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Dos Partidos

por Felipe de Araujo Ribeiro, em 23.07.13

O meu problema fundamental com a política de hoje, em particular com a política partidária, é o facto de não existir uma doutrina sólida e sã por detrás dos programas políticos. É tudo uma amálgama de doutrinas avulsas, mais ou menos compatíveis, mais ou menos assumidas por quem as professa.

 

Mas o que significa afinal, em termos práticos, toda essa amálgama de mais-ou-menos? O facto de não haver uma linha ideológica definida ou uma base política consistente vai legitimar a priori um infindo rol de rumos políticos completamente imprevisíveis e dependentes quase exclusivamente das sensibilidades individuais. Junte-se a isto o elemento variável da corruptibilidade humana, e temos um país completamente vulnerável a uma classe política assumidamente comprometida com coisa nenhuma.

 

O sistema é paradoxal: homens que são eleitos na base da demagogia, apoiados em vagas promessas eleitorais, validados publicamente por um maior ou menor carisma pessoal, com o propósito institucional de servir a generalidade dos cidadãos, são suportados por grupos e lóbis com interesses particulares. Ora quando estes interesses particulares colidem com os interesses da generalidade dos cidadãos; quando não existe uma sã doutrina política que seja indicativa do rumo a ser seguido pelos politicos; o que se pode esperar dos mesmos?

 

É demasiado arriscado deixar que seja o imprevisível nível de honestidade do indivíduo eleito a ditar se os favores serão ou não retribuídos aos interesses particulares ou se irá prevalecer o superior interesse da nação; o carácter semi-divino dos políticos está consagrado constitucionalmente; a inimputabilidade é a norma repetida ad nauseam.

 

Vem isto a propósito, e em particular, do enigma que constitui a doutrina do CDS-PP. São propostos como pilares ideológicos o Conservadorismo, a Democracia Cristã e o Liberalismo. É certo que a Democracia Cristã se não resume à doutrina social da Igreja, mas qual será então a razão para fazer-se referência à Democracia Cristã num país essencialmente Católico, se se aceitam e promovem perspectivas diversas e fundamentalmente contrárias àquela. Porque, mesmo que não seja essa a intenção, terá essa referência ideológica o efeito de atraír ao partido vários ingénuos subscritores Católicos que, sendo ainda em número significante em Portugal, se declaram fiéis à doutrina da Igreja.

 

A Democracia Cristã que defende o Partido Popular, tal como tem demonstrado repetidamente ao longo da sua história, é baseada na tradição Protestante e Liberal. Não só a nível politico, como económico e social. Esta tradição Protestante e Liberal de que falo é sem dúvida compatível com o Liberalismo Clássico e o Conservadorismo exactamente por ser maleável, adaptável e permeável a relativismos.

 

Estes conceitos rejeita-os firmemente a Doutrina da Igreja Católica pois não há nesta espaço para a tibieza do relativismo moral. A tradição Católica está construída nos pilares dos dogmas da verdade; a “tradição” Protestante está construída na rejeição destes mesmos dogmas. Haverá forma de compatibilizar estas duas tradições? Partindo do princípio que a doutrina Católica rejeita todo e qualquer compromisso com o erro, e que as suas verdades fundamentais são permanentes e imutáveis e não sofrerão mutações de acordo com teorias revolucionárias ou perspectivas progressistas, então estas tradições são fundamentalmente incompatíveis.

 

Quando, portanto, os dirigentes do CDS-PP fazem referência à Democracia Cristã, eles incorrem num erro grave que é o de apresentar esse pilar como de tradição simultaneamente Católica e Protestante. A implicação desta distinção é assunto já discutido aqui, onde estableço a distinção entre o Conservador e o Tradicionalista face ao Progresso. Em suma, o Católico é por natureza contra-revolucionário e anti-conservador, enquanto que o Protestante poderá ser ora revolucionário, ora contra-revolucionário, ora progressista, ora conservador, sem que isso inviabilize, contudo, a sua coerência em relação aos pilares protestantes em que assenta a sua moral.

 

Além da minha radical desconfiança em relação ao sistema partidário, acresce portanto o total descrédito dos partidos Portugueses, quando perspectivado por um Católico. É pelas razões acima expressas que insisto que não existe um partido político em Portugal onde um Católico possa votar em consciência, sem traír implicitamente os pilares da sua fé.

 

E por isso defendo repetidamente a abstenção, na consideração de que a avassaladora expressão eleitoral dos abstencionistas constitui o mínimo da contribuição política que poderá fazer um Português para a salvação da Nação.

publicado às 16:53


12 comentários

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De Cristina Ribeiro a 23.07.2013 às 17:16

Clap, clap, clap! 
Bravo!
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De Felipe de Araujo Ribeiro a 24.07.2013 às 15:44

:) Obrigado Cristina
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De Francisco Arantes a 23.07.2013 às 21:29

Bom post. Li com atencao especialmente a primeira parte.
A ideologia e' importante para fornecer certas balizas relativamente abstractas que identifiquem um partido, mas eu sou um adepto limitado da sua eficacia na realpolitik diaria porque de certa maneira pode castrar a criatividade ou minar o debate.
E a ideologia nao e' tudo. Um programa eleitoral, uma mocao de estrategia, uma ideia de accao politica, sao formas de concretizar as ideias politicas e essas sao verdadeiramente interessantes, para mim. E' a passagem da cultura geral 'a lideranca.
E depois ha', claro, a negociacao com parceiros, o mandato, a implementacao, as contingencias..
Nao estou a querer desvalorizar em demasiado a ideologia, mas 'as vezes irrita-me a facilidade com que se empenham bandeiras ideologicas em politicas descontextualizadas no seu valor. Um bom politico domina em todas as fases.


Nao sao apenas as ideologias partidarias que defendem um pais de governantes populistas. Acho que sao um bom contributo, mas nao serao, talvez, sequer a melhor forma. Mais eficaz e' um debate fluido e consequente na sociedade civil (a discussao do casamento para todos teria beneficiado disto por exemplo), liderancas descentralizadas onde pessoas de diferentes areas estejam coordenadas e tenham poder de influencia (elites, associacoes) ou mesmo regras escritas ou nao que limitem a capacidade de destruicao de um politico, com o reves de retirar flexibilidade 'a accao (limites ao endividamento por exmplo).
No fundo acho que o que de facto nos defende de politicos populistas e' a promocao do bom senso em todos. A educacao politica e' um passo, em particular o debate ideologico e' um primeiro passo e importante, mas nao se esgota ai' o combate 'a demagogia, ao populismo e 'a corrupcao.
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De Felipe de Araujo Ribeiro a 24.07.2013 às 15:40

Caro Francisco,
Obrigado pelo comentário. Em relaçao à realpolitik, aproveito para citar o recente artigo do Samuel, que aconselho a leitura compelta:

"Estando o conceito de interesse nacional na base do que se designa por realismo político, para o qual o estado age como um actor unitário e racional, e que, portanto, teria também na sua base uma concepção de bem comum, acontece que, como assinala Adriano Moreira, com a promoção dos partidos políticos a actores centrais do processo político, a partir do século XIX «o conflito de interesses começa a aparecer como o fenómeno principal da política, em detrimento da ideia-mestra tradicional do bem comum»2, pelo que não admira que um dos seis princípios do realismo político enunciados por Hans Morgenthau seja o de o interesse ser definido como poder."
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De Francisco Arantes a 24.07.2013 às 17:03

Olá Felipe, obrigado pelo comentário. Excelente o artigo e muito bem colocada a perspectiva sobre a situação passada. É difícil ler a citação do Roger Scruton e pensar nos símbolos que identificam a identidade social portuguesa, penso que a IIIa republica esta marcada por profundas divisões sociais que teimam em aprofundar-se sem nenhum elemento nacional agregador. Mas enfim, isso é outra conversa.


Sobre o meu comentário, deixa-me só dizer mais que após reler, acho que usei mal o sentido de realpolitik. A separação que eu queria de facto fazer era entre política estratégica e operacional, colocando a ideologia no plano estratégico. Basicamente o meu ponto é que as ideologias têm de ser discutidas e cultivadas em pontos suficientemente abstractos para balizarem as operações e nã de modo a castrarem opções que tacticamente poderão ser mais interessantes.
Um exemplo bastante actual para mim é a discussão ideológica que existe à volta do processo de ajustamento português. Acho que muito do debate público está significativamente poluído, mas o confronto ideológico está significativamente a atrapalhar o plano táctico/operacional (socialistas vs. liberais). A necessidade de cooperação que o momento impõe depende mais de bom senso, tacto e perspectiva dos intervenientes, assim como de regras claras que limitem o espaço de cada um perseguir o seu interesse (acordos escritos, por exemplo). A incoerência ideológica torna-se um mal menor no momento de nos sentarmos à mesa de negociações porque é um verdadeiro sinal de cedência unilateral.
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De Felipe de Araujo Ribeiro a 25.07.2013 às 12:41

Talvez tenha razão. O meu problema é que não consigo ver a ideologia nem de liberais nem de socialistas. O liberal é socialista e o socialista é liberal, se e quando assim bem entende. Não será isso levar o balizar dos limites um pouco longe demais? O PS, por exemplo, é socialista só mesmo quando lhe convém, e acho até uma pouca-vergonha o partido ostentar tal designação, independentemente da repulsa que me causam tanto o PS como o socialismo.
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De Duarte Meira a 23.07.2013 às 22:19

Caro Felipe Ribeiro:

Parabéns pelo seu apontamento, valioso porque aponta ao nervo das questões. Há (como denuncia) muito quem pense que as ideias são para ficar nos papéis dos programas: fora deles é que está a vida, e na vida o que vale são as pessoas. Parece que não se parecebem de que isto é... mais uma ideia.

Muito haveria para dizer sobre o seu texto, especialmente interpelativo para um liberal velho, como me prezo de sempre ter sido. Mas, para já não avanço com argumentos mas... com pessoas. Sejam estas, para ficarmos só entre nós, as pesssoas de um Frei Francisco de S. Luís ou de um Alexandre Herculano. Parece ao Felipe que o liberalismo de Herculano era incompatível com o catolicismo? Ou que o cardeal D.Francisco era um "herege" protestante?...

Também me agradou muito que tocasse nesse indigesta e cinzenta miscelânea que é o programa do CDS. Impõe-se de facto uma clarificação.
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De Felipe de Araujo Ribeiro a 24.07.2013 às 15:11

Caro Duarte,

Apesar de não conhecer o suficiente do processo do cardeal D. Francisco, algo que conheço é a sua afiliação à maçonaria. E a verdade é que a Igreja se pronunciara já o suficiente [1] em relação à maçonaria para que se pudésse ter evitado a nomeação de um pedreiro-livre para Patriarca, eventualmente Cardeal, não obstante as pressões políticas. O que deveria ter acontecido, portanto, era que Frei Francisco de S. Luís fosse corrigido fraternalmente nas suas opções heréticas e convidado a renunciar à maçonaria imediata, publicamente e sem reservas. Caso decidisse persistir no erro, a única solução seria que fosse excomungado.

 

Sobre Herculano, partilho com ele alguns conceitos, mas não consegui ainda entender suficientemente as suas ideias. Parece-me que as suas aventuras de juventude pelo maravilhoso mundo dos aventais lhe deixou algumas marcas pouco apetecíveis, e nunca terá sido capaz de assumir claramente as suas posições.

Um abraço


[1] Clemente XII, In Eminenti, 28 de Abril de 1738

Bento XIV, Providas, 18 de Maio de 1751

Pio VII, Ecclesiam A Jesu Christo, 13 de Setembro de 1821

Leão XII, Quo Gravioria Mala, 13 de Março de 1825

Pio VIII, Traditi Humilitati, 24 de Maio de 1829

Litteris Altero, 25 de Março de 1830

Gregório XVI, Mirari Vos, 15 de Agosto de 1832

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De Anónimo a 24.07.2013 às 01:11

Óptimo texto. Quanto ao CDS também me pergunto onde está o catolicismo deles, porque nada fazem pelos mais fracos. Lembram-se dos pobres e dos humildes na hora dos votos.É a realidade nua e crua.
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De Felipe de Araujo Ribeiro a 24.07.2013 às 15:16

Obrigado,
O catolicismo no CDS nao passa de um pro forma, só é pena que tal nao seja assumido.
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De O Ingles a 24.07.2013 às 16:23

Caro Felipe,
Penso que seria bastante mais interessante para a sua analise confrontar esse hipotetico preenchimento de um vazio ideologico do CDS-PP atraves de uma acentuacao da 'democracia crista' com o principio da separacao Igreja-Estado, principio esse estruturante do estado de direito democratico dos paises ocidentais.

'E que cada vez que leio a expressao 'democracia crista' nao consigo deixar de pensar que a palavra democracia nesse conceito foi introduzido apenas para suavizar e permitir a introducao de doutrinas religiosas (ou forcas religiosas ) no poder politico de um estado, algo que para alem de discordar profundamente, tem demonstrado ao longo da historia consequencias gravissimas. O lacismo de um estado foi uma conquista dolorosa e preciosa na historia politica ocidental e 'e um dos pilares que sustem a tolerancia e a liberdade individual de uma sociedade.

Basta analisarmos as lutas politicas que tem no seu centro tambem questoes religiosas existem em todo o mundo, por exemplo recentemente no Egipto com a Muslim Brotherhood, para termos nocao do verdadeiro impacto destrutivo que a religiao pode representar quando colocada no seio do poder politico. Mais uma vez, nao se trata de um ataque a qualquer tipo de religiao organizada, mas sim a colocacao de qualquer tipo de doutrina religiosa no fundamento doutrinal de um partido.

E por isso que na minha opiniao, o CDS-PP tem se afastado e bem essa ligacao periogosa a esse conceito indeterminado que e a 'democracia crista'. Agora nao sei se deliberadamente ou apenas naturalmente, devido a repulsa natural que um sistema laico exerce na construcao diaria de um partido. Alias, uma doutrina nunca e um conjunto de principios estanques e artificiais. Sao moldados atraves do sistema politico, da realidade, e nesse sentido, julgo tambem que ausencia ou presenca de uma ideologia politica e em ultima analise criada pela acao partidaria e nao atraves de introducao de conceitos artificiais que existem fora do sistema. E a realidade que define o criterio de decisao, e nao o criterio de decisao que define a realidade pois esse criterio nunca e geral o suficiente para prever todas as consequencias que resultam de uma decisao.

Enfim, mas penso que um dialogo interessante para se ter, mas quanto a religiao na politica, as aguas estao separadas e assim devem continuar.
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De Felipe de Araujo Ribeiro a 25.07.2013 às 12:46

Caro "O Ingles",
Resposta ao seu comentário aqui: http://estadosentido.blogs.sapo.pt/2978247.html
Um abraço

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