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A Tropicália lusa

por João Pinto Bastos, em 26.09.13

Glosando o título de uma das últimas postas do John, é possível afiançar, com algum grau de certeza, que Portugal aportou à verdadeira terra prometida: a Tropicália da parvoíce. Porquê Tropicália? As razões são variadíssimas, mas há uma, em concreto, que ultrapassa em prejuízo todas as outras. Falo, pois claro, da enormíssima falta de tacto das nossas elites políticas e económicas. Nada do que tem sucedido nos últimos tempos constitui, em bom rigor, uma surpresa malfadada. Num país resgatado e falido, como é, infelizmente, o nosso caso, o mandarinato dos macro e micropoderes continua a comportar-se como se Portugal fosse uma praia solarenga, repleta de criados-autómatos disponíveis a servir prontamente os desejos mais sensualóides dos diversos chefes da companha. Veja-se, por exemplo, a subida das yields. Tem-se falado, nos últimos dias, no retrocesso de alguns dos principais indicadores económicos, e, para quem acompanha diariamente a realidade económica, investindo e produzindo, o que se tem passado na economia não representa, propriamente, uma surpresa de maior. Não obstante os bons resultados das exportações, os juros mantêm a sua trajectória de subida, com a consequente diminuição da credibilidade creditícia da República. A crise de Julho teve os seus efeitos, e, por mais que se avente o contrário, a economia piorou, pelo que as probabilidades de sermos sujeitos a um segundo resgate aumentaram exponencialmente. Perante isto, as respostas têm sido dúplices e pouco coerentes. No seio do Governo, a ambiguidade mantém-se. É certo que Paulo Portas, ferindo as susceptibilidades do comentadeirismo estupidificante, tem tentado remar contra a maré, insistindo numa diplomacia política mais aguerrida. Porém, os resultados têm sido, até ao momento, demasiado parcos. Se atentarmos aos efeitos visíveis das negociações com a troika, verificaremos que as mesmas ainda não obtiveram fumo branco. O momento também não é propício a declarações políticas substantivas, devido ao festim eleitoral que, como é de tradição, corta cerce no bom senso, já de si muito reduzido, dos principais agentes políticos. Ademais, se olharmos para os restantes actores institucionais, o cenário não é de todo muito abonatório. O Presidente da República não passa, em boa verdade, de um penacho institucional, que não aduz rigorosamente nada à resolução dos problemas do país. Fala pouco, age mal, e só empata os verdadeiros agentes da mudança. Um dos nós górdios do regime reside, justamente, no lugar político ocupado pelo inquilino belenense. Por fim, temos o inevitável oráculo justiceiro do Sr. Dr. Joaquim Sousa Ribeiro. O Tribunal Constitucional é, neste preciso momento, um dos actores mais deletérios da vida política portuguesa. A jurisprudência constitucional tem sido, com algumas nuances, um obstáculo seriíssimo à necessária reforma do país. O dia de hoje, com o acordão sobre as alterações ao código laboral, é, por si só, um bom exemplo do bloqueio político em que estamos ensarilhados. Reformar nestas condições, com estes obstáculos, e com estas personagens de aviário, é, de facto, um exercício que convoca bastas doses de paciência. Os próximos meses serão um teste bem agudo para os principais arautos da governação, e não será, certamente, com discursos excessivamente "crescimentistas" que sairemos deste buraco. Mais: seria bom que, doravante, os principais rostos da governação olhassem para o cidadão comum, sobretudo para aquele que empreende e tenta, a muito custo, sobreviver no meio do confisco e dos entraves de um Leviatã que, não obstante o resgate, continua a viver sob um fausto desmedido. É este o exercício que importa fazer.

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publicado às 13:51







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