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A Tentação Totalitária

por Nuno Castelo-Branco, em 30.10.13

 

Tal como o fiz por volta dos meus vinte anos, Daniel Oliveira também terá (?) lido A Tentação Totalitária. Uma obra dos tempos do já então anunciado crepúsculo da Guerra Fria, criou um não menos previsível mal estar entre as elites bem pensantes do momento, os detentores das chaves de um politicamente correcto que ainda não era assim chamado.

 

Discorrendo sobre os acontecimentos portugueses, Revel entrelaça-os com o projecto da Union de Gauche em França, demonstrando as insanáveis dificuldades entre partidos com concepções de sociedade radicalmente diferentes e apenas unidos pelo desejo de susbtituição daquilo que genericamente se designa de direita

 

A vontade eleitoral, ditada num preciso momento em que nas urnas se discute a eleição de deputados ou de autarcas, é por alguns encarada como mais um dos sofismas que a democracia representativa engendra para a manutenção de privilégios de classe, a exploração dos trabalhadores e quiçá, num estádio apenas reservado a algumas nações, do imperialismo. Em resumo, a vontade popular expressa pelo voto, não se traduz na etérea vontade colectiva que só a legitimidade revolucionária poderá encarnar. 

 

O caso de Loures - apenas um, entre outros -, oferece-nos a oportunidade de uma vez mais depararmos com o há muito negado papão da tentação totalitária que uma boa parte da esquerda portuguesa assume como coisa natural e factível. Conhece-se o método, desde sempre na linha da frente da parafernália da agit-prop, de alardear insistentemente as palavras liberdade e democracia, a todos ou à maioria fazendo crer estarmos perante lídimos defensores dos nossos direitos de plena cidadania, equiparando-nos a qualquer sueco, britânico ou dinamarquês. No entanto, bebendo na caudalosa fonte da nossa experiência histórica, apenas pretendem adequar a atracção que os portugueses adquiriram por regimes musculados, aos condicionalismos impostos por uma sociedade hoje à disposição da informação e pior ainda, integrada num espaço político e económico pouco benevolente para com intentos messiânicos. Assim se explica o disparatado e embevecido elogio que outrora os republicanos fizeram a Pombal - copiando-lhe métodos e assumidamente empunhando o chicote como símbolo de bom governo - e a mais discreta mas nem por isso menos sintomática admiração cultivada em torno do Príncipe Perfeito.

 

Aproveitando  uma machete que há poucos dias deu brado,  podemos dizer que Salazar é o chefe que a esquerda portuguesa gostaria de ter tido durante meio século. E sem que disso se tenha dado conta, foi-o. O não-alinhamento com os americanos e a sempiterna e bem fudamentada desconfiança relativa a todas as novidades que chegavam do Novo Mundo, foram acompanhadas pela burocracia do já então sacrossanto serviço público, pelos Planos de Fomento, apropriação estatal de bens privados, fixação de rendas, tabelamento de preços e outras originalidades muito próprias de regimes a universalmente impor a uma humanidade sempre refractária a demasiadas regras que o reclamada bem colectivo aconselharia. 

 

Para aqueles que Jean-François Revel escalpelizou numas tantas páginas, a mensagem a salientar, consiste no facto de os socialistas também fazerem parte dessa direita que no seu artigo Daniel Oliveira exautora, alijando-a do espectro partidário como coisa execrável a eliminar. Não ousa dizê-lo por escrito, mas não tenhamos qualquer hesitação em encarar essa verdade, pois é o que concretamente estará em causa. É isso mesmo o que desabafa, por muitos circunlóquios que possa fazer no sentido de ocultar o seu pequeno e húmido sonho totalitário. Embora não o refira expressamente, insinua um certo recuar no tempo, quando Estaline proibia a colaboração dos partidos comunistas com a social-democracia, abrindo então o caminho a outras formas daquilo que não só se armava de ferramentas governativas próprias do regime de leste, como num caso, até o nome socialista incluiu na designação do Estado. Tratando-se não de uma relação estratégica mas de uma clara subordinação que mais tarde se verificaria em toda a Europa de leste conquistada pelo Exército Vermelho, a ocidente criou as resistências que todos conhecemos e por isso mesmo não valerá a pena insistirmos em comentários supérfluos. A verdade que o articulista do jornal do Sr. Balsemão pretende esquecer, consiste na existência da comunhão entre os socialistas da social democracia do PS e aquilo a que rancorosamente chama de direita, no caso português o PSD e o CDS. Uma direita bem estranha, herdada de um ainda recente processo histórico que a atirou para o canto dos acessórios disponíveis pelo Estado Socialista em que vivemos. Essa comunhão ultrapassa largamente as sempre resolúveis clivagens existentes a propósito da maior ou menor dimensão do Estado, ou aquelas que decorrem do interesse de grupo quanto ao exercício do poder. Este socialismo que rapidamente é traduzido em clientelismo eleitoral, consiste no mais estrénuo defensor do status quo que explica as nossas catastróficas dificuldades do presente. A Constituição, coisa redigida por deuses já caídos, é intocável. A divisão administrativa é coisa tão sagrada como a água do Ganges, enquanto a propriedade privada, por muito ínfima que seja, nada mais significa senão um enchido social a triturar em prol da dimensão do Estado que nela esfomeadamente participa sob a estulta fórmula de contribuições, impostos e taxas. Não existe democracia se não existir a negregada direita. Não estando a falar de negócios e empreendedorismo,  esta verdade até por Daniel Oliveira poderá ser apercebida. E é mesmo. 

 

O articulista quer guerra e essa declaração é endereçada a uma "direita" que afinal inevitavelmente incluirá o PS. Ninguém no seu perfeito juízo imagina a gente do PS unir-se numa frente comum com um PC que o articulista do Expresso gostaria de obrigar a existir - o BE nem sequer seriamente conta, jamais passou de um fait-divers -, derrubando a chamada democracia burguesa para implantar um sistema vertical de legitimidade revolucionária à mercê de uma ínfima minoria activista e pretensamente esclarecida pela força da polícia, difusão da espionite e total apropriação da coisa pública - e privada - por uma caterva de alucinados securitários. Com uma direita como esta existente em Portugal, porque razão se apoiaria o PS nos enervados radicais, aliás hoje numa fase de rápida deglutição pela sede do Rato? Não perderemos por esperar por esta previsão.

 

Não existe a coragem e ainda menos, a força necessária para o extermínio físico dessa direita que se for ampliada a todos os defensores do regime da "democracia burguesa", significa mais de quatro quintos da população portuguesa. Os artifícios, sejam eles vertidos pela oratória ou pela irritada escrita, vão-se sucedendo num amontoar de manientos ódios sem nexo e completamente desfasados daquilo que é a realidade do mundo em que vivemos. Até o PC, entidade calculista e com a certa prudência que a experiência aconselha, disso há muito se apercebeu, por ali restando alguns resquícios decorativos do mausoléu estalinista, a tal simbologia que apenas reconforta fanadas vontades e a nostalgia de um passado tão distante e perdido como o voto censitário, a escravatura ou a condenação às galés. Isto não significa que se por desastre se verificasse uma profunda alteração da correlação de forças no globo que tal coisa propiciasse, de novo não viessem à tona ímpetos de outros tempos. Com ou sem chineses, tal cenário é pouco provável. 

 

O jornalista do plutocrático grupo empresarial do Sr. Balsemão, representa um confortado e típico produto daquilo que o PC costuma designar de esquerdismo. Com tudo o que isso implica, inconsequente aventureirismo incluído. Um filme de sessões contínuas.

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publicado às 11:53


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