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Tiagos há muitos

por Nuno Castelo-Branco, em 16.07.13

 

O caminho para a terceira idade surge rapidamente como aquela conhecida recta dos Lagos Salgados, na qual todo o tipo de experiências de velocidade são permitidas. Ora, isto já me permite considerar com alguma distância, uma considerável parte dos políticos deste regime que vi nascer quando eu próprio vivia a meio mundo de distância e num Portugal infinitamente mais alegre, próspero e descomplexado que este e que aquel'outro, formalmente europeu em termos geográficos, mas totalmente indecifrável quanto à razoabilidade. Seria culpa exclusiva da 2ª República? Não, não era. Vivia-se habitualmente, porque assim gostam os portugueses de viver. Tal como os de hoje, assim eram os de ontem. 

 

Alguma passageira celeuma tem causado a cativante sinceridade de um deputado do PC, de seu nome Miguel Tiago. Não tendo aquele ar patibular dos recém-chegados dos anos 70, ainda não teve tempo para encaixar os artifícios  do saber aprender e fazer dos seus velhos - alguns ainda bem vivos e pontualmente visíveis - antecessores no areópago beneditino. Ao contrário dos PC francês, italiano e espanhol que resistiram ao peso esmagador da tutela soviética e hoje em dia confirmam a liquidação das velhas siglas e símbolos comprometedores, em Portugal tudo ficou, como seria de esperar, pelas aparências. Quando se tornou impossível esconder as brutalidades do estalinismo, as invasões e o cercear das liberdades nacionais dos chamados Estados satélites do leste, a prudência recomendou a adopção daquilo que J.V. Estaline sempre repudiara, ou seja, a formal criação de frentes, por muito duvidosas ou aparentes que fossem, com o solitário fito da diluição da pesada carga que a simples visão da foice e do martelo implicava.

 

Nos anos 80, um movimento previsivelmente conservador, os chamados verdes, procurou contestar uma certa ideia de desenvolvimento europeu do pós-guerra, conseguindo federar gentes de bases doutrinárias - se é que a maioria dos aderentes as tinham - muito díspares, mas onde uma certa ideia de limpa generosidade e uma cavalar dose de lirismo incendiou a imaginação dos eternos sonhadores de um Shangri-la ao alcance da quase imediata vontade. No nosso país, o "partido ecologista" era sem margem de qualquer dúvida, aquela organização que o fundador do movimento, o arquitecto Ribeiro Telles, criara com o núcleo dos opositores monárquicos ao regime deposto em 25 de Abril. De facto, foi a primeira vez que num país pouco habituado a novidades e a projectos que não fossem conformes à velha política dita clássica, se ouviu falar de Ambiente, Reordenamento do Território, protecção de solos e de património rural e urbano, etc. No plano internacional, a doutrina de desafio da administração Reagan conduziu à colocação de mísseis de cruzeiro na Europa ocidental,  despoletando toda uma série de reacções em cadeia que iam das manifestações sem grandes consequências, até ao planetário choque emocional  realizado pelos estúdios de Hollywood e apresentado urbi et orbi sob o sugestivo título The Day After. Se o repúdio pelo nuclear alastrou no ocidente como fogo num palheiro que arde no verão, contudo jamais se ouviu qualquer queixume a respeito dos milhares de mísseis apontados pelos militares do Pacto de Varsóvia a todas as cidades desse mesmo ocidente em fúria. Para alguns, Chernobyl consistiu num desagradável percalço que apenas denunciou uma situação precária há muito guardada no segredo das conveniências pelo tudo perdoar em prol da Vitória Final, tal como eram também negligenciáveis as terras exaustas e os rios contaminados por todos os tipos de poluentes vertidos pelas fábricas do mundo socialista. Esses eram problemas apenas a contabilizar nos países burgueses.

 

Após o desastre promocional representado pelo PREC, o PC decidiu-se  a dançar num teatro de sombras, criando a ilusão do frentismo. Pouco importou o caso de nenhum dos organismos parasitas ter qualquer consistência eleitoral e fosse remotamente traduzível em votos que garantissem mais alguns deputados. A aparência era algo que transcendia a mera contabilidade, principalmente tratando-se do caso de eleições que para um partido que se reclamava de revolucionário, não faziam qualquer sentido e apenas consistiam numa necessária etapa até aconselhada pelos tutores ideológicos, entre os quais avultava o senhor Boris Ponomariov. Optou-se então pelo princípio do arregimentar daquilo a que bastas vezes saiu das bocas de comunistas que rotineiramente visitavam a nossa casa: a atracção de uns tantos idiotas úteis. Cunhal decidiu apresentar a FEPU, falou de democratas e de católicos e logo depois da saída do irritante Manuel Serra e da sua ficcionada FSP, surgiria em segundo round com a APU, sigla que tal como a anterior, incitava a gritados trocadilhos galhofeiros em comícios dos hegemónicos partidos do denominado "arco da governação". 

 

Chegámos então à fase CDU, algo que de imediato deverá fazer qualquer turista alemão que passeie pelas ruas de Lisboa, abrir a boca de espanto. Se a CDU é em toda a Europa conhecida como exclusiva pertença e identificação dos conservadores da Alemanha - com as variantes CDA na Holanda e CDS em Portugal -, a urgência pelo jogo das aparências levou ainda à invenção de um certo verdismo cuja credibilidade jamais foi sequer por uma só vez escrutinada. Passando sobre o peso eleitoral que se adivinha tão visível como o oxigénio que respiramos, nem mesmo os mais crédulos poderão lobrigar no chamado "PEV", algo mais senão uma habilidade que ganha tempo de locução em S. Bento - aí está o PC com mais alguns minutos que aqueles concedidos pela expressa vontade popular saída das urnas -, não descurando as possibilidades que o Regimento do Parlamento oferece, entre as quais as moções de censura nada de negligenciável têm. Assim sendo, a agit-prop não olha a meios - o Parlamento é tão intervencionável como uma assembleia de alunos de liceu -, pois os fins são piamente justificáveis pelos sacerdotes e seguidores da superstição. 

 

O derrube de estatuária em todas as praças do leste europeu e inglório e apressadíssimo enterro da URSS, implicou um rápido adaptar à nova realidade internacional. Num ápice, desapareceram as até então obsessivas tiradas a respeito do controlo operário, ocupação de terras, liquidação da propriedade privada. O até então sacrossanto internacionalismo daria lugar às tiradas inflamadas quanto à independência nacional e numa forma de tal modo histriónica que facilmente ombrearia em disputa com um daqueles partidos que na Europa olha a sra. Le Pen como modelo a seguir. O poder autárquico fez ver ao PC, a necessidade de poder contar com um sector empresarial que satisfizesse as necessidades autárquicas de camaradas sempre ansiosos pelo arregimentar do máximo número de fiéis. A calamitosa situação das periferias da capital portuguesa são disso uma bem visível prova do princípio do vale tudo a que se chegou e para o qual já não existe remédio possível. Começámos então a ouvir insistentes batuques que tantaneavam a necessidade da "produção nacional e os direitos dos pequenos e médios (!) empresários" e nem por uma vez alguém ouviu o PC lamuriar-se quanto ao crédito fácil e à aquisição de propriedade, por muito pequena que fosse, por parte dos cada vez mais aburguesados portugueses. O novo-riquismo chegou e o comunismo caseiro dele fez pouco caso. É hoje perfeitamente natural assistirmos a longas conversas televisivas em que um irreconhecível PC fala sem cessar de economia e do inevitavelmente correspondente proveito - o famigerado lucro que atesta o sucesso - para quem nela se lance à aventura. Se é bem certo continuar o finca-pé quanto às chamadas E.P., objecto de todo o tipo de clientelas esfaimadas e nas quais os comunistas há muito participam a par dos seus aparentemente arqui-rivais burgueses - como se eles próprios não o fossem -, agora todos assistimos a um progressivo achinesar do discurso que olha ao sucesso, empreendedorismo, aumento da produção seja do que for e outras aleivosias que fariam corar de estupor os clandestinos dos anos 50 e 60. É este o PC das aparências e contudo...

 

...o verdadeiro, o de sempre, lá está. O silêncio e o ignorar de páginas da história, são a boa prova do concordar ou da aceitação de tudo aquilo que se conhece e é impossível ocultar. Quem passeie pela rotineira Festa do Avante e se abstraia dos foliões que ao sol bebem umas cervejas e para quem Lenine não passa de uma curiosidade empalhada, verificará que nem tudo está perdido. Com alguma sorte logo encontrará uma banca de venda de artigos de propaganda e poderá descortinar no meio das t-shirts com a efígie de um Che ® tão consumido como a Coca-Cola ® que mesmo ali ao lado se vende, uma ou outra curiosidade em que Estaline surge a cores. Organizações de "luta armada" enviam delegações muito aplaudidas pelas mais diversas razões, nelas talvez cabendo o exultar pela presença daqueles que garantem o comércio livre de algumas substâncias cheiradas em ambientes de plena decadência capitalista. Nada disto teria qualquer relevância, se o discurso privado de gente que "sabe o que quer" e milita na estrutura, não fosse completamente diverso daquele a que a estratégia oficial obriga. Há uns anos, era famoso um homem que no Metro de Lisboa gritava longos monólogos em hora de ponta e invariavelmente, o objecto do seu interesse era o Pai dos Povos, um benfazejo génio que soubera enterrar os milhões que  deviam mesmo ter sido justamente enterrados. Tecia loas à polícia política, à censura, ao esmagar da burguesia. Tudo parecia normal e sem novidades a reter mais atenção, até ao momento em que a generalidade dos até então apáticos ouvintes tinham o complemento infalível. O Pacto germano-soviético surgia como luminosa luz que teria para sempre mudado os destinos da humanidade, não fosse o catastrófico engano do Führer alemão, um homem excepcional, de estrato humilde e que tal como Estaline, soubera melhor que ninguém abater o poder das classes dominantes e colocar a judiaria no seu devido lugar. O resto poderão os meus leitores imaginar, pois decerto acertarão em todas as hipóteses de ora, por mais descabeladas que vos possam parecer.

 

É este o verdadeiro PC, o partido comunista que aprecio e considero tão genuíno como aquelas marcas hoje vendidas nas mais exclusivas lojas da Avenida da Liberdade. Se aparece um Miguel Tiago a dizer aquilo que já não conseguiu ocultar num quase inocente desabafo na net, apenas poderá haver escândalo, se concomitantemente também existir qualquer tipo de ilusão quanto àquilo que o PC jamais deixou ou deixará de ser. Na verdade, se algo há a lamentar, decerto não será o seu desejo por ver liquidada de qualquer forma possível e imaginável, a expressão de nove em cada dez portugueses. Já não se trata de um fortuito sonho de rolha, mas sim daquilo que ocupa a totalidade da caixa craniana de um sólido comunista: o extermínio pela imperiosa necessidade colectiva - mesmo que o objecto colectivo seja ignominiosamente diminuto, ridículo -, obrigando assim à criação do deserto que justfique o  imaginado oásis. 

 

 

Um PC que fale de empresários, empresas, liberdades sexuais, de nação, do Euro e da Europa? Ora adeus, que interesse tem? Avante! Miguel Tiago, precisamos de comunistas da antiga e sólida cepa da dourada alvorada dos anos vinte e trinta,  precisamente aqueles que afinal significam a única razão para a existência do partido e não sabem o que é um corralito.

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publicado às 00:25


5 comentários

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De Vasco a 16.07.2013 às 03:45

Infelizmente para a sua narrativa que o PCP nunca demonstrou qualquer semelhança com o que você descreve. Você não é capaz de dar um único exemplo de qualquer banho de sangue levado a cabo pelo PCP. O PCP, tirando a ARA, durante o estado novo, que se extinguiu depois do 25 de Abril, que atacava apenas alvos materiais e não pessoas - não houve um atentado a um político ou um capitalista levada a cabo pelo PCP - o PCP sempre lutou justo ainda que isso não queira dizer de acordo com as regras que interessam ao capital - porque, não sei se sabe, o capital não e Deus.

O PCP pauta a sua acção pela Constitucionalidade que, e aí você poderá compreender as palavras de M. Tiago, dá às pessoas o direito a resistir pela violência se for necessário.

Ou seja, a integridade física não é um valor absoluto. Aliás, não o é em nenhuma Constituição uma vez que só sob o princípio da possibilidade de ofender a integridade física de um cidadão pode, por exemplo, a polícia fazer algum do seu trabalho.
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De Vasco a 16.07.2013 às 03:59

Corrijo:


“O PCP, tirando a ARA, durante o estado novo, que se extinguiu depois do 25 de Abril, que atacava apenas alvos materiais e não pessoas - não houve um atentado a um político ou um capitalista levada a cabo pelo PCP – nunca se envolveu com milícias; o PCP sempre lutou justo ainda que isso não queira dizer de acordo com as regras que interessam ao capital - porque, não sei se sabe, o capital não e Deus.”


 


P.S.:


Já agora, a violência política sem uma ampla base de apoio popular é o que, no leninismo, significa terrorismo. Por isso o PCP, no que tem de Lenine, sempre rejeitou o recurso ao terrorismo. Outra situação é uma insurreição popular. Aí pode ser necessário escolher um lado e aceitar que haja violência.

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De Nuno Castelo-Branco a 16.07.2013 às 09:14

Fico-lhe extremamente reconhecido por numa meia dúzia de linhas, o Vasco ter-se limitado a confirmar tudo aquilo que acima tive o "desplante" de dizer. 
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De jojoratazana a 16.07.2013 às 12:42

Apenas um reparo que não é de desprezar, onde está na sua narrativa, a acusação de que os comunistas comem criancinhas ao pequeno almoço, e matam os velhinhos com injecções atrás  das orelhas?
O branqueamento deste facto, faz do senhor um agente ao serviço de Moscovo.
Bla bla bla seguido da música do costume.

  
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De Anónimo a 16.07.2013 às 17:38

Coitados dos pobres de espírito, que mais não fazem que atacar o Miguel Tiago em vez de escreverem algo de construtivo.
É triste não se ser capaz de mais, é o que temos...........

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