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A edição de um fascículo dedicado à crise nacional nunca seria suficiente. Para relatar de um modo fidedigno os episódios rocambolescos dos últimos tempos políticos seria necessário proceder à compilação de um dicionário idiotamático, uma enciclopédia de expectativas baixas e dissabores. Swaps, consensos, coligação, oposição, memorando, troika, assistência, títulos de tesouro, dívida, juros, banco privado, sociedade lusa de negócios, reforma do Estado, renegociação, remodelação, conselho de Estado, irrevogabilidade, entendimento, e, mais recentemente, salvação nacional. E depois há que acrescentar os bonecos desanimados, o elenco de um filme de mau gosto; Passos Coelho, Portas, Gaspar, Cavaco Silva, Maria Luis Albuquerque, Arménio Carlos, Ana Avoila, Catarina Martins, João Semedo, Jerónimo de Sousa, Alexandre Soares dos Santos, Angela Merkel, Christine Lagarde, Durão Barroso, Marcelo Rebelo de Sousa, Judite de Sousa, Marques Mendes, entre outros protagonistas que dão vida ao mistério da desgraça (a ordem obedece ao princípio do caos e portanto não é alfabética). A derradeira manchete que gira em torno da nomeação de Machete inscreve-se nesta lógica de mais um episódio de uma novela interminável. Os detalhes curriculares não fazem diferença alguma. Se esgravatarmos na mesma matéria porosa que envolve a política, encontraremos na árvore genealógica da contaminação as ramificações perigosas e os frutos colhidos indevidamente. A reforma do Estado não passará de uma utopia vendida ao desbarato. Na extensa fila de revoluções adiadas, que antecedem o redesenho do país, do governo e da administração pública, temos a reformulação do quadro mental. Entramos no domínio das psicoses comportamentais que fazem tombar a ideia de salvamento nacional. Como poderemos esperar que haja um consenso entre as diversas forças políticas em relação a um conceito difuso de salvamento nacional proferido por Belém, se os partidos políticos ainda não entenderam a urgência da situação nacional? Assistimos a uma tragédia na sua acepção mais pura. Os factores conducentes ao descalabro estão em campo e jogam de um modo leviano com a vida dos Portugueses. Por um lado, Seguro reclama que não troca boas ideias por eleições antecipadas e por outro lado o governo procede a enxertos e podas para dar a ilusão de dinâmica de reorientação de austeridade para outra coisa qualquer. A dissolução do governo e a elevação de outro não serve para resolver a questão. A farinha provém do mesmo saco. Algo mais profundo tem de emergir do pantanal. Um processo mais próximo da refundação dos valores dos partidos, uma espécie de dissolução ideológica. Os intervenientes políticos operam ao serviço do inferior interesse dos seus partidos. Os socialistas desejam o poder a qualquer custo, mas Cavaco trocou-lhes as voltas e o governo ganhou tempo para levar a mau porto os termos impostos pela austeridade. O governo deseja acertar posição com os socialistas para negociar com a Troika, mas enganou-se no parceiro. O governo deve acertar agulhas com a população Portuguesa. Com Machetes ou à machadada, o Governo tem a obrigação de concretizar de um modo objectivo os termos do tão desejado crescimento. Para continuar a ser governo (deixemo-nos de tretas), o executivo tem de tirar o tapete debaixo dos pés do Seguro e mostrar como se faz. Chamem o que quiserem à manchete nacional; um New Deal Lusitano ou coisa que o valha. Por outro lado, os cidadões, súbditos de Belém, também não podem esperar sentados. Os Portugueses têm de voltar a admitir o cooperativismo, as parcerias, a partilha de custos e benefícios. A iniciativa privada tem de sair do buraco em que se encontra. A população Portuguesa tem de colocar ao serviço das comunidades o seu génio e as suas respostas criativas. Da penúria à luz o caminho será árduo. Mas não se pense que o regime político vigente em Portugal trará as respostas que tantos anseiam. Esperemos que do marasmo em que nos encontramos possamos afixar um outro cabeçalho, outro que não seja póstumo. De algo que morreu e que jamais retorna.