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Chipre: um caso geopolítico

por Nuno Castelo-Branco, em 19.03.13

 

O Parlamento cipriota recusou o saque das contas bancárias. Os deputados sabem que podem agora contar com um há muito esperado interveniente na região, não hesitando agora em ruidosamente contrariarem os desígnios de Bruxelas.

 

Não pertencendo à NATO, a ilha de Chipre pode bem ser o próximo alvo do cada vez mais evidente intervencionismo do governo de Putin. A bizarra - ou nem tanto - proposta de resgate oferecido pela Gazprom, integra-se na estratégia de expansão da influência russa no Mediterrâneo Oriental. O caso sírio e a política moscovita que visa a manutenção do status quo nesse seu importante aliado no Médio Oriente, oferece uma certeza quanto à intenção de não abandono das posições na área. Se a isto acrescentarmos a penetração chinesa nos portos gregos e a cada vez mais evidente readopção de alguns argumentos pan-ortodoxos que fizeram história no século XIX e no alvorecer do vigésimo, parece-nos que a Rússia está decidida a preencher o vácuo estratégico numa ilha dividida e agora à mercê de graves dificuldades financeiras. Podemos estar perante o início do cerco à potência turca e talvez a uma presença militar russa para além dos "Dardanelos da NATO", um projecto vetusto de mais de dois séculos, mas nem por isso abandonado pelos czares, pelo regime soviético e agora pela Rússia de Vladimir Putin.  

 

A dependência energética europeia concede preciosos trunfos a Moscovo, podendo os russos contar com alguma colaboração de Berlim, perfeitamente consciente do cada vez mais evidente afastamento norte-americano em relação à Europa. Surge a hipótese de uma progressiva finlandização da chamada União Europeia, conseguindo assim Putin, aquilo que durante mais de quarenta anos o Kremlin vermelho almejou sem qualquer sucesso. Arredado o espectro do comunismo, aos russos já não lhes interessa o controlo daquilo a que outrora chamavam de "partidos irmãos", pois a energia e até a própria segurança militar - escandalosamente obliterada pela generalidade dos Estados da U.E. -, são argumentos capazes de despoletar todo um novo sistema de poder na Europa. À partida existem interesses comuns e a escalada islamita também será um factor a considerar, apesar do até agora flagrante appeasement que o Ocidente adoptou como provisória panaceia que tranquilize os milhões de muçulmanos residentes na Europa. Tudo parece confluir para um render da guarda da tutela sobre o Velho Continente e pelo menos, as vastas regiões da Europa central e oriental não poderão deixar de evidenciar a permeabilidade à influência russa.

 

Bons conhecedores de estratégia, os russos ainda terão bem presentes o clamoroso erro que o hrer cometeu quando interditou a reedição do assalto pára-quedista que com um sangrento sucesso, deu a posse de Creta ao Reich. O controlo do Mediterrâneo Oriental ter-se-ia consumado com a ocupação de Chipre, escancarando as portas do Médio Oriente à intervenção da Wehrmacht, concedendo as jazidas petrolíferas ao Eixo e decididamente fazendo evoluir a Turquia no sentido dos pressupostos do Pacto Tripartido. A não conquista de Chipre, talvez tenha evitado à Rússia o combate em duas frentes e uma clara indicação de derrota militar em 1942.

 

Os cipriotas estão mais isolados que nunca, não há qualquer hipótese de Enosis que lhes valha. O caso das dificuldades financeiras de Chipre é resolúvel, dada a pequena dimensão da sua economia. Os russos sabem-no e dispõem dos meios que lhes comprem uma preciosa posição estratégica, aliás com um potencial energético que se adivinha. A União Europeia poderá adoptar as medidas que lhe pareçam mais oportunas, mas neste caso, há que contar com outro interveniente. O que não parece ser contornável, é a bem próxima inclusão da ilha nos planos de expansão da influência russa numa zona conturbada e bem próxima de países onde a chamada "Primavera árabe" nos deixou à mercê de todas as incógnitas. Resta-nos apenas observar em que sentido poderão agir os turcos. 

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publicado às 22:02


5 comentários

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De jojoratazana a 19.03.2013 às 22:52

Este estratega em factos da politica internacional, ainda vai ser chamado para substituir o Portas.

Demência por demência, não ficamos a perder.
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De Pedro Matias a 19.03.2013 às 23:02

Os comunistas já aderiram ao putinismo? Senão é, parece!
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De zeca marreca a 19.03.2013 às 23:50

Matias, volta pra barraca!
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De jojoratazana a 19.03.2013 às 23:55

Outro illuminate.
Se não é parece.
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De jojoratazana a 19.03.2013 às 23:55

Outro illuminati.
Se não é parece.

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