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A Europa dos ziguezagues

por João Pinto Bastos, em 29.05.13

A prosopopeia europeia está a atingir, por estes dias, o paroxismo da insanidade mental. José Manuel Barroso - retirem o Durão, caros leitores, porque de durão só mesmo o nome - já veio avisar os gauleses de que o adiamento das metas fixadas relativamente ao défice pressuporá o rigoroso cumprimento das reformas estruturais acordadas. Adivinhem, pois, a resposta francesa a este ultimato delicodoce? A réplica francesa, sob a voz do messias Hollande, foi um rotundo não. Sim, um não bem agudo. Por outras palavras, em solo francês mandam os franceses, assim sem mas nem aspas. A Comissão só deve imiscuir-se nos assuntos internos dos PIIGS e, vá, dos restantes países europeus, com a excepção, infeliz do ponto de vista francês, dos alemães chefiados por Frau Merkel. Ou seja, a Europa existe para validar os desejos dos países-membros mais poderosos. No fundo, nada disto causa a menor surpresa. Sempre foi assim e sempre será assim, enquanto não houver um sobressalto das nações europeias asfixiadas pelo barrete bruxelense. Eduardo Lourenço, um dos poucos intelectuais deste Portugal portugalinho que ainda vale a pena ler e ouvir,  dizia há dias que não há uma ideia europeia. Pois bem, a questão foi mal formulada. O que Eduardo Lourenço deveria ter feito era questionar se alguma vez existiu um arremedo dessa pseudo-ideia europeia? A resposta parece-me claramente negativa. Como escreveu Jaime Nogueira Pinto neste pequeno artigo, a "essência e a força da Europa foi a unidade na diversidade, uma cultura e um espírito idênticos em comunidades políticas bem definidas, independentes e competitivas entre si. E foi a resistência dos Estados-nações europeus às tentativas imperiais de Carlos V, de Napoleão, de Hitler, foi essa resistência ao Império, à unidade imposta por um centro que fez a força das nações europeias. No passado, foi pela competição militar, política, na Ciência e na Técnica e até na memória dessa rivalidade na Literatura e na Arte, que chegaram onde então chegaram". O conceito de Europa tem servido de máscara às mais vis elucubrações. Talvez seja este o grande pecadilho das elites que têm prosperado à sombra de uma ideia que, em bom rigor, nunca existiu. A Europa da União forçada findou. Falta apenas a celebração das respectivas exéquias. 

publicado às 23:51


6 comentários

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De Francisco P. Lacerda a 30.05.2013 às 02:22

Caro João Pinto Bastos, além de a expressão "prosopopeia europeia" ser, em termos de sonoridade, uma escolha muito infeliz, "prosopopeia" não significa, como parece crer, "discurso" ou "palavreado", mas o acto de atribuir fala a seres tipicamente inanimados. A menos que estivesse a fazer uma piada, também ela infeliz, acerca do estado inanimado de alguns políticos europeus, seria talvez importante que a sua opinião fulgurante não fosse travada por tão grosseiro erro. Fica o reparo.
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De Equipa SAPO a 30.05.2013 às 18:22

Boa tarde,

O seu post está em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

Atenciosamente,

Catarina Osório
Gestão de Conteúdos e Redes Sociais - portal SAPO
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De John Wolf a 30.05.2013 às 19:18

Bravo, João!
Pelo texto e a melodia que dele emana. Acho que o post nada tem a ver com felicidade ou infelicidade, mas será sem dúvida um excelente exemplo de "prosa de uma epopeia falhada" (foi o melhor que consegui na desmontagem de "prosopopeia"...para fins diversos).
Um abraço,
John
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De João Pinto Bastos a 30.05.2013 às 19:31

Obrigado, John. :) Caro Francisco P. Lacerda, fico grato pelo seu reparo, porém, gostaria de fazer uma pequena correcção ao seu comentário. É certo que prosopopeia tem o significado que indicou, todavia, o termo em questão abarca, igualmente, outros significados, tais como, "discurso ou prosa afectada", ou, "discurso empolado" - veja, entre outros, o nem sempre fiável Priberam. Foi com este significado em mente que escrevi o termo supra citado. Creio que estamos esclarecidos. Um abraço.
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De Francisco P. Lacerda a 31.05.2013 às 13:44

Caro João Pinto Bastos, a palavra-chave é, precisamente, "fiável". A fiabilidade de muitos dicionários é discutível e, em muitos casos, é preciso pensar um bocado para perceber se faz sentido ou não que uma palavra tenha um determinado significado. Há exemplos de palavras que, por força dos meios de comunicação, por usos indevidos e modas, por contágio de outras línguas, adquirem significados que, a longo prazo, levam a que possam querer dizer coisas completamente diferentes.

Os exemplos mais fáceis de dar são os que provêm de anglicismos, como o verbo "realizar", que muita gente usa já para designar "perceber". Poderia dar muitos outros, mas penso que não valha a pena.

Outro fenómeno engraçado é o oposto, tendo ficado celebrizado na expressão de George W. Bush que, traduzida para português, deu "armas de destruição maciça". O problema desta expressão estava no adjectivo "massive", que não tem propriamente correlato em português. Os mais puristas não quiseram introduzir o adjectivo "massivo" na língua, mas também não quiseram ficar com a expressão "destruição em massa". Por força dessas circunstâncias, pegaram no adjectivo "maciço", que significa pura e simplesmente "sólido", "espesso", "compacto", e deram-lhe uma nova acepção, precisamente "em massa". A expressão é errada, não significa o que querem que signifique, mas ficou consagrada, e vem, aliás, registada em vários dicionários, entre eles o Priberam. Este é apenas um de muitos exemplos de palavras ou expressões que os dicionários consagram e que, francamente, ou são erradas ou resultam de usos errados.

Posso ainda dar-lhe um último exemplo, pois é tão contemporâneo que não resisto: hoje em dia, quando se fala em esforço, seja ele de que tipo for, fala-se em "empenhamento". O uso desta palavra, uma vez mais, é não só escusado (o que queriam dizer eram empenho, que é uma palavra bem mais agradável ao ouvido e com menos sílabas) como é errado, pois "empenhamento" designa o acto de "empenhar" qualquer coisa, não o acto de "empenhar-se" em algo.

Voltando à prosopopeia. A palavra tem um significado técnico muitíssimo preciso; é uma figura de retórica, não a própria retórica. O que acontece é que, por metonímia (ou por sinédoque), se passou a aceitar que uma figura de retórica específica, com características específicas, passasse a significar pura e simplesmente "retórica". O sentido figurado de que fala e que os dicionários atestam não é mais do que o resultado da substituição metonímica do significado de uma figura de retórica pelo significado do conjunto de figuras de retórica. Isto é, quando se diz que "prosopopeia" pode significar "discurso empolado", o que se está, no fundo, a dizer é que a palavra "prosopopeia" pode ser utilizada em vez da palavra "retórica".

Evidentemente, uma das principais razões da evolução de qualquer língua é este tipo de mutações, quer sejam metonímicas, quer sejam metafóricas. O problema é que isso não deve ser feito nem por estipulação nem arbitrariamente. E, sobretudo, deve corresponder a um princípio de sensatez. Dizer que "prosopopeia", que tem dentro do conjunto das figuras de retórica um sentido técnico preciso, características precisas, e uma função precisa, pode passar a significar indiscriminadamente todo o conjunto de figuras de retórica seria o mesmo que dizer que "andebol", que tem dentro do conjunto dos desportos características específicas, podia passar a significar indiscriminadamente todo o conjunto de desportos. Poeticamente, até me parece tolerável a liberdade destes saltos metonímicos. Mas num discurso que se quer claro, num discurso argumentativo ou expositivo, parece-lhe sensato dizer, por exemplo, que "fazer andebol faz bem à saúde", em vez de dizer "fazer desporto faz bem à saúde"? Dizer "prosopopeia europeia" é o mesmo que dizer que, num hiper-mercado, as canas de pesca se encontram não na secção de desporto, mas na secção de andebol. Tal como qualquer funcionário que arrume canas de pesca na secção de andebol é naturalmente repreendido, merece repreensão quem use a palavra "prosopopeia" querendo dizer "retórica". E nenhum dicionário, por maior reputação que tenha, tem legitimidade para refutar a sensatez disto.

Outro abraço!
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De Fábio Ribeiro a 31.05.2013 às 08:39

A ideia de União Européia como livre circulação de pessoas, conhecimentos e mercadorias foi uma boa ideia, mas a criação da moeda única, o Euro, foi um erro gravissímo que esta levando a destruição dos gigantescos beneficios que foram gerados com a criação da UE.

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