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Merkel deve estar satisfeita

por Nuno Castelo-Branco, em 25.06.13

 

Nous te voulons!

A Chanceler deixou de ser o alvo na carreira de tiro dos desesperados. Se em Portugal temos o sempre sintomático Mário Soares a assestar baterias contra Barroso, isso apenas consiste num reflexo do que se passa na sua "pátria de eleição", a França. Para onde quer que olhemos, o resultado da acção de Hollande não é de molde a agradar até aos seus mais ferrenhos aliados. Politicamente, o ocaso francês é patente, avassalador, confirmando plenamente aquilo que há muito se sabia e que Sarkozy procurava disfarçar. Em termos internos, o descalabro é total, desde as questões de segurança interna, até à catástrofe financeira que a maioria dos europeus prefere ignorar, tal é o pavor por aquilo que poderá acontecer. 

 

Há um quarto de século, Mitterrand escancarou as portas da Assembleia Nacional a uma enxurrada de deputados da Frente Nacional de Le Pen. Justamente argumentava com um sistema eleitoral mais consentâneo com a realidade da vontade dos franceses, pois o artifício das duas voltas roçava a farsa, sendo esta deliberadamente assumida pelos defensores do status quo. Num só golpe julgava poder dividir a chamada "direita clássica", não contando com a fuga maciça de comunistas para as hostes da FN. Mitterrand esqueceu-se das suas próprias origens, esqueceu-se de Jacques Doriot e de um passado não muito distante. Mais tarde, o aflito regresso ao velho sistema de eleição, o tal "dique republicano", pressupôs a distorção da representação, daí o estupor de numerosos eleitores que a par da crise económica e financeira, da crise de identidade - em França, Mohamed é hoje o nome mais comum no registo de recém-nascidos - e da cegueira daquilo que se convencionou ser o "politicamente correcto", inauguraria um irreversível caminho para a desordem e subversão do estado de coisas até hoje julgado eterno. Embora esta pareça ser uma hipótese ainda distante, há que considerar  a futura presença de uma enorme representação da FN no parlamento francês, pois o sistema eleitoral que lhe tem impedido o acesso aos lugares conquistados pelo voto, poderá muito bem servir para um dia lhe garantir uma maioria. A questão será adivinhar até quando funcionará o voto útil. 

 

Apesar de todo o seu manobrismo e fácil adaptação às situações que mais lhe convêm, Barroso foi e é útil a Portugal, disso não haja qualquer tipo de dúvida. O actual regime fez a sua escolha e pendeu fortemente para o continentalismo europeu, em detrimento daquilo que seria mais desejável e que agora a todos salta à vista. É Barroso o homem dos americanos? Muito provavelmente assim é, e a sua nomeação para a Comissão Europeia a isso se terá devido. Mas não será este equilíbrio entre Europa e América, aquele que mais interessa à segurança europeia? Há legados que são incontornáveis, pois Barroso provém de um país inegavelmente atlantista e historicamente aliado da potência marítima dominante. Neste posicionamento Barroso não estará só, apesar de todas as reticências que os deputados britânicos lhe colocam devido à sua condição de cabeça da Comissão. Quanto ao "mundialismo e a globalização", Barroso nada mais faz, senão confirmar aquilo que a esquerda europeia durante tantas décadas pregou. Um mundo idílico e de iguais, exigia essa quebra de barreiras comerciais de que a Europa era talvez o expoente máximo. Durante demasiado tempo escutámos a nossa esquerda ditar sentenças acerca da situação de chineses, indianos, africanos e de uma infinidade de povos submetidos à exploração que a nossa PAC e as pautas aduaneiras impunham como armas de privilégio para o velho mundo. O capitalismo internacional caiu na tentação do lucro fácil e ao mesmo tempo que retirava da miséria dezenas de milhões na China e na Índia, destruía a tradicional base do poder europeu e americano. Ao contrário daquilo que o desesperado Hollande alega, foi a esquerda europeia quem pugnou por essa abertura sem peias, sem aquelas necessárias precauções que garantissem a não-colaboração com os sistema de trabalho escravo, as tais situações de desigualdade com as quais a Europa do Estado Social não pode nem deve competir. Internamente, essas "aberturas" trouxeram o terceiro-mundo para as nossas periferias e o nosso sector progressista deu-se ao excelso artifício de criar um sector capitalista e empresarial que lhe é afecto e que sem a esquerda no poder, não pode medrar. Ofendendo as tais tradições pelas quais hoje ironicamente reclama, a esquerda empurrou para a extrema-direita uma até há pouco impensável quantidade de eleitores irritados pelo sistema do duplo critério, da manipulação da democracia eleitoral, da cedência perante aquilo - a islamização, há que afirmá-lo sem rodeios - que liminarmente todos rejeitam. 

 

A culpa é dos americanos, é de Barroso, dos ingleses e um dia destes, dos seus eternos aliados portugueses. Isto é afirmado por quem ainda não reparou que à sua volta existe uma sociedade razoavelmente americanizada. Das Levi's e t-shirts que "fizeram o Maio 68", até à música, inovações tecnológicas e correspondente língua dominante, cinema e ao horrendo fast-food, de tudo isso a esquerda se serviu para se impor como "diferente". Atacar os americanos por causa da "diversidade cultural", é de facto insólito. A esquerda é hoje quem mais brada pelo regresso ao consumo e à despesa, imagem de marca Made in USA, confirmando assim que Marx está enterrado em Londres, a múmia de Lenine é atacada por fungos e os seguidores de Trostky não passam de picaretas falantes. Mas do que estavam à espera?

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publicado às 10:40


10 comentários

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De Comentador a 25.06.2013 às 12:18

E entretanto Marine Le Pen, recem regressada de uma visita oficial à Rússia, vai consolidando a sua imagem nesse país:

http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2013/06/20/marine-le-pen-quer-estreitar-os-lacos-com-a-russia/

http://english.pravda.ru/world/europe/06-03-2013/123982-france_europe-0/

«O presidente da Duma, câmara baixa do parlamento russo, Sergei Naryshkin, disse que a França é atualmente um dos principais parceiros da Rússia na Europa e no mundo inteiro. Segundo ele, os russos têm acompanhado o desenvolvimento da situação política francesa e analisado as reformas que estão sendo feitas pelo atual governo.

Para Naryshkin, após observar também as atividades da Frente Nacional sob a liderança de Le Pen, é possível concluir que ela se preocupa de forma singular com os interesses genuínos da população, lutando contra o desemprego e preocupada com o bem-estar social.»
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De Comentador a 25.06.2013 às 12:20

Uma explicação possivel para a importancia que as autoridades russas deram à visita de Marine Le Pen:

http://fr.euronews.com/2013/06/21/russie-tapis-rouge-pour-marine-le-pen/

«L’accueil extrêmement cordial accordé à Marine Le Pen est une façon pour les autorités russes de montrer à la population que les lois votées par le pouvoir, telle que la loi réprimant la “propagande” homosexuelle adoptée au début du mois, sont aussi défendues par des mouvements politiques européens, sans préciser leur nature, tout extrémistes qu’ils soient.

Ce rapprochement soudain avec le principal parti d’extrême droite français n’est pas surprenant. Poutine tient tête au monde occidental “ultra-libéraliste”, comme elle ne cesse de le dénoncer, et le Kremlin se tourne de plus en plus vers une politique conservatrice et nationaliste (http://fr.euronews.com/2012/03/05/russie-un-nouveau-regne-poutine/) avec le rejet de l’immigration et une attitude agressive vis-à-vis d’autres puissances.»

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De João Quaresma a 25.06.2013 às 16:51

Já há muito que é notória a proximidade entre a Rússia e a Extrema-direita europeia. A estratégia de Moscovo sempre apostou na desestabilização da Europa Ocidental, recorrendo a quem fosse preciso. Não se trata de ideologia, é geopolítica pura.
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De Comentador a 26.06.2013 às 12:03

Marine Le Pen faz em conferencia de imprensa o balanço da sua visita à Russia

http://www.youtube.com/watch?v=lFslUDkfdZM#at=34
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De Comentador a 26.06.2013 às 12:08

Curioso o nome que foi dado a este site  da FN, tendo como fundo uma famosa imagem da propaganda soviética

http://perestroikafrance.fr/

site perestroika acessivel directamente a partir da página inicial do site oficial

http://www.frontnational.com/
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De João Quaresma a 25.06.2013 às 16:56

Boa análise, aliás como de costume. 
Aquilo a que temos assistido nas últimas décadas tem sido a receita para um desastre. Um desastre politicamente correcto que está prestes a começar.
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De Equipa SAPO a 25.06.2013 às 17:06

Boa tarde,

O seu post está em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

Atenciosamente,

Catarina Osório
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De Nuno Castelo-Branco a 25.06.2013 às 19:13

Muito obrigado, Catarina Osório e já agora, agradecimento extensivo ao nosso atento Sapo!
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De Isabel Jonet a 27.06.2013 às 21:38

Adorava viver um grande amor lésbico com a Marine. É linda de morrer.
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De Nuno Castelo-Branco a 27.06.2013 às 23:18

Linda de morrer? Bem, acho que ela faz mais o estilo "Grande Bertha"!
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