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Ana Palacio

por Nuno Castelo-Branco, em 19.05.13

Numa excelente entrevista concedida a Nuno Rogeiro, a antiga responsável pelos Negócios Estrangeiros de Espanha é uma mulher frontal, aceitando as realidades tal como elas são e sem os circunlóquios a que a mediania política nos tem amarrado. Seria extremamente benéfico vê-la um dia como Presidente do Conselho do país vizinho, pois saberemos com quem estamos a negociar. 

 

Uma significativa novidade, consistiu na opção pelo inglês para a série de perguntas e respostas. Estamos demasiadamente habituados a responsáveis políticos vizinhos - sejam eles camaradas do PSOE ou compañeros do PP - insistindo naquele displicente "ustedes entienden muy bien" que sempre soa a sobranceria. Palacio foi clara e de forma concisa inventariou os principais problemas que Espanha enfrenta:

 

1. A questão da organização autonómica do Estado, decorrente dos acordos celebrados durante o período da transição. Ana Palacio não hesitou em considerar caduco o sistema das autonomias e o entrave que representa à eficiência do mercado interno espanhol e à própria transparência da política. Disse o que havia para dizer quanto ao populismo do crédito fácil e das cedências perante as satrapias vigentes.

 

2. A inabalável confiança na Monarquia e no Rei João Carlos, alvos de concertados ataques por parte de sectores oportunistas que cavalgam a onda da crise. A imprensa marronzista espanhola, em nada difere daquilo que para cá da fronteira tão bem conhecemos e sofremos.

 

3. O claro reconhecimento de Portugal como mais um país entre outros. É raríssimo, senão inédito, escutarmos qualquer político espanhol falar do nosso país sem desde logo salientar o "caso especial", a "irmandade", a "diferença natural que separa Portugal das relações espanholas com os demais", ditos pouco espirituosos que por infalível e humilhante regra, são acompanhados por condescendentes palmadinhas nas costas. Palacio diz que as relações entre vizinhos são sempre complexas e no caso Portugal-Espanha, devem ser naturalmente encaradas como aquelas respeitantes ao convívio entre espanhóis e franceses, alemães e franceses, etc. Em suma, aquilo que os portugueses reivindicam há mais de oito séculos, é lapidarmente confirmado por esta mulher que beneficia de um aguçado sentido da realpolitik.

 

4. A posição de Espanha e de Portugal no mundo.

Este é sem dúvida o tema que mais nos interessa, até porque representa algumas dificuldades para a nossa política externa. Estando há muito sanados os complexos das "costas voltadas" - que Franco e Salazar, ao contrário daquilo que se diz, tentaram suavizar -, os dois países são hoje membros do mesmo espaço económico e da mesma aliança militar. Se é bem evidente a não pertença de Portugal ao espaço mediterrânico, o mesmo não poderemos dizer de Espanha, o vital flanco sudoeste da segurança europeia. Assim sendo, compreende-se o dilema secular de Espanha, cujos interesses de longo prazo se encontram naquele espaço atlântico onde viu decididamente dilatar-se a sua influência política, cultural e económica, e a permanente tentação de no plano do imediatismo, plenamente participar nas disputas daquilo a que um dia se convencionou chamar de continentalismo.

Qualquer mudança radical na ambivalente política externa espanhola, representa algumas dificuldades para Portugal, principalmente porque isto tem claras implicações no campo da Defesa, um tema tabu no nosso país. O esmorecer do interesse que as potências marítimas - ontem a Inglaterra, hoje os EUA - poderão ter na independência e segurança portuguesa, historicamente verificou-se sempre que Espanha se afastou dos assuntos continentais. Tal aconteceu no século XVIII - reinado de Fernando VI -, e já numa época bem próxima, quando Afonso XIII optou por uma aproximação aos britânicos. Também ainda temos bem presentes, aquelas imagens de subalternização de Portugal aquando da entrada espanhola na aliança que o presidente Bush delineou após os acontecimentos de 2001. Não existe qualquer possibilidade para pesadelos geoestratégicos ao estilo da fantasiosa Aliança Peninsular pugnada por Sardinha.

Qualquer  modificação muito substancial na dualidade da política externa do país vizinho, deverá ser encarada muito seriamente por quem governa Portugal.  Se, tal como diz Ana Palacio, portugueses e espanhóis são ontologicamente europeus, também ambos os povos "são atlânticos". Concordamos inteiramente com esta clarividente senhora e apenas acrescentaremos que tal como acontece em diversas situações, "uns são mais do que os outros". É este o ditado de mais de sete séculos de política externa portuguesa. 

publicado às 15:57


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