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"Honro-me de, com Manuel Alegre, termos evitado que alguns membros significativos do PS se demitissem nos dias anteriores a Seguro dizer que não havia acordo. Por mim, nunca acreditei que aquelas conversações fossem feitas sem que houvesse uma cisão grave no PS. Seguro mandou-me um recado por Almeida Santos a dizer que estava muito magoado comigo. Ora eu também estou com ele, principalmente depois da entrevista que deu à inteligente entrevistadora da SIC, Ana Lourenço, em que só falou uma vez e de passagem do PS, como se fosse o seu dono. Ora não é. É apenas o seu líder, eleito por esmagadora maioria, pelo congresso, a que assisti, é verdade. Mas isso não lhe dá o direito a falar sempre na primeira pessoa. Pelo contrário."
Nota: a reconciliação do papá Soares com o poetastro que ninguém cala já espoletou alguma mossa no seio do Partido Socialista. O partido jacobineiro ficará, doravante, em suspenso. O aviso foi claríssimo: se Seguro quiser pensar fora da caixa, isto partindo do pressuposto de que Seguro pensa e raciocina, terá, certamente, pela frente os braços ferinos dos dois senadores deste regime bananeiro. O mote está dado: ou Seguro cumpre escrupulosamente as prescrições que o desvairamento regimental impõe, ou, então, será corrido sem apelo nem agravo.
" Tanto Manuel Alegre como eu evitámos que eles se demitissem antes de Seguro se pronunciar. Mas confesso-lhe que fiquei desiludido com o discurso brando com que anunciou o desacordo e deixou algumas portas abertas para uma nova discussão. Também fiquei desiludido com a entrevista que deu depois a Ana Lourenço, como já disse atrás, em que numa hora falou sobre ele e uma só vez no PS."
Nota: há que repetir até à exaustão os resultados maravilhosos da reconciliação jacobineira entre o ex-presidente e o poestastro que ninguém cala.
"Têm o sentido de que o que conta é a austeridade e que a pobreza das pessoas e as próprias pessoas que se lixem, para usar o termo que hoje é muito usado. Os valores não contam. A ética e o humanismo, que permaneceram depois da Segunda Guerra Mundial hoje são motivo de riso dos tecnocratas, que enchem os bolsos e nada mais. Pois bem, isso vai ter de mudar ou a Europa cai no abismo e nada nos vale. Não creio que sejamos tão estúpidos que caiamos nesse abismo. Por isso tenhamos esperança. E acreditemos nos nossos valores. As troikas que se lixem, senhor Presidente da República e senhores primeiro-ministro e vice--primeiro-ministro."
Nota: Pois é, caríssimo Pai da Democracia, de facto, os tecnocratas sequiosos de poder e dinheiro enchem os bolsos e nada mais. Essa elite penduriqueira vive, unicamente, para roubar os desvalidos da sorte e da fortuna. E roubam para dar a quem? Roubam, entre outras coisas, para dar o vil metal a uma estranha fundação, patrocinada por um ex-presidente alcandorado a Pai da Democracia, que vive, note-se, da esmola do contribuinte. Um belíssimo exemplo, diga-se de passagem. Fixem isto, caros leitores: são sempre os "outros" que roubam. Já os jacobinos, que, curiosamente, sempre viveram na esfera do poder, negociando favores, trocas e baldrocas, sãos uns santinhos. É esta a lógica do socialismo nacional. Habituem-se.
"Estou encantado com este Papa. Tenho por ele um grande respeito e uma enorme admiração. É a grande figura deste nosso século xxi, no plano não só religioso, mas político, social e sobretudo humano. E note--se que conheci pessoalmente muitos Papas, de Paulo VI a Bento XVI. Não tive ainda a oportunidade de conhecer o actual. Digo-o em função da sua excepcional humildade, da sua preocupação com os pobres, contra a chamada austeridade (que igualmente abomino) e a luta pela igualdade entre homens e mulheres, católicos e não católicos, crentes e não crentes e de todas as outras culturas e religiões. É um Papa de um humanismo excepcional, simples, amigo dos pobres e das crianças e que visita os presos e não tem medo de nada e de ninguém. É o maior homem deste século, a favor da paz e desejando mais igualdade. Só tem paralelo com Barack Obama, um grande presidente e um humanista como Sua Santidade. Ambos contra a nefasta austeridade e em favor das pessoas acima de tudo."
Nota: começo, muito sinceramente, a pensar, com algum receio, no real significado político, social e teológico do papado do Papa Francisco. Um elogio de Soares é, em qualquer parte do mundo, uma mordedura venenosa. O veneno não é letal, mas provoca, decerto, uma agitação insabubre. Quando alguém diz, sem se rir, que Obama está a "favor das pessoas acima de tudo", é, certamente, caso para pensar na sanidade mental dessa pessoa. Contudo, quando esse alguém é Mário Soares, não é de insanidade mental que estamos a falar, mas, sim, de desonestidade intelectual. Mais: comparar o Papa Francisco a Barack Obama, como se se tratasse de uma comparação usada e normal, revela que Soares perdeu completamente o domínio da realidade. O pensamento mágico produz, de feito, alucinações muito perigosas. Ademais, desde quando é que Obama é um humanista excepcional que age "em favor das pessoas acima de tudo"? Haja bom senso.
"Quanto ao Senhor Presidente da República, que se diz católico, nunca o ouvi falar do Papa para exaltar a sua figura. E ao novo governo, incluindo Portas, que também se diz católico, também não. O novo governo só pensa em mais austeridade, como o Presidente no pós-troika. Sem uma palavra a favor do Papa, que não conta para eles. O Presidente, com o seu governo querido (até pelo menos 2015, como disse), não fala da situação do povo português, cada vez mais desesperada. E agora a Igreja também está um tanto silenciosa. E os fiéis também não contam? Não me parece, porque os fiéis vão necessariamente gostar deste Papa e o silêncio da Igreja está--lhes a custar muito. Como o do Presidente, que de católico a sério parece não ter nada. Acima de tudo para ele está o pós-troika e o dinheiro. Quanto às pessoas, nunca falou delas, como fez no Dia de Camões, a quem nem sequer se referiu. Para o Presidente também não conta, tal como o nosso Prémio Nobel, José Saramago. Pobre Presidente, desgraçado Portugal."
Nota: A que Igreja se refere Mário Soares? Pelos vistos, o papá do regime vive numa realidade paralela, prenhe de símbolos e alegorias jacobineiras, em que a Igreja e os fiéis seguem à risca os seus comandos fantasiosos. Para Soares, comparar o Papa a Obama é um exercício, em si, insuficiente, pelo que há que inocular nos pobres leitores do periódico I a imaginativa crença de que a Igreja tem estado, estranhamente, silenciosa. Uma coisa é certa: com Soares o riso é garantido. E interminável. Valha-nos isso.
Entrevista de Mário Soares ao I.