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A memória é o que tenho em vez de uma vista*

por Regina da Cruz, em 04.08.13

 

Dá vontade de desaparecer do mundo, sim. Ignorar. Largar. Abrir mão. Deixá-los andar, deixá-los falar, deixá-los mentir, deixá-los roubar, deixá-los fazer todas as falcatruas e deixá-los reaparecer em frente às câmaras de televisão com a maior desfaçatez e cinismo. A realidade é o que é: intemporal, impassível, indiferente às nossas inquietações. Somos nada. Outros virão depois de nós e tudo seguirá como se nunca tivéssemos existido.

E eis que surge uma lembrança de manhãs frias e roupa desconfortável – camisolas de lã que picavam o pescoço, pés frios – cabelos compridos penteados com esticões de dor, amarrados num rabo de cavalo que impedia os movimentos da testa. Gritos e gargalhadas dos outros durante a hora de recreio e visitas surpresa de enfermeiras para dar vacinas – (a razão por que detesto surpresas?). Cheiro a pães com marmelada caseira atirados com toda a força para o terreno atrás da escola. De vez em quando a excitação de uma cabeça rachada e a interrupção da rotina: as aulas acabavam mais cedo ou o recreio durava duas horas, porque a professora tinha ido fazer de ambulância.  Às vezes havia guinchos e reguadas – para cúmulo, quem estreou a régua nova foi o filho do marceneiro que a ofereceu. Fez 20 erros no ditado! Tão burro... E aqueles pacotinhos de leite achocolatado que sempre recusei com nojo e aquele ódio transcendente aos quinze dias de praia em Junho. Praia, os miúdos, aqueles miúdos todos, aquelas cançonetas, os lábios roxos da água gelada e as malditas merendas que desta vez não podia atirar para lado nenhum... – “Não, não quero ver a minha professora em fato de banho...” (lembro-me de pensar mas jamais verbalizar).

 

Parece que foi noutra vida e no entanto, constato que nada mudou. No essencial permanecemos iguais: o mesmo tipo de postura e participação na realidade. As pessoas não mudam. Somos a mesma criança de ontem e dos dias que hão-de vir, até ao fim. Há os que constroem a realidade, os que a manipulam e que dela tiram proveito e depois há os que a observam, participando nela como forma de sobrevivência apenas. Não tenho qualquer outra perspectiva que não seja a mesma de sempre. E quanto mais vivo (ou mais me desligo), mais igual a mim mesma fico. Para saborear um resquício de felicidade, não sonho com um futuro feito de beleza, de justiça, de verdade e lealdade, não. Não generalizadamente. Talvez encontremos estes valores de forma muita viva, em algumas pessoas, pontualmente. Sonhar é iludirmo-nos; idealizar é perder tempo. Em vez disso, quando me apetece experimentar a emoção da felicidade, ainda que de forma muito breve, mergulho nas memórias desses tempos autênticos e primordiais. É quanto basta para constatar a brevidade e irrelevância de todas as coisas, e sorrir.

 

*“Memory, Agent Starling, is what I have instead of a view” – Silence of the Lambs, 1991

 

 

publicado às 12:52


6 comentários

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De Anónimo a 04.08.2013 às 15:21

Bonito texto, mas real. Na verdade nós existimos, mas eles agem como se fôssemos robôs a quem comandam. É vergonhoso pensarmos que somos manobrados por humanos que apenas pensam e vivem para aumentarem o seu ego. Não há sentimentos pelo outro,não há justiça, não há nobreza de pensamentos, apenas existe o EU. Será que não temos culpa desta letargia?Temos e muita, porque não somos audazes e temos medo da mudança, medo do outro e como tal preferimos mais do mesmo nem que esse mesmo nos leve à destruição. Será que poderemos continuar a sorrir? Não. Já não há espaço nem tempo para sorrir, apenas nos resta tempo para esperarmos mais um dia, igual ou pior que o outro. É sina dum país de gente nobre, a quem lhes tiram a nobreza duma vida digna de qualquer ser humano.
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De Anonimo a 04.08.2013 às 17:15

Penso que este texto e o comentario do Anónimo a 04.08.2013 às 15:21 exemplificam sentimentos derrotistas infelizmente bastante comuns na psique portuguesa. Nao concordo com a premissa do texto. A mudanca ocorre sempre. Agora, para melhor ou para piorar, esta nas maos de quem a trabalha. Temos que colocar as coisas em perspectivas sem duvida, mas ha que ter coragem de sonhar, de trabalhar, de suar para fazer com que as coisas acontecam. Mais energia e forca e o que eu aconselho a autora do texto.
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De Regina da Cruz a 04.08.2013 às 17:24

Trabalhar é o que tenho feito desde sempre enquanto outros se limitam a usufruir. Interessantes os comentários.  Pena que sejam anónimos.
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De Anónimo a 04.08.2013 às 22:44

"Penso que este texto e o comentário do Anónimo a 04.08.2013 às 15:21 exemplificam sentimentos derrotistas infelizmente bastante comuns na psique portuguesa."Não são derrotistas são a realidade deste pobre país em que só mandam as pessoas trabalhar, mas não dizem onde. Que fazem aqueles que ainda têm o luxo de ter um trabalho? Trabalham e alguns de sol a sol e no fim aumentam tudo e diminuem-lhes os vencimentos. Como se pode ter um espírito positivo assim? Sim, temos de ser positivos e pensar num amanhã melhor que o hoje, o pior é que o dia seguinte é sempre pior que o anterior. Esta é a realidade quer queiramos ou não.  E no fim nem Portugal nem os outros países irão pagar dívida alguma. Como se pagam dívidas sem economia? Não se pagam. Esta é uma certeza. 
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De Anónimo a 05.08.2013 às 14:01

Caro Anónimo a 04.08.2013 às 22:44,

Para ja espero que nao interprete o que eu escrevi como uma provocacao. Nao 'e de todo o meu objectivo. Quando falo em espirito derrotista, apesar de compreender que 'e uma expressao invocativa de lugares comuns, nao e com qualquer tipo de intencao de rebaixar ou mesmo de simplificar um problema complexo que eu proprio vivo diariamente.

Agora, penso que existe algum fundo de verdade em lugares comuns. A experiencia passada, nacional e internacional, esta repleta de crises, e a maioria delas bastante mais dificeis que mercados laborais saturados. No caso de Portugal, nao nos podemos esquecer que ha pouco menos de 50 anos, miudos com pouco menos de 20 anos eram mandados para a guerra onde eram obrigados a participar naquilo que e considerado por muitos como a materializacao do inferno na terra. O meu pai foi um deles. E isto e apenas um exemplo de um episodio onde os portugueses foram submetidos a provacoes altissimas, daquelas que exigem tudo o que uma pessoa tem para oferecer.

Agora, isto ja e historia, bem sei. Mas penso que nestes desafios actuais, nao nos podemos esquecer do exemplo passado, dos desafios superados pelos portugueses, nem que seja para ganharmos uma base racional de optimismo, para conseguirmos dizer que se eles conseguiram nos tambem vamos conseguir. 'E necessario ir buscar forca a algum lado para continuar, ate ao fim. Por muito dificil que seja a situacao, 'e preciso continuar ate ao fim e nunca desistir ate encontrar algo que cada um considere o melhor para si. Penso que e perigoso limitar toda uma existencia a conceitos de pagamos de dividas soberanos.
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De XXI a 04.08.2013 às 22:50

Identifico-me com boa parte do seu texto, com uma pequena diferença, não consigo livrar-me do sonho e do ideal, já tentei, já fuji, escondi, ignorei mas eles estão sempre lá e surgem ao mais singelo racional, de tal forma que temos uma relação intima e conflituosa com a realidade, sim temos porque tomo sempre o lado deles e a realidade não gosta e, impõe-se fazendo com que fuja e me esconda, apenas para logo ali os voltar a encontrar.

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