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O meu Pai tem vinte-cinco anos. Corre sozinho agarrado à sua arma, é o único que a reteve. Ó Santos, ó Santos, tens a certeza que é por aqui? Vamos todos morrer! Ficamos cá todos! Sim! Sim! É por aqui, de Macomia mandam gente e mantimentos para este ponto, vão ver, sigam-me, venham comigo. A granada aterrara a poucos metros da cova onde se mijava e cagava. Os mainatos haviam debandado sem dar sinal de retorno horas antes. Era esperado. Qualquer pessoa com dois dedos de testa, ou seja os mesmos de sempre, farejaria no ar aquilo que estava para vir. O meu Pai corre à cabeça da companhia porque alguns ficaram para trás, pénis cortados enfiados na própria boca entre duas fatias de pão, e outros como o Nunes aterraram cerces sobre o arame farpado por um erro, um passo mal dado, uma bala mal escolhida, a granada precoce. O meu Pai tem vinte-cinco anos e viu. Só queria ter ficado em casa mal grada a asma, a compleição mediana, os estudos bem encaminhados.
Este Estado que hoje come perdiz é o Estado que me ia privando de um Pai.
O meu Tio prima pela excelência académica, aluno do mais fino escol pode ser quem bem quiser. Entende que deve colocar-se ao serviço do seu país, da Nação albergue onde tem visto crescer gente sã e pródiga. Ingressa na Polícia Aérea, tem para tal notas que sobejam, é um desejado. Há um exercício com fogo real. A pessoa errada na hora errada convoca o treino errado. O meu Tio, melhot amigo e esteio de uma criança promissora, é alvejado no cóccix, fica com as tripas feitas em merda, passa o Natal, o Ano Novo e o seu aniversário ligado ao suporte de vida à espera que um burocrata emita um parecer.
Morre enfim.
O meu avô, ora Pai despojado, escreve, move-se, estrebucha, faz de si o espasmo de um universo sofredor. O Estado ignora, recusa, rejeita, escusa-se, jamais sequer enterra o meu Tio com as honras devidas a quem, então esperança da terra, ofertara os seus anos e a prole que nunca veio pela mais vã promessa de uma sociedade que funcionasse.
Até hoje. Até ao mais longínquo futuro, ou não fossem os dias actuais pertença de Miguel Relvas, José Sócrates, Isaltino, Bruno de Carvalho e demais aberrações que todos vós tolerais, porque não tendes um Tio morto às mãos do Estado, nem um Pai que quase lá ficou para que o normal decorrer da execução governativa significasse o suficiente enquanto arma de arremesso contra vós mesmos, títeres.