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« O Sangue Antigo »

por Cristina Ribeiro, em 10.05.13

- Minha Aldeia de Cima, alteira ao Douro,

que és minha pelo sangue e pelo Bem

que me deste em passado que a tristeza

para sempre varreu da minha posse:

tentem meus versos, tão dissaboridos, 

pagar-te o juro de um por mil, ao menos,

que devo aos corações da tua gente

bizarra, que também neles me quis.

Lareira antiga minha, e minha campa,

no campo do Senhor Capitão-Mor,

meu trisavô, que em ti aguarda a tuba:

és dum jardim a flor mais bela..............

..................................................................... 



Numa aldeia cimeira, entre vinhedos,

entre cachos de luz e malvazia

..............................................................

luares de sonho e sonhos de pureza

é lá, nesse jardim de corações

o buscado paraíso

...................................................................

Lá, são as almas sem mistura,

seus aldeões têm olhos verdadeiros,

mãozadas de rasgada fidalguia.

Lá vive o Bem ao lume das braseiras

com a simpleza dos que em roda jogam

a bisca, e, a seguir rezam o terço.

Lá mora, até, um lírico poeta

- um poeta de amor tinha de o ser -

...........................................................................

..............................................................................


Tomaz de Figueiredo, « Viagens no meu Reino »

publicado às 18:44


5 comentários

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De Duarte Meira a 10.05.2013 às 22:31

« Lá mora, até, um lírico poeta
- um poeta de amor, tinha de o ser -,
cantor de lendas, lírios, luaradas,
virgens de campa sempre com aroma,
perdizes e batidas, bichos bravos,
do seja-pelas-almas dos mendigos,
da noite em que renasce o Deus Menino.
Dessa aldeia é o coração
o coração desse poeta meigo.
No coração, ele, na mesma, a guarda,
sobrando para o infindo arco-íris
de seus pairados voos sem escuro
numa cabeça onde já neva o tempo.
Tão nobre é essa aldeia, tão de Deus,
que até - e vivo! - quer ao seu poeta,
o aclama por seus louros de cantor,
o há de sua altiva pedra de armas,
sem querer saber se versos dão pecúnia.
O Belo, antes de tudo, e fique o bucho
dos ruminantes raso com o esterco.
»

E lá está na Adeia de Cima, Armamar, o memorando busto do seu poeta querido, Fusto José, à beira da casa que foi sua e do seu tão fraterno amigo Tomaz...


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De Duarte Meira a 10.05.2013 às 22:45


Excelente Cristina:

Fiquei de lhe dizer, quando tornasse ao nosso Amigo, qual era o livro do figueirense Luís Cajão em que este falava sobre Tomaz de Figueiredo, que conheceu muito bem e tratou intimamente na parte final e difícil da vida do grande Mestre, em Lisboa. A primeira vez em que o fez foi três anos após a morte do amigo, no livro O Salto de Cavalo (1973), que saiu pelas edições Ágora, de Lisboa, no capítulo titulado "Tomaz de Figueiredo - Retrato a Corpo Inteiro". Lá se pde ler:

« Aristocrata por natureza (politicamente monárquico mas intelectualmente um anarquista) (....) O seu espírito de rapaz manteve-se até ao fim. Dizia-me: 'Até à morte hei-de ser menino' ... »

No mesmo livro Cajão recorda um episódio impressionante. O Tomaz queria tanto ao amigo que, pouco antes de morrer, disse-lhe que estivesse atento, que ele ainda lhe daria notícias suas DEPOIS de partir... E não é que deu mesmo ?!... Uma curiosa (e arrepiante) notícia, que mostra que, mesmo DEPOIS, o Tomaz continuava o mesmo "menino"...
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De Cristina Ribeiro a 10.05.2013 às 22:58

Não nos deixe nesse suspense, Duarte. Que notícia? muito curiosa, eu...


Esta incursão pelo Reino Tomaziano foi inspirada pelo seu sempre oportuno comentário. Grata!
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De Duarte Meira a 11.05.2013 às 21:40

Vamos então ao caso, e em boa hora e momento, que ora andam os meninos crescidos só da barriga (chamados “homens”) todos entretidos com a brincadeira dos futebóis. Com o Salto de Cavalo, saltemos com Luís Cajão para assuntos mais sérios.


Já doente e bem ciente do desenlace que não duraria muito, Tomaz de Figueiredo teria dito ao amigo Luís que, depois de morrer, lhe daria notícias suas. Ora aconteceu que, certa noite, poucas semanas após o trespasse do amigo, estava Cajão no escritório de sua casa. Ia alta a noite, já todos os mais dormiam, o sossego era absoluto, e ele sem vontade nenhuma de se ir deitar. Sentado, com um candeeiro de pé alto, aceso, por trás, junto à orelha do sofá, tinha nas mãos e relia um livro do Tomaz: a colectânea de contos escritos ao longo da vida literária, entre 38 e 70, titulada A Outra Cidade. A hora ia adiantada, mas o sono tinha-lhe fugido. Cajão estava despertíssimo, atento, maravilhado como sempre de descobrir  na escrita do amigo sempre novas lições de saber e de gosto na mobilização dos mais expressivos recursos da nossa Língua. E estava assim quando, de repente, sentiu o pé alto do candeeiro tocar-lhe, uma, duas vezes, na cabeceira do sofá, quase  tocar-lhe a cabeça, a oscilar sobre a base, o quebra-luz a tirar-lhe a luz cheia que incidia sobre as páginas do livro aberto... Volta-se para trás mas vê o candeeiro imóvel. E foi então, e só então, que lhe lembrou o que o amigo Tomaz antes de morrer lhe tinha dito. – Era o “menino de toda a vida” (mas sem barriga de banhas ou saco de acumuladas pecúnias) a pregar-lhe uma partida e a cumprir o prometido...


Estas coisas, Cristina, não são extraordinárias, antes relativamente comuns; ou só extraordinárias para aquela ordinária psicologia “científica” que remete os patamares da experiência humana  aonde não consegue chegar para o âmbito da “parapsicologia”. No presente caso, tenho motivos para pensar que ele nos conta mais da psicologia do artista Luís Cajão, e que as “notícias” de que o amigo Tomaz lhe falara não seriam de natureza diferente daquelas que pode dar hoje a todos os leitores sensíveis e curiosos dos seus livros. Digo isto sem exclusão da possibilidade de uma comunicação real – mas discreta, sem necessidade de pegar em candeeiros...  – entre os que nos julgamos “vivos” e os já idos de aqui para a... Outra Cidade. E também lhe digo que há coisas mais impressionantes do que isto na vida pessoal, cívica e artística do grande Mestre. Continue a relembrá-lo aqui e talvez teremos ocasião de falar disso. Para já, pemito-me só chamar a sua atenção para uma coisa que não pode perder, se ainda a não conhece: a publicação, há poucos anos, do livro titulado O Fim (mas que que ficou inacabado), que seria a terceira parte da trilogia da Toca do Lobo. Um livro que a Censura nunca teria deixado sair...

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De Cristina Ribeiro a 12.05.2013 às 21:21

Concordo, Duarte;  notícias que todos os seus atentos leitores poderão encontrar nos seus livros, e no conhecimento, que deles decorre, da sua faceta, de que comungamos, de " eterna infância ":  « On ne guérit jamais de son enfance », refere no começo da « Toca »...


Embora o meu Pai tenha as anteriores edições, nomeadamente da Verbo, a minha edição d«  A Toca do Lobo », da INCM, reúne Fim, a Toca e Uma Noite na Toca. Por certo não passaria mesmo, e ele sabia-o - aliás termina com a detenção de Diogo pela policia secreta.

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