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Dancing na Rua Araújo dos anos 60 (pintura de Ana Maria Plácido Castelo Branco ©)
Bem a propósito deste esclarecedor post do António Botelho de Melo - o nosso campeão Tomané que representou Portugal nas Olimpíadas de Los Angeles -, recordo uma já razoavelmente esfumada lembrança da frescalhota Rua Araújo. Um dos mais conhecidos locais da Lourenço Marques do "ouvi dizer", a sua evocação servia sempre para como um ferrete marcar alguém, ou franzindo o nariz, comentar outrem. Um "vê lá se estudas ou ainda vais parar à Rua Araújo!" era a supra rasca ameaça atirada às preguiçosas filhas, por alguns pais muito maguérres. Demasiadas vezes, uns tantos fulanos protegidos por Ray Ban, comodamente se instalavam à volta de uma mesa da esplanada do Continental, languçando as bifas (1) que em microscópicos hot pants desfilavam sorvendo Coca-Colas por uma palhinha. O que mínimo rosnariam, seria um "ena pá, daquilo nem na Rua Araújo s'arranja"...
Obedecendo ao compasso das gerações que correram acompanhadas pelas respectivas épocas de sucessos ou desastres políticos e sociais, a Rua Araújo, estrategicamente colocada nas proximidades do porto e da gare de caminhos de ferro, era o centro nevrálgico dos prazeres reservados aos homens da cidade e à multidão de forasteiros que ali tencionando demorar-se pouco tempo, provisoriamente se fixaram até à sua partida para o há muito previsto Além.
Ainda garoto de palmo e meio, lembro-me daqueles fins de tarde e do calor húmido que obrigava o escancarar da entrada dos estabelecimentos e também, como seria bastante previsível, o vai-vem das meias-portas de tabuinhas ao estilo do far-west, timidamente ocultando os antros de perdição que afinal davam cor, ruído e diversidade àquela que por si, já era uma cidade nada monótona. Brancas, pretas e mulatas entravam e saíam dos bares, timidamente acompanhadas por algum distraído cavalheiro que jamais as suporia prestimosas mesteirais de assuntos de zona média. Os tratos intelectuais seriam discutidos numa qualquer pensão não muito distante, ou segundo constava, no abafo de uma viatura habilidosamente camuflada na zona das praias da Costa do Sol. Tornou-se também exageradamente frequente, a visão dos turistas sul-africanos que apenas passada a fronteira em Ressano Garcia, logo esqueciam o ignóbil apartheid, enroscando-se na mulher mais coloured que encontrassem. Portuguesas de 1ª ou de 2ª, essas eram sempre a derradeira, quando não desanimada escolha. Seguindo-lhes generosamente o exemplo, algumas bifas varriam as praias à procura de pescadores negros que regressavam da faina, logo ali mesmo instando ao início de outra.
Durante o período de entre-as-guerras, as casas de lanterna vermelha da capital moçambicana tinham sido ocupadas por italianas, russas, austríacas em sentido lato (2), alemãs, polacas, algumas sul-africanas, umas tantas espanholas de fala esquisita, "achi misjemo", e suprema finesse, por francesas que definiam a profissão através do peremptório mencionar da nacionalidade. Uma francesa era isso mesmo, a Madame que assim reconhecidamente titulada, obrigava a todos os mal-entendidos daquele mundo em rápida mudança. Algumas destas requintadas femmes de guerre, conseguiriam casamentos com embevecidos lusos provenientes de áreas bem próximas dos pináculos da sociedade local.
Na Rua Araújo (pintura de Ana Maria Plácido Castelo Branco ©)
Nos anos 60, a chegada dos contingentes militares desembarcados da Metrópole trouxe algumas novidades na frequência, tornando-se comuns os uniformes dos três ramos das Forças Armadas e tão certo como o material russo e chinês prodigamente distribuído à Frelimo pelos seus mentores, era o gastar dos prés com as tombazanas locais. Uma tarde, regressando a casa no machimbombo tomado nas imediações da Praça Mac-Mahon, verifiquei estar a minha mãe atenta a um mais que provável efémero casal que diante de nós tinha tomado assento. Ela ia-se enrolando no magala e este, aflito no seu fazer de conta de invisível, parecia petrificado pelo espectáculo a que voluntariamente se dispusera. Não havia um único par de olhos que não estivesse voltado para a cena que vertiginosamente se ia desenvolvendo, até que num repente capaz de fazer cair a mais formidável barreira de vergonha, a hiper-vuluptosa marafona lhe garantiu em alto e bom som:
- "Si tu mi pagas uma Pempsi, eu ti dô uma bêija néssá bôcá!"
Várias vezes palmilhei a Rua Araújo. Via a minha mãe espreitar os ruidosos locais de diversão onde brilhavam maravilhosos neons dentro e fora de portas, para logo depois riscar alguns apontamentos no seu inseparável bloco. As canetas de feltro trabalhavam de forma quase autónoma, numa muito apressada decisão de um não te esqueças, aquela é assim e veste-se assado.
Tudo isto acabou, varrido pelos seráficos princípios do Homem Novo parido pelo Moisés, imperscrutável e sacrossanto entezinho capaz de todas as bendições a aplicar ao páchiça do lado. A Rua Araújo foi fatalmente silenciada e substituída por uma tremenda infinidade de hoteleiros Quartos Araújos, bem mais caros, exclusivistas e totalitariamente à mercê de uns poucos moralistas.
(1) Bifas: genericamente as sul-africanas, fossem elas as mais elegantes de origem inglesa, ou alguns portentosos e rosados coirões, por regra retintamente boers.
(2) Austríacas, ou seja, mulheres provenientes de todos os confins do império austro-húngaro, como as "grandes alemãs", checas, galicianas, rutenas, judias transilvanas, croatas, eslovacas, húngaras, eslovenas, etc.