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Moçambique: ma'bandidos

por Nuno Castelo-Branco, em 31.05.13

 

Um postal escrito em 6 de Abril de 1975 e enviado dentro de um envelope para Lisboa. Em Lourenço Marques a situação era péssima, ainda estando em exercício a administração conjunta do Governo de Transição Crespo/Chissano. Todo o tipo de tropelias e abusos foram permitidos, ao mesmo tempo que o sr. Machel vociferava enormidades discurso após discurso, incendiando os ânimos e provocando a debandada dos brancos, desta vez acompanhados por indianos, indo-portugueses, mestiços e até de negros que se sentiam ameaçados pelas arengas do arrivista. Naqueles escassos meses anteriores à data aprazada para o arriar da bandeira portuguesa, tornou-se inevitável a guerra civil que durante duas décadas esmagaria o país.

A minha avó passou por todos os processos vexatórios e de roubo legalizado, perdendo a sua casa na Namaacha. "Tens duas? Perdes uma!" O pior é que apesar das promessas e garantias, o seu pequeno apartamento em Lourenço Marques, situado na COOP, acabaria por permanecer longos anos perdido numa teia de (i)legalidades. Nunca mais se ouviu falar no caso. As autoridades transformadas em autênticos ma'bandidos, acharam por bem confiscar a sua mobília de quarto, assim como os electrodomésticos e a maior parte das roupas de cama, louças, etc. Ofendida mas orgulhosa, limitou-se a proferir um "bom proveito!", virando as costas aos facas de mato que o MFA de Lisboa ali colocara para o arrolamento de bens. Grandes negócios devem eles ter feito com os  seus ex-colegas de tiroteios no Rovuma, agora amigos dilectos.

 

Aqui está um postal em estilo telegráfico, como era seu hábito:

 

"Meus queridos filhos e nétinhos.

Recebi carta, breve escreverei com mais vagar. Bagagem, assunto arrumado. Muito cansada, muitos aborrecimentos (1). Família (2) toda engripada. Pouco descanso. Bichas para tudo (3). Passo o dia na rua, quantas mais voltas dou, mais voltas aparecem para dar (4), são como cogumelos. Já marquei passagem para 9 de Maio. Ainda não tem O.K. Saudades para todos Beijos da mãe e avó muito amiga, Irlanda."

 

Devido às vicissitudes do processo de "exílio", teria de adiar a sua vinda para Portugal até 1976. Um dos problemas era a falta de habitação, pois em 1974-75 vivíamos os cinco numa pequena roulotte no parque de campismo de Monsanto, um incómodo que se tornou numa vantagem, afastando-nos da balbúrdia de Lisboa. Em 1976 já estávamos instalados num apartamento - logo aprendemos a esquecer o termo flat - no Campo Grande e então a avó pôde finalmente embarcar num avião da TAP. One way ticket

 

O postal escolhido foi o da Igreja de Santo António da Polana, onde todos os seus netos - exceptuando o mais velho, eu próprio, cristianizado na Catedral - tinham sido baptizados. Dois deles, eu e o meu irmão, tínhamos durante anos pertencido ao Grupo Coral. Era para nós uma mensagem bastante simbólica, relembrando um passado não muito distante.

 

A avó jamais regressou à terra onde nascera em 15 de Setembro de 1916 e onde viveu até 1976. Faleceu em Cascais, a 30 de Dezembro de 2010.

 

(1) Avalanche burocrática, taxas, emolumentos, papelada selada, impostos, confisco de bens, etc.

(2) A minha bisavó, as suas irmãs e irmãos doentes, devido a um surto gripal. A minha avó enviuvou em Junho de 1974 e meses depois os previdentes filhos partiram para Lisboa. Bem cientes daquilo que se preparava, foram atempadamente avisados pelos dirigentes do Centro Ismaelita Aga Khan. Ela preferiu aguardar uns meses mais, tratando dos papéis e instando para que a mãe e irmãos também partissem. Conseguiu-o.

(3) Penúria generalizada de bens de primeira necessidade, medicamentos, etc. A até então eficiente e metódica administração portuguesa, foi forçada a ruir como um castelo de cartas.

(4) As famosas listas, os requerimentos, certificados, assinaturas reconhecidas, as taxas, impostos, fiscalizações e confiscos. Portugal ainda era a potência soberana.

A minha avó e o meu pai, em Agosto de 1939 (Lourenço Marques, Moçambique). Dias depois, o sr. Hitler dava início à sua guerra contra a Polónia.

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publicado às 15:00


4 comentários

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De Anónimo a 31.05.2013 às 20:38

Que linda imagem de Moçambique. E que paz se pressente, nesses tempos, através dela. Se eu fosse pessoa de rogar pragas, por exemplo se fosse algarvia, o que não sou nem uma coisa nem outra (dizem amigos nossos que os algarvios quando o fazem elas acontecem...), rogava uma praga a todos aqueles que estão na origem da destruição do Ultramar português, para que ardessem no inferno para todo o sempre. Mas não vale a pena. Os que já partiram sofreram o que Deus assim entendeu.  Quanto aos restantes culpados, que ainda por aí se arrastam mais mortos do que vivos, que ninguém duvide, serão atormentados (não por remorsos, que gente maligna desconhece este nobre sentimento) mas por pesadelos horrendos até ao fim dos seus dias. 

-------
Nuno, relativamente ao seu post mais abaixo, onde fala de políticos e militares que praticaram actos horrendos após 75, em Lourenço Marques, mas cujos nomes acha por bem não mencionar por estarem ainda vivos, não concordo em absoluto. É justamente por ainda os termos por cá que os seus nomes e apelidos devem ficar bem impressos em letra de forma. O que eles mais desejam é passar despercebidos, querem ver se ninguém se recorda do mal que fizeram. Que todos os seus nomes fiquem registados preto no branco, através dos inúmeros testemunhos presenciais, para que os vindouros tomem total conhecimento de quem, neste trágico período da nossa História,  traiu vilmente a Pátria Portuguesa e quem esteve na origem do genocídio de milhões de seres humanos  inocentes e indefesos.
Maria
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De Duarte Meira a 31.05.2013 às 22:05


Nuno Castelo Branco:

É uma muito bonita e viva maneira de contar a História portuguesa, o que vem fazendo com trazer-nos estas memórias familiares da terra lusíada de Moçambique. E a melhor historiografia contemporânea conhece bem a preciosidade de testemunhos como estes. Neste caso, o testemunho histórico dobra-se com o valor moral, porque não custa imaginar quanto estas lembranças lhe são tão queridas como dolorosas.
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De Nuno Castelo-Branco a 01.06.2013 às 08:53

Maria M. e Duarte Meira, não se trata de qualquer desejo de vingança. 


Esta gente tem-nos submetido a todo o tipo de pedidos de perdão reparadores de males de outros séculos  - inquisição, judeus, mouros, escravatura, etc - , esquecendo aqueles cometidos pelos próprios, por vivos que arrogantemente ainda ditam a lei. 


Está a aproximar-se o momento em que o regime, através do Parlamento, deve obrigatoriamente pedir desculpas aos portugueses por tudo aquilo que sucedeu no Ultramar. As Forças Armadas devem ser a primeira instituição a fazê-lo, disso não tenho a mais pequena dúvida. Até lá, não as respeito. As F.A. cometeram demsiados erros: 1908, 1910, 1916 e por aí fora. Tudo têm permitido, quando não participam directamente nos desastres.


 Comportaram-se bem durante a guerra, há que vincar este facto.


 Abstendo-se de colocarem o interesse nacional acima da reles política, as F.A. colaboram. É melhor ficarmos por aqui. 
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De Anónimo a 01.06.2013 às 20:51

Nem mais nem ontem! 
E sim, perante o vil concluio entre o MFA e a desprezível e traidora politicagem da altura, concordo com o Nuno. De facto é melhor ficar por  aqui.
Maria

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