por Cristina Ribeiro, em 23.10.13

" ( ... ) Quando ainda na primeira meninice, abeira-se do berço do futuro artista uma fada amável que, estendendo a varinha por cima da cabeça do inocente, diz assim: « Tu serás ' músico ', a tua alma terá a sensibilidade necessária para apreender o sentido das coisas que te rodeiam e será dotada da afinação precisa para compor o canto revelador dessa mesma sensibilidade. Tu serás ' músico '; não no sentido restrito que agora se dá ao termo, mas como o entendia no século XVI o nosso Francisco de Holanda que chamava ' desmúsicos ' aos que pela pintura se não interessavam. Tu serás ' músico ', mas não poderás entregar-te completamente à inspiração, acompanhando os voos da tua fantasia, como é dado a teus irmãos mais felizes na arquitectura dos sons. Ficarás eternamente algemado à terra que te criou e que te inspira. Nas entranhas desta mesma terra, nas pedreiras do monte, na árvore da floresta e nas areias do rio, encontrarás instrumentos do mais variado timbre; o arco íris fornece-te toda a escala de tons de que precisas e, para a melodia necessária à tua obra, inspirar-te-ás na Natureza e na vida que te cercam. ( ... ) A boa fada que isto diz é invisível, e fala tão baixinho que nem se pode ouvir. E é por isso que há tantas vocações erradas em volta desta profissão de arquitecto. "
E é por isso que nossos olhos são hoje feridos com a visão de tantos mamarrachos, acrescento eu!