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Questões de liderança

por Pedro Fontela, em 08.07.08

 

Um dos principais empecilhos, na minha opinião, existem à questão monárquica residem na questão da titularidade do cargo. O poder em si do monarca (mesmo se considerar-mos um de moldes pós 1834) não é problemático já que como qualquer poder pode ser bem ou mal usado. A grande dificuldade vai na justificação da ocupação vitalícia – nem discuto a hereditariedade porque acho que esse conceito não tem salvação, é mau do princípio ao fim. Para admitir uma submissão nacional a um individuo temos que considerar alguns factores que na minha opinião passam a ser de ordem não política mas “heróica”, “mítica” ou mesmo mística. A justificação do papel do monarca não é algo evidente nem próprio de um mundo de iguais (já que para todos os efeitos o monarca não é o primeiro entre pares mas sim alguém que elevado acima dos seus congéneres).
 
A própria ideia de conceder tal poder a um Homem refere-nos à ideia do extraordinário (heróico) dessa pessoa, alguém que alcançou tais alturas e tal aclamação por mérito indiscutível e em quem (apesar de podermos não partilhar todas as opiniões) se poderia confiar implicitamente para defender a integridade e bem estar da Nação. Se me disserem que houve reis hereditários que se esforçaram por dar vida a esse ideal eu estarei de acordo mas isso nunca poderá legitimar a forma como ascenderam ao poder nem como perpetuaram a sua linhagem. Este tema trás sempre outros agarrados muito ligados à forma como organizamos a nossa sociedade em termos de reconhecimento. Muitas vezes fala-se na aristocracia com um certo desdém sem considerar outras coisas… Se consideramos que o monarca (ou outra figura que maneje o mesmo poder simbólico) exista mas não de forma hereditária que melhor forma de escolher um sucessor que através de um conjunto de notáveis eles próprios reconhecidos pelo mérito e de forma não hereditária? Por este prisma parece-me que a aristocracia e os seus privilégios (sociais e não legais, ou pelo menos não no sentido que lhe concedessem primazia sobre outros cidadãos) são indissociáveis de qualquer projecto monárquico – louvar um e demonizar o outro quando partilham tantas características não faz sentido.
 
Um dos outros pontos problemáticos da questão monárquica é a questão religiosa/simbólica. De certa forma qualquer tipo de liderança futura não pode assumir uma demarcada preferência neste campo já ao contrário do passado não temos (felizmente) uma religião de estado e qualquer poder que se queira não opressivo mas representativo tem que dar liberdade à expressão de cada um e tem que arranjar uma forma de se identificar com o todo que não se baseie na exclusão. De certa forma teria que recriar um modelo mais ao estilo da Roma Imperial do que da monarquia cristã tradicional; com o culto nacional de um lado e miríade de movimentos religiosos de outro lado – isto sem nunca entrar na interferência com as escolhas pessoais do detentor do título.
 
Provavelmente não consegui estabelecer qualquer tipo de pensamento sistemático sobre a questão, mas é algo que ocupa a mente de tempos a tempos e resolvi deixar aqui algumas reflexões sobre a questão – ao contrário do que se calhar muitos monárquicos que são leitores deste espaço pensam eu, apesar de ser assumidamente radical nas minhas escolhas políticas, não tenho qualquer aversão ao conceito de liderança, estratificação ou a questões simbólico/religiosas.

publicado às 16:02


5 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 08.07.2008 às 17:34

Finalmente, Pedro, voltaste!
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De Nuno Castelo-Branco a 08.07.2008 às 17:38

Finalmente, Pedro, voltaste! Mas há alguns problemas a colocar e um deles, será decerto, a estranha coincidência - convenientemente não reconhecida de jure -, de certas famílias que há 100 anos vêm monopolizando a república. Ao contrário dos monarcas, essa gente tem o poder "de facto". Quanto à religiosidade que teoricamente está implícita na instituição, mesmo essa é hoje discutível: para isso basta vermos como prevê a Tailândia a função de "protector de todas as religiões do país", outorgada ao rei. Já não estamos na Idade Média. Há muito.
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De Nuno Castelo-Branco a 08.07.2008 às 17:39

Já agora, sem querer monopolizar o forum. Bela imagem1
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De Pedro Fontela a 08.07.2008 às 21:17

Olá Nuno,

Como me "roubaram" a placa que usava para ter net estou reduzido a vir cá de vez em quando, vamos lá ver se arranjo algo mais constante!

Que há um monopólio sobre o poder real estou de acordo! Aliás sempre houve. Antes de 1834 eram as 50 familias, depois expulsaram uns miguelistas e incluiram uns burgueses ascendentes e andamos mais ou menos nessa carruagem desde essa altura - alguém reparou que os senhores que sairam de cá no 25 de Abril, depois de esvaziarem os cofres das empresas, voltaram todos de fininho passados poucos anos?

Quanto ao sagrado... eu penso que existe sempre uma parte muito importante de sacralidade neste papel, mas não quer dizer que tenha de ser algo confessional (como no passado o eram todas as coras) - tudo isto claro numa análise hipotética de uma monarquia funcional nuns moldes muito mas muito diferentes daqueles que vejo propostos pelos vossos "arautos".

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De Nuno Castelo-Branco a 08.07.2008 às 21:27

:) Pois, a falar, assim de fininho vamos lá...

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