Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Por formação e feitio, evito, sempre que posso, o seguidismo acéfalo das hordas pós-moderninhas, pois não tenho a menor paciência para tolerar, com uma resignação mui cristã, as toleimas dos muitos intelectualóides que desfilam, actualmente, a sua casmorrice em tudo o que é sítio. Vem isto a propósito do acontecimento que marcou o dia de ontem. A morte de Mandela é, como se tem visto, um acontecimento de proporções globais. Entende-se: o Madiba foi, com todas as suas contradições, um homem único. Se há feito que o distingue, no parco mundo, qualitativamente falando, dos homens políticos do último quartel do século XX, é o modo calmo e sereno como gizou a transição política do apartheid para o novel regime democrático sul-africano. Mandela merece, juntamente com De Klerk, os louros deste dificílimo processo político, pois sem ele as coisas teriam, forçosamente, tomado outro rumo. Dito isto, era expectável que a morte de Mandela fosse usada para fins muito dúbios. Em primeiro lugar, e aqui falo, sobretudo, para aqueles que se reclamam da mundividência conservadora, Mandela não foi um santo. Desde o guerrilheirismo da juventude até ao conúbio fraternal com as forças do totalitarismo estalinista, Mandela teve as suas pechas. É por isso que, nos exercícios memorialísticos realizados e por realizar, a rememoração destes factos adquire alguma relevância, até porque fazer de Mandela um guru pós-moderninho das desgraças alheias não tem, em bom rigor, qualquer fundamento. Em segundo lugar, nas bandas da esquerdalhada infantil, como é, aliás, tradição useira, a morte de Mandela já foi apropriada para ataques pessoais, nos quais, em rigor, é difícil distinguir a pilhéria e o chiste do argumento sério e ponderado. A esquerda vive da proscrição do outro, e, nesse sentido, a morte de um político venerando é, quase sempre, uma oportunidade única para o exercício desapiedado da verdasca caluniadora. Não obstante a irrupção destes fenómenos de ignorância mal amanhada, Mandela deve ser recordado como aquilo que foi durante toda a sua vida: um tipo diferente dos demais, com enormes qualidades, e, também, com alguns defeitos, um político que soube estar à altura das circunstâncias, no momento em que os seus condidãos mais demandavam o bom senso dos seus dirigentes políticos. Mandela foi, genericamente, a súmula destes pequenos e significativos predicados, sabendo, como poucos, unir amistosamente o desavindo. Mas não foi o santo "new age" que as famélias redes sociais fazem dele. Também errou, e é, justamente, por isso que foi um homem grande, porque soube aprender com os desacertos, corrigindo o pecado e a ilusão. A verdade costuma estar, muitas vezes, nos interstícios dos aranzéis mais indecifráveis, e com Mandela não é, e jamais será, diferente.