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Chipre, a lição da nova ditadura

por João Pinto Bastos, em 25.03.13

"Waking up in a country that will never be the same again. Sad to see it happening here, after seeing it in my own." 

Marina Stevis, Twitter


"Kremlin to "freeze assets" of German companies in Russia in retaliation to the terms of EU bailout in Cyprus.. this one definitely has legs."

Steve Hawkes, Twitter


A democracia, que, como é sabido, significa, usando uma expressão bem singela e lincolniana, o governo do povo, pelo povo e para o povo, sofreu um sério revés em terras cipriotas. O que se passou nas últimas horas em Chipre é mais do que um ataque à dignidade nacional de um estado-membro de uma União que já não esconde os seus instintos homicidas. O que se passou foi, sobretudo, um assalto organizado, tale quale uma organização mafiosa, aos fundamentos mais entranhados da jovem democracia cipriota. Há que o dizer com frontalidade e sem qualquer receio. É por isso que, ao contrário, por exemplo, de alguma blogosfera nacional, contesto veementemente o acordo alcançado na última madrugada. Analisemos o fio dos acontecimentos com alguma frieza: à última hora, e após um longo e mortífero "brinkmanship", o Governo cipriota acabou por aceitar a proposta inicial aventada pelo FMI, isto é, os depósitos acima de 100.000 euros acabarão por ser taxados a 30%. Reparem na desvergonha da coisa, primeiro, a Europa do pau e da cenoura impõe um plano assente no confisco aos aforradores, depois, o parlamento cipriota, sede matricial da democracia, rejeita esse mesmo plano, por último, após uma pressão fortíssima aos titulares do poder executivo cipriota por banda da troika europeia e alemã, o plano inicial, habilmente redesenhado, é, finalmente, aceite. O mais engraçado disto tudo é o facto de o plano em causa ter sido edulcorado com a objectivada reestruturação bancária que, não sendo um imposto, dispensará o voto do legislativo cipriota. A democracia não serve para nada em países supostamente intervencionados. Não serve agora e jamais servirá. O confisco voltou, pois, por portas travessas. Com uma agravante: o que antes era taxado a 9,9%, agora passará a ser taxado a 30%. Manobra inteligente e maquiavélica, há que dizê-lo. Qual será o resultado disto? A resposta é simples e medonha, a economia cipriota será completamente destruída. Os russos desaparecerão - o que é compreensível, note-se - e o sistema financeiro cipriota, não obstante a sua desmesura, será rebentado num abrir e fechar de olhos. É assim que se destroem países, em pleno século XXI, sem recorrer às vis armas. Ademais, resta saber como reagirão os depositantes cipriotas, sabendo que os bancos, não os dois maiores, claro está, reabrirão as suas portas na quinta-feira. É certo e sabido, e a conclusão mais saliente desta crise é justamente este facto, que a confiança, activo fundamental em qualquer economia de mercado digna desse nome, evaporou-se. Não existe mais. Além disso, numa jogada arriscada e perfeitamente tresloucada, Mr. Diesel-Boom, que, para quem não sabe, é a alcunha do actual chefezinho do Eurogrupo, já veio dizer, reparem só nisto, que a intenção das troikas que andam por aí a matar povos inteiros à agonia é a de não ajudar os bancos em dificuldades. Por outras palavras, os bancos, depositantes, accionistas e credores que se cuidem a si próprios. O princípio em si não está errado, o problema é que estamos a falar de uma moeda comum, gerida à paulada por um império de gnomos. Uma moeda que, convenhamos, não tem futuro e que não reserva nada de bom às soberanias nacionais, já de si espatifadas, dos estados-membros. Volto a repetir: Portugal deve debater a saída do euro o quanto antes. Talvez o surgimento de um partido anti-euro na Alemanha ajude nesse intento. Sempre copiámos o que se faz lá fora. E a hora para discutir um futuro decente para os nossos compatriotas chegou. Ou euro ou democracia, tão simples como isso.


publicado às 18:30


1 comentário

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De Tiro ao Alvo a 25.03.2013 às 19:57

Escreveu que, em Chipre, "a Europa do pau e da cenoura impõe um plano assente no confisco aos aforradores", mas eu, pelo que tenho lido, julgo que isso não é bem assim.
Digo isto, por que, por um lado e ao que dizem, grande parte dos dinheiros depositados na Banca de Chipre, não são pertença de aforradores, tal como nós os entendemos, mas de “investidores" financeiros, que escolheram aquele "paraíso", quer pelas elevadas taxas de juro ali praticadas, quer pelo reduzidíssimo valor de impostos sobre esses rendimentos ali cobrados (em Portugal, 28%);
Além disso, dizem, muitos desses depósitos terão resultado da lavagem de dinheiro "sujo" - e, se assim for, essa forma de amealhar não pode considerar-se aforro;
Depois, os Bancos cipriotas terão investido em aplicações de alto risco (e daí as taxas de juro elevadas que praticavam), encontrando-se, hoje, todos falidos tecnicamente.
Assim sendo, não me parece bem que sejamos nós, os outros habitantes da europa do euro, a suportar os prejuízos dos grandes depositantes nos Bancos cipriotas, muitos deles estrangeiros, como toda a gente diz. É por isto tudo, que não concordo com a sua posição.

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