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Piropotecnia

por John Wolf, em 01.09.13

Deve ter sido num dos corredores da sede do Bloco de Esquerda (BE) que a coisa aconteceu. Estavam para lá uns andaimes montados, um dos pintores com o rolo já mergulhado na bandeja de tinta de água para dar uma segunda demão à parede quando zás - sai um piropo. Por azar do destino, o pintor nem sequer imaginava que a garota a quem ele mirava o decote, a quem dirigia a boca, era, nem mais nem menos, a Catarina Martins. A co-dirigente, embora quisesse responder à letra (estava raivosa, a espumar pelos cantos da boca), lembrou-se do sentido de Estado e aproveitou a deixa, a sugestão - "marchava já" -, e pensou: "porque não tornar o piropo num dossier político?". E assim, sem mais nem menos, e à falta de assuntos políticos por tratar, a agenda ficou preenchida. Para Catarina Martins o debate sobre piropos deveria ser aberto e não engolido pela conveniência machista. Acontece que as feministas não detêm a licença de exclusividade sobre os limites da graça ou a fronteira do assédio. Ao restringirem o debate ao género feminino, demonstram um sectarismo típico de regimes fundamentalistas, de tudo ou nada. O BE que se apresenta como intérprete das pulsações humanas, parece ter tido a sua génese num país não latino, pouco mediterrânico. O piropo que nasce com o olhar e evoluiu para o assobio, para a frase fei(t)a, tem origem na arte dos trovadores - eu sei, perdeu-se a guitarra e apenas ficou o sado-fado. A cultura do galanteio que roça o explícito faz parte da matriz dos países de sol, da bandeira do suor e das garotas de clima ameno, estilo Ipanema; Itália, Espanha, Grécia e Portugal. Ao pretender levar para a conferência académica o que decorre no passeio, na pausa de almoço dos pedreiros e serventes, os intelectuais do bloco demonstram que não entendem que a boca lançada à rapariga funciona como um pequeno orgasmo virtual, uma picada para aliviar a amargura da solidão. Os praticantes da modalidade espontânea não sabem fazê-lo de outro modo, e infelizmente acreditam que nunca terão acesso a esse escalão de beleza passageira, à dama perfumada pelo olhar altivo - o desdém pela classe inferior. Se calhar a luta feminista do BE é mais uma luta de classes, mas parece que se serviram do manual de insinuações errado, o código do assédio sexual. A mulher, alvitrada em mau Português, é uma intocável ao alcance de muitos-poucos trolhas. O país também se define nessa estratificação sócio-sexual. Esta é uma das dimensões da análise, mas há outras que nao foram arrastadas para a mesa pelas sociólogas de Semedo. As bocas mandadas aos homossexuais e aos negros não contam nessa contabilidade? A linguagem suja deitada ao cigano também não? Ou seja, gostaria de saber se o conceito de assédio que o Bloco de Esquerda refere tem um sentido restritivo. Gostaria de saber se para além de desejarem a reforma do Estado, pretendem corrigir a cultura de rua dos Portugueses? Quando se levanta uma lebre desta natureza é melhor tornar a questão mais abrangente. Se é a piropotecnia que está em causa, não me parece que seja um sector que possa ser regulado.

publicado às 13:04


6 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 01.09.2013 às 20:25

Espera aí! E o que têm a dizer as fulanas do Bloco se alguém lhes disser no meio da rua ..."eh pá, és um grande coirão!" Isso cabe no assédio, no insulto ou na agressão moral? 
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De Artur de Oliveira a 01.09.2013 às 20:39


"Não piroparás a mulher do próximo, a não ser que sejas lésbica ou ela transgender" Evangelho segundo São Francisco Louçã Capítulo 11/2 versículo 69...
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De Equipa SAPO a 02.09.2013 às 09:50

Bom dia,
este post está em destaque na área de Opinião do SAPO.
Cumprimentos,
Ana Barrela - Portal SAPO
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De John Wolf a 02.09.2013 às 10:00

Muito obrigado pela gentileza, cara Ana Barrela.
Cordialmente,
John 
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De Castrol a 02.09.2013 às 16:05

Ergamo-nos contra mais esta atitude do BE , castradora de Direitos e Liberdades!
Aqueles que se auto entitulam  "defensores da Liberdade", não são mais do que pequenos e patéticos ditadores, que se consideram superiores ao comum dos mortais, logo com direitos sobre as suas garantias e liberdades!
Querem casar os homossexuais - Aceitamos;
Querem aprovar a Coadopção por casais do mesmo sexo - Aceitamos;
Querem.... - Aceitamos.
Está na altura de dizer BASTA!!!

Vivemos em Democracia. A Liberdade não é só de alguns!

Quero assistir a uma tourada, o BE que se lixe;
Quero comer um bom bife mal passado, o BE que se lixe!
Quero mandar um piropo, o BE que se lixe!
Quero ter a minha religião, o BE que se lixe!

Já basta ter de pagar os ordenados principescos desta corja!


 

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