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Acordei hoje sobressaltado. Não só porque a Bélgica é o penico do Mundo e a chuva não dá tréguas ao meu sono, mas também porque acordei com uma notícia que, a princípio, me pareceu ridícula – parece que a Ministra Assunção Cristas teve uma bela ideia: criar um Código dos Animais de Companhia (overregulation, alguém?) no qual, entre outras coisas, estaria estipulado que, num apartamento, ninguém poderia ter mais de dois cães.

 

Ri-me e voltei para a cama, mesmo sabendo de compromissos próximos – e pus-me a pensar. Então decidi escrever o meu primeiro post neste blogue que já sigo há vários meses. Um grande agradecimento ao Samuel por promover o meu regresso à blogosfera (sempre adorei esta palavra) e um cumprimento aos meus dois conhecidos aqui do blog – a Ana Rodrigues Bidarra e o José Maria Barcia.  Sendo o meu primeiro post, vou-me alongar com coisas que nem sequer parecem relacionadas, mas, no fundo, são-no.

 

Enfim, voltando ao que interessa.

 

O suposto governo ‘liberal’, como a esquerda gosta de lhe chamar, não só não o é economicamente, como parece que em tudo o resto também presta culto a tudo menos a liberdade. Nem sequer passarei pelo ridículo que é limitar número de animais domésticos que uma pessoa pode ter na sua propriedade ou na fracção autónoma que arrenda. Só isso deveria ser motivo suficiente de repúdio.

 

Poderia também criticar as pequenas estupidezes ao longo da proposta: i) denúncia sem necessidade de distúrbios causados pelos ditos bichos; ii) excepção a ‘raças nacionais puras’, que se me afigura como racismo e possivelmente contrário às regras de Direito da União Europeia em matéria de livre circulação de bens; iii) e claro, em jeito de comic relief, o facto de a Ministra Assunção Cristas ter um número incontável de filhos. Não sei porém se estão todos num apartamento e, vai na volta, deveria livrar-se de alguns, não vão os vizinhos queixar-se. E ainda, claro, de não ser dada aos condomínios liberdade para limitarem, como alguns fazem, o número de animais.

 

Poderia ainda criticar o facto da grande maioria das queixas terem origem no facto de tal associação de protecção dos animais, ou de veterinários, ou seja lá do que for, não ter sido consultada.

 

E critico tudo isso, naturalmente. O condicional era uma mera figura de estilo. Mas no geral o pessoal até acha este género de coisas porreiro, desde que seja ‘bem aplicado’ e em nome de alguma coisa, ‘tá tudo bem pá!

 

E é este o ponto mais sério que queria chegar. Portugal é um país com uma mentalidade extremamente paternalista e a nossa cultura política nunca prestou culto à liberdade – se este Código estipulasse que os donos podiam ter quantos animais quanto quisessem, podem crer que havia muito boa gente a reclamar. Vai na volta e este é um assunto muito batido, mas a nossa reverência e optimismo em tudo o que seja uma limitação à escolha é sem precedentes. E este é também, e principalmente, um problema das elites políticas, técnicas, profissionais.

Mesmo historicamente, basta pensar nos nossos mais exaltados líderes. Sem contar com o D. Afonso Henriques, conta-se um D. João II, um Marquês de Pombal e, para muitos, um Salazar. E mesmo depois do 25 de Abril, é claro quem foram os dois políticos com maior sucesso eleitoral – Cavaco Silva e José Sócrates. Agora, o quê que cada uma destas pessoas têm em comum?  O D. João II assassinou familiares para se manter no poder, mas como tirou poder à nobreza para o concentrar em si, supostamente, pela grei, é o nosso rei mais genial, e diz que até inspirou o Maquiavel; o Marquês de Pombal era um tirano e assassinou uma família inteira de modo original (aquele método que inclui cavalos e desmembramento), mas como reconstruiu Lisboa depois do terramoto e pôs o país pá frente (supostamente, também não sou historiador económico), só fez o que tinha a fazer; o Salazar, nem se fala... sim, havia censura e morreu um punhado ou mais de gente, mas ao menos equilibrou as contas públicas! E, depois do 25 de Abril um Cavaco e um Sócrates, tão diferentes e tão iguais – obstinados, demasiado ambiciosos, cegos aos seus próprios erros e liderando o país com punho de ferro com uma confortável maioria absoluta – ‘epá, posso não concordar, mas ao menos ele é um líder forte e decisivo’. Viu-se.

 

Enfim, há um efeito síndrome de Estocolmo que nos leva a gostar de quem nos fode e de quem é um ‘líder forte’. ‘Ao menos ele vai avante’, diz o pessoal. O que se quer é alguém que lidere, alguém que fique com a chatice de tomar as decisões por nós. Que se lixe a autonomia, que se lixe a responsabilidade, que se lixe tudo caralho. O que interessa é que haja aquele gajo. Que até decida quantos cães tenhamos em casa. Não precisa de matar os familiares e supostos traidores, nem é preciso ter uma polícia secreta. Desde que nos diga quantos cães podemos ter em casa, é na boa.

 

Não há culto à liberdade, nada. Só um simples ‘seguidismo’ que, no fundo, só reforça as grilhetas que nos prendem. Será uma questão cultural? Será um síndrome de portugalidade? Ou é algo que contamina toda a política nacional? Onde até auto-proclamados liberais são tudo menos liberais? Que limitam número de animais domésticos e aumentam impostos como se não houvesse amanhã? Liberais o caralho, é o que eu digo.

 

A Liberdade não existe no discurso da política portuguesa. Até é usada, mas nunca, nunca aplicada. Dos cães aos reis.

 

PS: perdoem-me a linguagem por vezes menos apropriada. às vezes um bom 'caralho' serve como um belo recurso estilístico para ajudar a expressar os pensamentos mais profundos.

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publicado às 23:24


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