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Se a Bélgica existe como Estado independente há apenas 178 anos, aquele território com toda a sua multiplicidade étnica e cultural, acostumou-nos à sua presença no mapa da Europa desde há séculos. Herdeira do velho Ducado da Borgonha, florão maior que os Habsburgos trouxeram à coroa espanhola, a região foi um imenso cadinho cultural que contribuiu poderosamente para aquilo a que normalmente chamamos civilização europeia moderna. A separação da Holanda, deu-lhe mais consistência identitária, pois numa época em que a obediência religiosa criava laços de união entre populações de falas e origens diversas, aqueles que mais tarde se denominariam como belgas, formaram dentro do império espanhol, uma parte substancial no complicado xadrês político que compunha a luta pela hegemonia continental. O porto de Antuérpia era há muito conhecido como imprescindível entreposto comercial no norte da Europa, sucedendo a Bruges e para Portugal, consistiu numa importantíssima posição onde se negociavam as especiarias, perfumes e outros luxos asiáticos. A União Ibérica de 1580-1640, traria também contingentes - os terços - portugueses aos chamados Países Baixos Espanhóis, participando na defesa do território face aos ímpetos expansionistas da França e à agressividade de uma Holanda que pretendia firmar a sua independência, ao mesmo tempo que conseguia tornar-se numa potência marítima de primeira ordem. A existência de um território "tampão" tornou-se evidente para as potências e a Guerra dos Trinta Anos provou a posição essencial que a Bélgica ocupava naquele ponto nevrálgico do continente.
De facto, a Bélgica existe há séculos e tem sido território de constantes disputas. A mudança de dinastia em Madrid, manteve-a na soberania da Casa de Áustria por mais um século e só a tempestade napoleónica teria consequências que conduziriam à inevitável autonomização política do conjunto franco-flamengo, plasmada na independência de 1830. A Bélgica tinha que existir como país e era necessária à paz no continente. Assim o exigiram todas as grandes potências dela vizinhas, desde a vigilante Grã-Bretanha, às ambiciosas França e Prussia. O seu valor consagrar-se-ia na I Guerra Mundial, onde a sua independência consolidar-se-ia nos campos de batalha que irmanaram francófonos e neerlandeses. Nada parecia então ameaçar o novo reino que já se estendera a África, onde o Congo lhe dava uma certa dimensão entre as potências colonizadoras.
Os constantes e permanentes conflitos entre os grupos linguísticos, poderão ter uma forte componente de afirmação de identidades culturais, mas no caso belga, é dolorosamente evidente a questão financeira. Para qualquer estrangeiro medianamente interessado nas notícias emanadas pelas agências, trata-se de um assunto de contabilidade e isso é por si só, degradante. Os belgas foram durante muito tempo, um exemplo de convivência pacífica e de demonstração das possibilidades oferecidas por um Estado aberto à participação de todos.
Na Europa de há apenas cem anos, outros exemplos apontavam para a exequibilidade da manutenção de uniões estatais multi-étnicas, onde as diferenças culturais, linguísticas e religiosas, eram mitigadas pela necessidade de paz e progresso material. Isso aconteceu durante séculos na Europa central, onde o caso austríaco foi evidente. A antiga fidelidade dinástica que outrora unia povos tão diversos como alemães, húngaros, eslovacos ou croatas, foi desbaratada em prol da miragem nacionalista de contornos aparentemente difusos, mas que ameaçam complicar ainda mais, a já caótica situação de uma União Europeia que não encontra afinal, bases muito sólidas para se erguer.
A Bélgica sempre existiu e assim deverá continuar a ser. É inconcebível e perigoso precedente, uma hipotética dissolução. A coroa terá decerto e uma vez mais, uma missão decisiva.