Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Quem quer ser professor?

por John Wolf, em 15.06.13

A pergunta é simples: quem quer ser professor por um dia que seja? Quem deseja acartar injustamente com os pecados e os défices dos outros? - A educação que não foi dada aos alunos pelos papás e pelas mamãs. A má criação que escoa directamente da sarjeta para a sala de aula. Quem quer trabalhar de acordo com modelos que não se adequam ao perfil cultural do país? Como podem constatar, tinha colocado uma pergunta que afinal se desdobra em muitas sem resposta. Desde que eu me lembre, os professores tiveram sempre mobilidade e não era pouca. Era imensa, de norte a sul do país. Quem não conhece o professor de Trás-os-Montes colocado no Algarve? Aqueles que tiveram de abandonar as suas famílias e prescindir de uma ideia de continuidade na residência, o sonho de viver na terra de origem. A profissão foi quase sempre malentendida pelos governantes de Portugal. Houve até quem a quisesse canonizar elevando a missão educativa a acto de fé, a bandeira de partido. Lembram-se de Guterres e a sua paixão? E houve outros como Roberto Carneiro que foram também cardeais da causa. Estou certo que mesmo que pagassem uma tarifa tripla a prospectivos docentes, não seria líquido que aceitassem o emprego. Por vezes não há dinheiro que chegue para pagar os ultrajes. Conseguem imaginar leccionar na franja da sociedade uma qualquer disciplina do programa curricular, quando no fundo estão a operar a múltiplos níveis que deveriam ser tratados por psícólogos, técnicos de reinserção social e polícias? Os professores levam para casa tantas horas extraordinárias que deixaram de ser horas, considerações de ordem pedagógica, trabalhos de casa, e, para além dessa normalidade, são obrigados a sacar da sua consciência para levar a bom porto uma barca tempestiva repleta de repetentes de um sistema caduco. Não existe repelente que consiga afastar dos professores os pesadelos, o stress, a insónia antecipada pela semana que se segue. A outra questão que coloco: quem quer ser manifestante por um dia apenas? Quem deve caminhar ao lado dos professores, se grita em nome dos docentes e de Portugal? Vou directo ao assunto. Se António José Seguro sente o mesmo ardor no peito que Guterres sentiu, então deve estar nas ruas, lado a lado com aqueles que alegadamente foram intimidados pelo governo, mas o lider socialista, se não está em Roma com o Papa, está noutro encontro ecuménico. No meio destes confrontos e da greve aos exames nacionais que se avizinha, os alunos irão agravar ainda mais a sua débil condição de aprendizagem. Na Segunda-feira provavelmente irão regredir na sua capacidade de expressão em língua portuguesa, a que se seguirão mais murros nas restantes disciplinas. Resta saber se os milhares de alunos devem ser tidos enquanto moeda de troca, ou se chegará o dia em que os próprios alunos se manifestam, para rejeitar de uma assentada, e em simultâneo, os políticos e os professores. A linha ténue que separa a sustentabilidade cognitiva e pedagógica do país, do perfeito caos, está a ser pisada. Qualquer dia para haver alunos nas salas de aulas teremos de ter uma requisição estudantil. Repito a pergunta: quem quer ser presidente do conselho directivo? Quem quer ser presidente? Quem quer Portugal?

publicado às 21:06


25 comentários

Sem imagem de perfil

De Duarte Meira a 15.06.2013 às 22:36

Caro John:

As primeiras linhas do seu texto tocam o nervo do assunto: enquanto não forem repostos uns mínimos de ordem e de autoridade nas escolas e salas de aula, nada feito. Mas, como é que tal seria possível ,se não não há Ordem nas famílias, na sociedade, no Estado?...

No estado de caos em que estamos (não só em Portugal, quanto ao ensino público), era hora de repensar as questões de princípio, como esta: - se o Estado deve continuar a assumir-se como protagonista educador dos cidadãos, ou se não deve antes cuidar apenas da instrução técnica e formação cívica dos seus funcionários públicos ?
Sem imagem de perfil

De Ana Lourenço a 15.06.2013 às 22:57

Pessoalmente considero uma análise verdadeiramente livre e despojada de preconceitos. Como professora agradeço-lhe.
Infelizmente por cada John Wolf  temos 20 repelentes MS Tavares.
Imagem de perfil

De John Wolf a 15.06.2013 às 23:04

Boa noite Ana Lourenço,
Obrigado pelas suas palavras. Sei do drama - tenho amigos professores que me relatam na primeira pessoa o quão grave é a  situação, como bem sabe.
Um bom serão.
Cordialmente,
John
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 15.06.2013 às 23:16

Também há bons e maus professores, infelizmente os primeiros são cada vez em menor número e por isso fácilmente identificáveis. Os segundos são aqueles que procuram seguir o 'curso do rio sem sair do leito' que o Estado lhes proporciona.
Devia ser professor aquele que tem vocação pedagógica e não aquele que se acomoda ao emprego fácil com férias prolongadas.
Sem imagem de perfil

De Ana Lourenço a 15.06.2013 às 23:37

Caro anónimo, posso garantir-lhe que não posso ter férias prolongadas nem em época baixa ou média. Nas interrupções letivas dos alunos e depois das avaliações a secretária em casa está sempre "recheada" de trabalho. No mês de agosto sou também uma filha de Deus e descomprimo. E há dias em que mal tenho tempo para comer qualquer coisa a meio da manhã ou sequer de ir à casa de banho. Vida fácil não há neste ramo... nem para os bons nem para os menos bons. Acredite.
Sem imagem de perfil

De Rui Sousa a 16.06.2013 às 12:31

Aí é que está a questão: Portugal é o país europeu que mais maltrata os professores. Não estou a falar nas questões salariais, de horários de trabalho, nada disso. Enquanto pai, assisti a reuniões entre docentes e os pais das crianças que me horrorizaram. Cheguei a ver professores insultados à porta da escola, com os pneus do carro furados ou com as janelas partidas só porque o docente escreveu na pauta de avaliação que o menino perturbava as aulas.
Quanto à mobilidade dos professores: este ano lectivo a professora de matemática de um dos meus filhos era de Viana do Castelo. Veio para Almada dar aulas. O ano passado esteve em Coimbra a substituir uma professora operada. Quem é que consegue estabilidade pessoal e profissional com estas andanças?
O horário de trabalho: a proposta do ministro para os docentes é ridícula - até porque os professores já fazem essas horas a mais. Muitos, para além das horas de aulas, têm os assuntos das direcções de turmas, o atendimento aos pais, a direcção dos departamentos. Para não falar da preparação diária das aulas, da renovação dos conhecimentos, da mudança constante dos programas de algumas disciplinas (veja-se o caso do Português e Matemática, em que cada novo ministro introduz as alterações que quer). 
Sem imagem de perfil

De Cristina SC a 17.06.2013 às 20:44

Sou professora há trinta e cinco anos e, assim, já encontrei um pouco de tudo. Bons e menos bons alunos, pais, pares na profissão ou outros colaboradores, diretores, ministros... 
Não é fácil resistir a tantas mudanças que foram operadas; algumas necessárias ao funcionamento ou, sobretudo, à natural evolução da sociedade. Outras - na maioria das vezes - apenas porque cada dirigente quer deixar marca. Tudo isso teve custos, também financeiros, mas sobretudo nos resultados e na estabilidade do sistema.
A classe dos professores é maltratada e raramente recebe o reconhecimento que Rui Sousa aqui manifesta. E também não estamos habituados à clarividência que John Wolf aqui expressa. Nas perdas salariais somos "apenas" funcionários públicos. Mas o que nos dói é ver destruídas, progressivamente, as condições que nos permitam exercer com dignidade a função, defender com empenho a missão e manter a escolha que fizemos por vocação.
Grata.
Sem imagem de perfil

De Ana Isabe a 16.06.2013 às 16:10


Concordo plenamente com o Rui Sousa.
Imagem de perfil

De Sofia de Landerset a 17.06.2013 às 09:50

Como mãe de 5 crianças que tiveram a felicidade de conhecer professores excelentes ao longo do seu percurso, fica aqui uma palavra de agradecimento e reconhecimento aos professores.
Muitas vezes desejei que se esfumassem os sindicatos e os ministérios, que desaparecessem o 'poder' e a política da equação, e que ficassem apenas alunos e professores, a aprender e a ensinar, que era o único objectivo daquela coisa chamada escola, antes de a terem transformado num campo de batalha.
Os pais, na sua esmagadora maioria, fazem o melhor que podem, tantas vezes entalados entre as preocupações do dia-a-dia, cada vez mais assustador, e as crianças que crescem e se transformam em jovens nem sempre dóceis, nem sempre fáceis de orientar, e muitas vezes surdos - e mudos - anos a fio. E por experiência própria posso afirmar que alguns nem sequer são permeáveis a castigos ou recompensas, tanto em casa como na escola.
O meu filho mais novo quer ser professor de matemática. Já tentei convencê-lo a ser trapezista de circo, que era mais fácil. Mas lá está, o miúdo não quer ouvir.
Imagem de perfil

De JPA a 17.06.2013 às 17:29

Apesar de concordar com tudo o que foi dito, acho que é necessário referir que sim, que há muitas pessoas que querem ser professores. Há muitas pessoas com a paixão de ensinar, com a paixão de pôr algum conhecimento na mente de jovens. E chamo-lhe paixão porque é para isso que eles vivem, os professores. Vivem para os seus alunos.
E este governo (e outros governos passados também) tem retirado esta paixão aos nossos docentes, ao implementarem medidas que, por um lado, retiram a componente pessoal ao ensino (não permitindo um acompanhamento por parte dos professores a cada caso concreto) e, por outro lado, eliminam todos os benefícios, justos, de formar o futuro do nosso país.
Imagem de perfil

De Equipa SAPO a 17.06.2013 às 19:29

Boa tarde,

O seu post está em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

Atenciosamente,

Catarina Osório
Gestão de Conteúdos e Redes Sociais - portal SAPO
Imagem de perfil

De John Wolf a 17.06.2013 às 20:12

Muito obrigado, Cara Catarina Osório!
Cordialmente,
John 
Sem imagem de perfil

De Cristina SC a 17.06.2013 às 20:48

Merecido destaque do «Estado Sentido» e do autor John Wolf.

Felicito o autor e a esquipa, mas também a equipa do Sapo, através de Catarina Osório, pela oportunidade deste destaque.
Imagem de perfil

De John Wolf a 17.06.2013 às 20:55

Obrigado Cristina,
Pelas palavras de estima e pela simpatia.
Cordialmente,
JW
Image
Sem imagem de perfil

De Patrícia a 17.06.2013 às 22:15

Sou Professora! Porque amo! Com entrega! Com Alma! Foi para isto que nasci. Por mim, podem cortar de vez com a "educação oriunda da política". Há belíssimos professores, pessoas verdadeiramente capazes de pensar e concretizar um sistema educativo que não mude a cada eleição. Um sistema sustentado e credível, ainda assim flexível, ousado e inovador. Com bases sólidas, onde professores, alunos, pais e restante comunidade educativa possam crescer lado a lado... sem guerras! Sem greves! Sem pressões! Porque a incapacidade que os pais sentem ao lidar com os filhos, dadas as circunstâncias sociais que se têm vindo a degradar, é transportada para a escola, dia após dia. 
Quero famílias (sejam elas como forem) com raízes fortes, empregos estáveis, com força de caráter para darem aos seus filhos mais do que o melhor (muitas já dão o melhor que podem!). Quero ver as famílias tirarem meia hora por dia para serem felizes, todos juntos... e isso sim, impregnar-se na escola! Juntamente com os laços estreitos de cooperação e cumplicidade que se formam e darem conta dos desafios que os miúdos (e os graúdos) atravessam na vida. Uma sociedade com raízes, torna-se culta! Torna a escola naquilo que é verdadeiramente - um lugar de partilha de saberes, de crescimento, de romper fronteiras de conhecimento... Todos juntos!
Tirem a escola da política. Ousem! 
Imagem de perfil

De John Wolf a 17.06.2013 às 22:18

Obrigado, Cara Patrícia, pelo depoimento que revela o sentido de missão que transcende o resto.


A sua frase importantíssima:


"...cortar de vez com a "educação oriunda da política"



Cordialmente,


John
Sem imagem de perfil

De Patrícia a 17.06.2013 às 22:21

É o meu sonho! É naquilo em que acredito. E apesar tudo o que rodeia a educação, é o que construo "na minha escola", mesmo tendo de respeitar e cumprir o que vem "de cima".


Parabéns pelo artigo!

Comentar post


Pág. 1/2







Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas