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"Súcialismo"

por Nuno Castelo-Branco, em 23.05.13

 

Às segundas, quartas e sextas, era a greve na distribuição de água. Às terças, quintas e sábados, cabia a vez da electricidade e por vezes, em simultâneo com a do gás. Tornaram-se rotineiros os duches de água fria pelo lombo abaixo. Em pouco mais de seis meses, Portugal conseguiu copiar os bons exemplos que vinham de leste, ou melhor ainda, filhou aquela dengoza incompetência a cheirar a cascas de bananas podres vindas da terra dos Castro. A propósito deste post do John Wolf, convém recordar alguns episódios de um passado que alguns teimam em querer fazer regressar.

 

Uma família onde existissem três filhos, era coisa própria de sortudos. Se os pais conseguissem uns trocos, um dos miúdos ia para a bicha do pão, o outro para a do leite e o terceiro para o "supermercado" Val do Rio, à espera de conseguir um quilo de batatas cobertas de terra, ou meia dúzia de ovos ainda com claros indícios de terem saído do orifício do galináceo.

 

Mesmo ao lado do prédio onde a família foi viver, existia uma pequena padaria. Os fins de semana eram dias de aprovisionamento com o que fosse mais acessível. O sábado tornava-se num dia santo para a compra de carcaças capazes de encher as barrigas desses três garotos que de qualquer forma, tinham de ser alimentados. Para um indescritível número de felizardos, o Quitute da Revolução foi o pão com pão, em momentos imprevistos barrado com margarina Planta. Invariavelmente era necessário esperar uma meia hora para conseguirmos chegar ao balcão, onde uma vendedora já histérica pela gritaria dentro e fora de portas, era de chofre confrontada com um pedido hoje simples, mas naquela época perigosamente escandaloso:

 

- Quero trinta carcaças!

 

- Trinta carcaças?!  Fo...-se!, além de virem para cá estes fascistas cheios de doenças roubar-nos as nossas casas e empregos, agora são açambarcadores!


Era infalível escutarmos latidos destes, aos quais respondíamos com um sorriso por vezes sobranceiro. Vindos dos impacientes que aguardavam a sua vez na rua, logo se ouviam alguns rosnares que jamais passaram disso. Se por milagre ainda existisse a almejada quantidade daquele ainda hoje detestável pãozinho borrachoso e cheio de vento, éramos mesmo servidos e da "pádeiria" saíamos, tendo ainda a oportunidade de deixarmos no ar um provocador dito espirituoso e claramente político. O efeito era imediato e momentos após, mais acima na segurança do quarto andar, o berreiro era audível, mutuamente se enviando para os respectivos aparelhos reprodutores maternais, os furibundos "progressistas" e  "reaccionários" de então.

 

Debruçados no parapeito da varanda e mortos de riso sob o abrasador sol do verão de 1975, era um deleite gozarmos o panorama. 

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publicado às 12:00


1 comentário

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De Perguntador a 23.05.2013 às 15:13

E o jojoratazana, também andaria nas bichas nessa altura ou será que o PCP tinha circuitos próprios de abastecimento dos seus dirigentes com produtos vindos directamente da Reforma Agrária?

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