., visto que só a meio de 2009 o poderei legitimamente utilizar!
De facto não sei até que ponto a intelligentzia do regime actual já estará de facto numa espiral de demência e degenerescência num certo paralelismo em relação ao regime anterior, mas uma coisa sei de facto, que esta carta faz muito sentido no panorama actual do ensino superior português!
Cumprimentos!

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